A final da Copa do Mundo entre Espanha e Argentina será disputada no MetLife Stadium, mas acompanhar o confronto dentro do estádio se tornou uma possibilidade distante para boa parte dos torcedores. A poucos dias da decisão, o ingresso mais barato disponibilizado pela FIFA custa 7.380 dólares, cerca de R$ 37.734, mesmo sem oferecer uma visão privilegiada ou qualquer tipo de serviço exclusivo.
O valor corresponde a um assento de categoria 2 liberado recentemente pela entidade para a final da Copa do Mundo, em uma nova tentativa de atender à enorme procura pela partida. O problema é que essa entrada representa apenas o primeiro degrau de um mercado no qual os preços cresceram de forma impressionante durante a competição.
Nas áreas mais valorizadas, ingressos oficiais chegaram a ser oferecidos por até 32.970 dólares, algo em torno de R$ 168.470. Os pacotes de hospitalidade, por sua vez, alcançaram aproximadamente 34.500 dólares, cerca de R$ 176.490, por pessoa. Enquanto isso, o ambiente de revenda autorizado pela FIFA abriu espaço para anúncios ainda mais fora da realidade, incluindo valores de milhões de dólares por um único lugar.
Preços variáveis transformaram a final da Copa do Mundo em um evento de luxo
A dificuldade para entender quanto realmente custa um ingresso para a final começa no próprio modelo de venda adotado durante a Copa do Mundo. Não existe mais um preço único para cada categoria, já que os valores mudam de acordo com o momento da compra, a procura e a quantidade de entradas disponibilizadas pela FIFA.
Desta forma, dois torcedores posicionados em setores parecidos podem ter pago quantias completamente diferentes. Um ingresso de categoria 1, por exemplo, começou a ser vendido por aproximadamente 6.730 dólares. Porém, com o sistema de preços variáveis, novas entradas da mesma categoria chegaram ao mercado oficial custando entre 19.995 e 32.970 dólares.
A diferença aparece principalmente no anel inferior do MetLife Stadium. As primeiras filas e os assentos mais próximos da região central do campo são tratados como os lugares mais valiosos, enquanto as áreas superiores concentram as entradas teoricamente mais acessíveis. Mesmo assim, falar em ingresso acessível se tornou algo praticamente impossível. As opções mais baratas disponíveis nos últimos dias seguem acima dos 7.000 dólares, valor suficiente para afastar grande parte do público que normalmente acompanha uma Copa do Mundo.
Outro ponto que aumenta a confusão envolvendo os ingressos da final da Copa do Mundo é o fato de a divisão de categorias da FIFA não seguir exatamente os três anéis do estádio. Uma mesma classificação pode aparecer em setores e alturas diferentes, dependendo da proximidade com o meio-campo, com os gols e com as limitações estabelecidas para cada confronto.
Com isso, a categoria indicada no momento da compra nem sempre permite ao torcedor saber de forma clara qual será a qualidade da visão. Essa falta de precisão passou a ser ainda mais questionada depois que alguns compradores afirmaram ter recebido lugares diferentes daqueles que acreditavam estar adquirindo.
Há relatos de torcedores que compraram entradas de categoria 1, divulgadas como opções mais próximas ao gramado, mas acabaram direcionados para setores mais afastados, ligados à categoria 2. As reclamações ajudaram a provocar uma investigação das procuradorias-gerais de Nova York e Nova Jersey sobre as práticas utilizadas pela FIFA nos jogos realizados no MetLife Stadium.
A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, afirmou que os torcedores não devem ser induzidos a pagar valores exagerados e precisam ter segurança de que receberão exatamente os ingressos comprados. As autoridades também investigam se a forma como a FIFA anunciou e liberou novos lotes pode ter colaborado para aumentar artificialmente a procura e os preços.
Enquanto os ingressos tradicionais atingem valores cada vez maiores, os pacotes de hospitalidade colocam a final de vez no mercado dos grandes eventos de luxo. Nesse modelo, a entrada é acompanhada por serviços como alimentação, bebidas, recepção especial, estacionamento, acesso prioritário e áreas privadas.
O pacote Trophy Lounge chegou a 29.000 dólares por pessoa. Já duas entradas do Champions Club foram disponibilizadas por 20.000 dólares cada. Em determinadas modalidades, os preços individuais atingiram aproximadamente 34.500 dólares. Alguns camarotes corporativos nem sequer apresentam publicamente o preço por assento. O custo é negociado dentro de pacotes fechados, voltados principalmente para empresas ou clientes com maior poder financeiro.
O resultado é uma final que se afasta do torcedor comum e passa a depender cada vez mais de experiências premium, setores exclusivos e serviços adicionais. Neste cenário, o ingresso da final da Copa do Mundo deixa de ser apenas o direito de acompanhar Espanha e Argentina dentro do estádio e passa a fazer parte de um produto destinado a um público muito mais restrito.
FIFA também lucra com o aumento no mercado de revenda na Copa do Mundo
Se os valores oficiais já chamam atenção, o mercado de revenda apresenta números ainda mais impressionantes. A plataforma autorizada pela própria FIFA permite que os proprietários definam quanto desejam receber pelos ingressos da Copa do Mundo, sem que exista um limite máximo estabelecido. Em determinado momento, quatro assentos localizados atrás de um dos gols, no anel inferior do estádio, foram anunciados por quase 2,3 milhões de dólares cada. O pacote completo ultrapassava os nove milhões de dólares.
Não há indicação de que alguém estivesse disposto a pagar esse valor, que estava completamente distante da realidade da entrada. Porém, o anúncio permaneceu ativo na plataforma oficial e representou bem o cenário criado ao redor da final.
Nos últimos dias, os anúncios disponíveis para a Copa do Mundo chegaram a variar entre 7.440 dólares e valores próximos de 11,5 milhões. A liberdade para determinar o preço permite o surgimento de ofertas absurdas, mesmo que elas não resultem necessariamente em uma venda.
A FIFA afirma que não estabelece quanto cada usuário deve pedir no mercado secundário. A entidade, no entanto, ganha dinheiro sempre que uma negociação é concluída dentro da plataforma.
Primeiro, a FIFA recebe o valor da venda original do ingresso da Copa do Mundo. Caso o comprador decida revendê-lo, a entidade cobra uma taxa de 15% do vendedor. Depois, quando uma nova pessoa adquire a mesma entrada, há outra comissão de 15% aplicada ao comprador.
Desta forma, a organização pode ser remunerada três vezes pela mesma cadeira na final da Copa do Mundo. Além do pagamento inicial, ainda recebe nas duas pontas da revenda, o que faz com que o crescimento dos preços também aumente diretamente o valor arrecadado pela entidade.
O sistema é permitido nos Estados Unidos, onde a revenda de ingressos com lucro é legal. A utilização de uma plataforma oficial também reduz o risco de falsificações e negociações clandestinas. Ainda assim, o formato levanta dúvidas porque a FIFA, responsável por controlar o mercado, também se beneficia financeiramente de sua valorização.
A situação passou a enfrentar questionamentos também na Europa. O Tribunal Regional de Frankfurt concedeu uma medida cautelar solicitada pela Ticombo, plataforma de revenda com sede na Alemanha, e determinou mudanças em algumas práticas da FIFA. A decisão não invalida toda a plataforma e também não cancela negociações já realizadas. Como o alcance está limitado à Alemanha, não haverá uma consequência direta para a final disputada no domingo.
Mesmo assim, a FIFA terá que informar aos compradores alemães a identidade e o endereço dos vendedores que atuam comercialmente antes da conclusão da compra. A medida aumenta a pressão sobre um modelo que já está sob investigação nos Estados Unidos.
Dentro de campo, Espanha e Argentina disputarão o maior título do futebol mundial. Fora dele, porém, a final da Copa do Mundo também ficará marcada pelo custo necessário para acompanhar o duelo no MetLife Stadium. Com preços oficiais que passam dos 30.000 dólares e um mercado de revenda sem limites claros, o jogo se tornou um evento inacessível para grande parte dos torcedores.
Créditos da foto de capa: Getty Images.