O Galatasaray montou uma seleção para viver momentos como esse, simplesmente colocar os principais times da Europa para temer o confronto. Os turcos investiram bastante e já derrubaram alguns gigantes, crescendo suas chances de fazer algo interessante nas próximas etapas da Champions League. Desta vez, visitará o Manchester City no Etihad, e obviamente, não terá vida fácil, mas está longe de entrar derrotado neste duelo.
Um “time de Premier League” fora da Inglaterra
Existe uma frase que vem sendo repetida nos bastidores do Galatasaray e que ajuda a explicar o momento do clube: segundo Ismael Garcia Gomez, auxiliar técnico da equipe, o Campeonato Turco é o mais “inglês” fora da Inglaterra, e o Galatasaray, o mais inglês entre os turcos. Traduzindo para o futebolês: intensidade alta, transições rápidas, jogo físico e pouco tempo para pensar.
Os números sustentam essa narrativa. Nos últimos quatro confrontos contra clubes da Premier League, o Galatasaray não perdeu. A última vitória inglesa sobre os turcos aconteceu lá em 2014, quando o Arsenal venceu por 4 a 1 em Istambul. De lá para cá, só dor de cabeça para quem cruza o caminho do gigante.
Em 2023, por exemplo, o Galatasaray terminou a fase de grupos da Champions League à frente do Manchester United, com direito a uma vitória por 3 a 2 em pleno Old Trafford. Um empate maluco por 3 a 3 na Turquia completou o pacote. Na temporada seguinte, o time foi o único a vencer o Tottenham na fase de grupos da Europa League, e os Spurs no final das contas, ainda acabariam campeões do torneio.
Mais recentemente, nesta própria edição da Champions, o Galatasaray venceu o Liverpool por 1 a 0, com um pênalti convertido por Victor Osimhen ainda no primeiro tempo. Não foi zebra. Foi simplesmente domínio, os Reds não conseguiram causar perigo ao seu adversáio, tropeçando fora de casa.
City pressionado, Galatasaray confortável no caos
O contexto do jogo torna tudo ainda mais interessante. O Manchester City vem de uma derrota traumática para o Bodo/Glimt e aparece apenas na 11ª colocação da fase de liga da Champions, empatado em pontos com vários concorrentes. A diferença entre o terceiro e o 15º colocado é de apenas três pontos. Ou seja: tropeçar agora pode significar ter que passar pelos temidos play-offs.
Já o Galatasaray ocupa a 17ª posição, com 10 pontos. O top-8 é praticamente um sonho distante, mas um empate em Manchester garante a equipe na próxima fase pelo menos. Pressão? Existe. Mas ela é claramente maior do lado dos Cityzens.
E isso muda tudo. Como destacou Garcia Gomez, enfrentar o City é diferente de enfrentar outros ingleses. O time de Pep Guardiola prioriza o controle, a posse, o jogo posicional. Não é aquele futebol de trocação franca que o Galatasaray costuma gostar. Ainda assim, o auxiliar não esconde a confiança: se o time estiver em um bom nível, pode enfrentar qualquer um.
Osimhen, Sané, Gundogan… nomes perigosos
Se o torcedor do City ainda não decorou, é bom anotar: Victor Osimhen. O atacante vive grande fase na Champions, com seis gols em cinco jogos. Forte, explosivo e decisivo, ele é exatamente o tipo de jogador que transforma meia chance em gol, algo letal em jogos de mata-mata antecipado como este. Valendo ressaltar que é um dos principais pontos para o futebol turco estar sendo relativamente dominado.
E Osimhen não está sozinho.
O elenco do Galatasaray parece uma reunião de ex-Premier League. Leroy Sané e Ilkay Gündogan dispensam apresentações. Sané, bicampeão inglês pelo City, tem sido titular absoluto na Champions e segue sendo um pesadelo no um contra um. Já Gündogan, mesmo aos 35 anos, oferece algo que dinheiro nenhum é capaz de comprar: leitura de jogo, liderança e experiência em noites grandes.
Gündogan, inclusive, conhece Pep Guardiola como poucos. Foi peça-chave na Champions conquistada pelo City em 2023 e soma cinco títulos nacionais ingleses. Segundo o próprio Guardiola, é o jogador mais inteligente que já treinou. Agora, ele tenta usar esse conhecimento… contra o antigo chefe, para fazer o Galatasaray sorrir no final das contas.
Além deles, o time ainda conta com Davinson Sánchez, Lucas Torreira, Mario Lemina e Gabriel Sara, todos com passagem pelo futebol inglês. Um grupo que entende bem o ritmo, o contato físico e a intensidade exigida nesse tipo de confronto.
Atmosfera que pesa
Se dentro de campo o Galatasaray já incomoda, fora dele a situação não melhora. Milhares de torcedores turcos são esperados em Manchester, levando a fama de uma das torcidas mais barulhentas e apaixonadas da Europa. É claro que se fosse na Turquia, dava para esperar mais explosão, porém, na Inglaterra já é prometida um alvoroço interessante. O próprio Garcia Gomez faz questão de reforçar: a atmosfera nos estádios turcos não fica devendo nada a nenhum outro país.
No fim das contas, este jogo é menos sobre favoritismo e mais sobre controle emocional. O Manchester City tem mais elenco, mais investimento e mais repertório. Mas o Galatasaray tem confiança, histórico recente e um estilo que incomoda ingleses como poucos. Sem contar, no seu grande objetivo de fazer bonito no principal palco da Europa, algo que no final das contas, só depende dele.
Se o City vacilar, o “time mais Premier League fora da Inglaterra” pode transformar o Etihad em um cenário de tensão.
Foto: JOHN THYS/AFP