Futebol Copa do Brasil

Eficiência e intensidade do Grêmio de Renato contrastam com a fragilidade do Atlético-MG; confira as impressões do jogo

O Grêmio venceu o Atlético-MG por 2 a 0, neste domingo, na Arena, e deu um passo importante rumo à final da Copa do Brasil. Mais do que a vantagem construída no primeiro jogo da semifinal, o resultado confirmou a transformação de uma equipe que, poucas semanas atrás, parecia concentrada exclusivamente na luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro.

Sob o comando de Renato Portaluppi, o Tricolor encontrou uma estrutura defensiva mais segura, recuperou jogadores que haviam perdido espaço e alcançou uma sequência de três vitórias consecutivas pela primeira vez na temporada. Do outro lado, o Atlético voltou a apresentar problemas que ajudam a explicar a queda de rendimento recente e terá de encontrar respostas rapidamente se quiser evitar uma eliminação.

A vitória também evidencia como o futebol pode mudar de cenário em poucos dias. O Grêmio derrotou Coritiba e Athletico antes de superar o Atlético-MG, somando cinco gols marcados e nenhum sofrido nessa sequência. A equipe não se transformou em um time dominante de uma hora para outra, mas passou a demonstrar organização, competitividade e capacidade de aproveitar as oportunidades. Contra o Galo, esses elementos foram suficientes para construir uma vantagem expressiva e administrar o resultado sem sofrer grandes sustos.

O trabalho de Renato merece destaque principalmente pela maneira como conseguiu recuperar a confiança do elenco. A adoção de um sistema com três zagueiros deu maior proteção à defesa, enquanto algumas individualidades voltaram a apresentar um rendimento que não conseguiam alcançar na passagem de Luís Castro. A atuação de João Pedro, a participação de Carlos Vinícius e o gol de Noriega simbolizam uma equipe que voltou a encontrar soluções dentro do próprio elenco.

Renato encontrou uma estrutura que potencializa os jogadores do Grêmio

A principal mudança no Grêmio está na organização coletiva. Renato Portaluppi encontrou nos três zagueiros uma maneira de oferecer maior proteção à última linha e reduzir os espaços que vinham sendo explorados pelos adversários. A equipe passou a defender com mais jogadores próximos da área, mas sem abandonar completamente a possibilidade de atacar com velocidade quando recupera a bola.

Contra o Atlético-MG, essa estrutura funcionou especialmente bem depois da abertura do placar. O Grêmio não precisava disputar o controle da posse durante todo o confronto, pois tinha condições de proteger a vantagem e explorar as características dos jogadores que permaneciam mais adiantados. Carlos Vinícius oferecia força física para sustentar a primeira bola, enquanto Enamorado tinha espaço para tentar vencer os duelos individuais e conduzir os contra-ataques.

A mudança também parece ter beneficiado atletas que atravessavam um período de baixa confiança. João Pedro, por exemplo, voltou a apresentar um desempenho próximo daquele que já havia demonstrado em sua melhor fase pelo clube. Além de participar diretamente do segundo gol, o lateral-direito conseguiu dar profundidade ao setor e oferecer uma alternativa ofensiva importante.

Carlos Vinícius também merece atenção. O atacante abriu o placar e mostrou como sua presença física pode ser aproveitada dentro de uma estratégia que não depende necessariamente de longas sequências de passes. Sua capacidade de disputar a primeira bola e sustentar a posse permite que o Grêmio avance suas linhas e encontre tempo para aproximar os demais jogadores.

Noriega completou a boa atuação com o segundo gol, aproveitando a liberdade encontrada dentro da área. O volante apareceu em uma região ofensiva e finalizou sem marcação, demonstrando que o Grêmio consegue encontrar alternativas para atacar mesmo quando não acumula grande volume de oportunidades.

O mérito de Renato está em encontrar funções que favoreçam as características disponíveis no elenco. Jogadores que estavam sem espaço ou próximos de deixar o clube passaram a ter importância, enquanto a equipe recuperou uma identidade mais clara. Isso não significa que todos os problemas estejam resolvidos, mas a sequência recente mostra que o treinador conseguiu estabelecer uma base competitiva em um momento no qual o ambiente parecia bastante deteriorado.

A eficiência gremista decidiu uma partida de pouco volume ofensivo

O Grêmio não precisou dominar o Atlético-MG para construir a vantagem de dois gols. Pelo contrário, a equipe terminou o confronto com apenas três finalizações, contra 21 do adversário, e teve 33% de posse de bola. A diferença esteve na maneira como cada time aproveitou suas oportunidades e, principalmente, na capacidade gremista de proteger a própria área depois de marcar.

O primeiro gol nasceu de uma jogada que também expôs um dos problemas defensivos do Atlético. Weverton lançou a bola para o campo ofensivo, Lyanco tentou disputar a jogada, mas errou o tempo da intervenção. O zagueiro ficou fora da disputa, Léo Duarte não conseguiu realizar a cobertura e Carlos Vinícius aproveitou o espaço para avançar e finalizar. Em uma semifinal, um erro dessa dimensão representa um custo elevado, especialmente quando acontece em uma situação relativamente simples de defender.

A jogada também mostrou que o Grêmio estava preparado para explorar os espaços deixados pelo adversário. A equipe não precisava construir ataques elaborados para ameaçar, pois conseguia utilizar a força de Carlos Vinícius e a velocidade dos jogadores de lado para chegar ao campo ofensivo. A vantagem construída ainda no primeiro tempo permitiu que Renato ajustasse o comportamento da equipe para uma postura mais reativa.

O segundo gol, logo no início da etapa final, foi ainda mais importante para definir o confronto. João Pedro tabelou com facilidade pelo lado direito e encontrou Noriega livre dentro da área. O volante teve espaço para finalizar e ampliou o placar antes que o Atlético pudesse testar as mudanças realizadas no intervalo.

A jogada foi especialmente significativa porque demonstrou que o Grêmio não dependia apenas de uma defesa compacta e de lançamentos longos. Quando encontrou espaço para acelerar pelo corredor direito, a equipe conseguiu construir uma combinação simples e eficiente, aproveitando a desorganização da marcação atleticana.

Com 2 a 0 no placar, o Grêmio passou a administrar o resultado. A equipe recuou suas linhas, protegeu a entrada da área e permitiu que o Atlético tivesse a posse de bola em regiões mais distantes do gol. A estratégia não eliminou completamente os riscos, mas reduziu a capacidade do adversário de transformar seu volume ofensivo em oportunidades claras.

A cabeçada de Vitor Hugo no travessão, aos 48 minutos do segundo tempo, foi a situação mais perigosa dos visitantes depois do intervalo. Weverton também precisou trabalhar em uma finalização de Lodi, mas o goleiro voltou a demonstrar segurança e manteve a meta gremista sem sofrer gols. A atuação reforça a importância de sua contratação e o peso que o experiente jogador adquiriu na recuperação da equipe.

O Atlético-MG teve a bola, mas não encontrou soluções para atacar

A derrota do Atlético-MG não pode ser explicada apenas pela falta de eficiência nas finalizações. Embora os números indiquem superioridade territorial e ofensiva, a equipe apresentou problemas na construção das jogadas e, principalmente, na maneira como se defendeu quando o Grêmio acelerou. O time de Eduardo Domínguez conseguiu controlar a posse em diferentes momentos, mas teve dificuldades para transformar esse domínio em situações realmente perigosas.

A escalação inicial já indicava uma tentativa de fortalecer o sistema defensivo. Léo Duarte foi utilizado pelo lado direito da zaga, enquanto Vitor Hugo formou dupla com Lyanco. A ideia parecia ser oferecer maior capacidade física e presença no jogo aéreo, mas a estratégia não impediu que o Atlético cometesse erros importantes justamente nas disputas defensivas.

O primeiro tempo teve momentos positivos com a bola. Castaño, Bernard e Renan Lodi conseguiram dar dinâmica ao setor esquerdo, e o Atlético encontrou algumas oportunidades para avançar em organização. O problema foi a dificuldade para transformar essas ações em finalizações de maior qualidade. A equipe chegou ao campo ofensivo, mas nem sempre conseguiu encontrar jogadores em boas condições para concluir.

A falha no primeiro gol mudou o cenário. Lyanco perdeu a disputa com Carlos Vinícius, Léo Duarte não conseguiu cobrir o espaço e o Grêmio abriu o placar. Mesmo depois de sofrer o gol, o Atlético manteve certa organização ofensiva, mas continuou vulnerável quando precisava defender as transições do adversário.

Domínguez tentou corrigir os problemas no intervalo, retirando Lyanco e Victor Hugo, que sentiu um problema físico, para as entradas de Igor Gomes e Minda. Alan Franco passou a atuar na lateral, enquanto Léo Duarte permaneceu na defesa. A intenção era reorganizar o setor e oferecer novas alternativas para a construção ofensiva.

As mudanças, entretanto, mal tiveram tempo para produzir efeito. Com apenas um minuto de segundo tempo, o Grêmio marcou o segundo gol e obrigou o Atlético a lidar com uma desvantagem ainda maior. A facilidade encontrada por João Pedro para tabelar e a liberdade concedida a Noriega dentro da área reforçaram a impressão de que a equipe não conseguiu corrigir suas fragilidades defensivas.

Depois do segundo gol, o Atlético passou a ter ainda mais posse e ocupou o campo ofensivo durante boa parte da etapa final. Foram 67% de posse de bola, 21 finalizações e 14 escanteios, mas a equipe esbarrou na organização gremista e na própria dificuldade para encontrar um jogador capaz de transformar o volume em gols.

A ausência de um centroavante com presença suficiente para aproveitar os cruzamentos também ficou evidente. O Atlético acumulou bolas levantadas na área, mas nem sempre conseguiu encontrar um finalizador em condições de disputar a bola com os defensores. A equipe teve oportunidades pontuais, como a finalização de Minda e o chute de Lodi defendido por Weverton, mas não conseguiu construir uma pressão capaz de ameaçar seriamente a vitória gremista.

Os números, nesse contexto, ajudam a ilustrar uma das principais contradições da partida: ter a bola não significa necessariamente controlar o jogo. O Atlético conseguiu acumular posse e finalizações, mas o Grêmio controlou os espaços mais importantes e foi muito mais eficiente nas situações que criou. A fragilidade defensiva dos visitantes também pesou, pois os dois gols sofridos vieram de momentos nos quais a equipe não conseguiu proteger adequadamente sua própria área.

Weverton e a defesa dão sustentação à recuperação

Se a eficiência ofensiva foi determinante para construir a vantagem, a segurança defensiva permitiu que o Grêmio terminasse a partida sem sofrer gols. Weverton voltou a ser importante, tanto pela segurança nas intervenções quanto pela capacidade de transmitir tranquilidade ao sistema defensivo. A equipe conseguiu suportar o volume de ataques do Atlético sem perder completamente a organização, algo que não vinha sendo uma característica constante durante a temporada.

O goleiro tem sido uma das peças mais importantes desde sua chegada ao clube, no início do ano. Em um time que passou por mudanças de comando e enfrentou dificuldades para encontrar estabilidade, suas atuações ajudaram a evitar resultados ainda piores. Contra o Atlético, voltou a corresponder quando foi exigido e participou também do início da jogada que originou o primeiro gol, com o lançamento que encontrou Carlos Vinícius no campo ofensivo.

A defesa também merece reconhecimento pela maneira como protegeu a área durante o segundo tempo. Mesmo diante de uma sequência de cruzamentos e escanteios, o Grêmio conseguiu afastar boa parte das bolas e dificultou a vida dos jogadores atleticanos. A cabeçada de Vitor Hugo no travessão mostrou que o sistema não foi perfeito, mas não alterou a percepção de uma equipe que soube administrar a vantagem.

Essa segurança é particularmente importante porque permite que o Grêmio escolha melhor os momentos de atacar. Quando sabe que pode defender com consistência, o time não precisa assumir riscos desnecessários para buscar o terceiro gol. A equipe pode preservar sua estrutura, esperar o adversário avançar e explorar os espaços que surgem nas transições.

O desafio de Renato agora é fazer com que essa organização se mantenha diante de adversários com características diferentes. O Atlético teve dificuldades para encontrar espaços por dentro e dependeu bastante dos cruzamentos, mas outros times podem apresentar soluções distintas. A recuperação gremista precisa ser avaliada pela capacidade de repetir comportamentos, não apenas pelos resultados recentes.

A Copa do Brasil oferece confiança, mas o Brasileirão continua sendo uma preocupação

A vantagem de dois gols coloca o Grêmio em uma situação muito favorável para o jogo de volta, mas a recuperação ainda precisa ser observada com cautela. O clube não está completamente livre do risco de rebaixamento no Campeonato Brasileiro, e a temporada acumulou problemas suficientes para impedir que uma sequência positiva seja tratada como solução definitiva.

O próximo compromisso contra o Flamengo, na quarta-feira, terá importância justamente por esse motivo. Um empate já representaria um resultado relevante para as pretensões gremistas na luta contra o Z-4, especialmente diante de um adversário que disputa o título nacional. Além dos pontos, uma boa atuação poderia fortalecer ainda mais a confiança do elenco antes da decisão contra o Atlético-MG.

A sequência de três vitórias consecutivas ganha um peso especial porque representa algo que o Grêmio ainda não havia conseguido em 2026. O time venceu Coritiba, Athletico e Atlético-MG sem sofrer gols, demonstrando uma evolução defensiva que parecia distante durante o período de instabilidade. Ainda assim, a equipe precisa provar que consegue manter esse nível quando enfrenta adversários capazes de explorar outras fragilidades.

Para o Atlético-MG, o cenário é mais complicado. A equipe chegou à semifinal em um momento delicado e saiu da Arena com a pior sequência de resultados da temporada reforçada por uma derrota que expôs problemas defensivos e ofensivos. A possibilidade de reverter a desvantagem existe, especialmente porque o time terá o apoio de sua torcida na Arena MRV, mas será necessário apresentar uma resposta muito mais consistente do que a demonstrada em Porto Alegre.

O Atlético já conseguiu protagonizar viradas importantes em outros momentos da temporada, mas não poderá depender apenas da força do estádio ou de uma reação emocional. Domínguez terá de encontrar soluções para proteger melhor a defesa, melhorar a ocupação da área adversária e transformar a posse de bola em oportunidades de maior qualidade. Sem essas mudanças, o volume ofensivo tende a continuar produzindo pouco em relação ao esforço empregado.

O Grêmio, por sua vez, tem motivos para acreditar que pode chegar à final. Renato encontrou uma estrutura funcional, recuperou jogadores importantes e devolveu competitividade a um elenco que parecia sem direção. A vantagem construída neste domingo não garante a classificação, mas representa uma recompensa por uma semana em que o time conseguiu transformar confiança em resultados.

A partida deixou uma diferença clara entre os dois momentos. O Grêmio foi eficiente, organizado e soube aproveitar os erros do adversário, enquanto o Atlético teve a posse e o volume, mas não conseguiu encontrar soluções para superar a defesa rival. A recuperação gremista ainda precisa ser confirmada ao longo das próximas rodadas, especialmente no Brasileirão, mas a equipe já mostrou que pode competir em alto nível quando consegue executar um plano de jogo coerente. Para o Atlético, a derrota exige mais do que uma virada na Copa do Brasil: exige uma resposta dentro de campo para interromper uma fase que ameaça comprometer o restante da temporada.

(Foto: Pedro Souza/Atlético-MG)