O Grêmio esteve a poucos minutos de conquistar aquilo que ainda não conseguiu em 29 rodadas do Campeonato Brasileiro: uma vitória fora de casa. Em Belém, contra o Remo, o time de Renato Portaluppi chegou a sustentar a vantagem por praticamente toda a segunda etapa, mas terminou deixando escapar dois pontos que podem fazer muita falta na reta final da competição. O empate por 1 a 1, confirmado aos 42 minutos do segundo tempo, teve um peso ainda maior porque o adversário era o vice-lanterna.
A partida expôs uma contradição que acompanha o Grêmio neste momento. A equipe consegue competir, se organizar e até encontrar maneiras de sair na frente, mas tem dificuldades para sustentar aquilo que constrói. Contra o Remo, a vantagem esteve nas mãos do time gaúcho durante boa parte do jogo. Faltou, entretanto, capacidade para controlar o adversário depois do intervalo e, principalmente, eficiência para matar a partida quando as oportunidades apareceram.
Enamorado acabou se tornando o símbolo mais evidente dessa incapacidade. O colombiano teve duas oportunidades claras no segundo tempo, quando o Grêmio ainda poderia ter ampliado a vantagem ou recuperado a liderança no placar, mas desperdiçou ambas. O problema é que reduzir o empate aos erros individuais do atacante seria simplificar demais uma atuação que revelou dificuldades estruturais importantes.
Com apenas nove rodadas restantes, o Grêmio já não tem margem para desperdiçar pontos dessa maneira. O Gre-Nal do próximo domingo, portanto, ganhou um peso que vai muito além da rivalidade. Caso o Tricolor não consiga vencer, a luta contra o rebaixamento pode deixar de ser uma preocupação distante para se transformar na principal realidade do clube.
O Grêmio conseguiu competir, mas não conseguiu controlar o jogo
O primeiro tempo mostrou um Grêmio disposto a fazer aquilo que a situação exigia. Renato montou uma equipe preocupada em marcar e reduzir os espaços do Remo, aceitando um jogo de menor volume ofensivo em troca de maior segurança defensiva.
A estratégia funcionou durante boa parte da etapa inicial. O Remo encontrou dificuldades para criar oportunidades claras, enquanto o Grêmio conseguiu levar o jogo para um cenário de poucas chances. Quando uma partida desse tipo se apresenta, especialmente para uma equipe pressionada pela tabela, aproveitar a oportunidade que aparece se torna fundamental.
Foi justamente o que aconteceu no fim do primeiro tempo. Kannemann apareceu para colocar o Grêmio em vantagem e transformar uma partida equilibrada em uma situação que, teoricamente, deveria favorecer o time gaúcho. O gol permitiu que Renato levasse para o intervalo exatamente o tipo de cenário que provavelmente pretendia construir: vantagem no placar, adversário obrigado a se expor e possibilidade de explorar os espaços deixados pelo Remo.
O problema é que o Grêmio não conseguiu fazer a segunda parte dessa equação. Depois do intervalo, o Remo assumiu uma postura mais agressiva e empurrou o adversário para trás. O Grêmio perdeu capacidade de manter a bola longe da própria área e passou a depender cada vez mais da resistência de sua estrutura defensiva.
Isso é particularmente preocupante porque não se tratava de uma equipe enfrentando um adversário muito superior. O Remo é o vice-lanterna do campeonato e, mesmo assim, conseguiu transformar o segundo tempo em um período de pressão sobre um Grêmio que deveria estar mais interessado em controlar a partida.
O esquema com três volantes protegeu, mas também deixou o ataque sem respostas
Uma das principais escolhas de Renato foi utilizar três volantes, uma formação que já havia sido utilizada anteriormente por Luís Castro. A intenção parece clara: aumentar a proteção do meio-campo e impedir que o Remo encontrasse espaços para acelerar suas jogadas. O problema é que a estrutura funcionou melhor para proteger o Grêmio do que para permitir que o time atacasse.
Com um jogador a mais no setor central, o Tricolor ganhou presença na marcação, mas perdeu qualidade para sair da pressão. Quando o Remo aumentou a intensidade, o Grêmio encontrou dificuldades para transformar recuperação de bola em posse prolongada no campo ofensivo.
A consequência foi um time cada vez mais recuado. Carlos Vinícius novamente ficou muito isolado no ataque, enquanto os pontas não conseguiram oferecer a qualidade necessária para fazer o Grêmio avançar. A equipe até recuperava a bola, mas não encontrava jogadores capazes de carregá-la para longe da própria área ou criar situações de perigo com frequência.
Esse é um problema importante porque uma equipe que está lutando contra o rebaixamento não pode pensar apenas em defender uma vantagem. Em algum momento, precisa conseguir jogar. Precisa respirar com a bola, empurrar o adversário para trás e encontrar maneiras de fazer o relógio correr longe de sua própria área. O Grêmio não conseguiu fazer isso.
Enamorado teve as chances para mudar a história, mas o banco também preocupa
Se o empate não pode ser colocado exclusivamente na conta de Enamorado, é impossível ignorar a importância das oportunidades que o atacante desperdiçou. A primeira aconteceu aos 32 minutos do segundo tempo, quando recebeu livre dentro da área e tinha uma oportunidade clara para ampliar. A indecisão permitiu que Marllon recuperasse a posição e afastasse a bola de cabeça.
Pouco depois, Enamorado ainda participou de outra oportunidade. Em vez de finalizar, passou para Tetê, que também não conseguiu aproveitar a jogada. A segunda grande chance veio já depois do empate. Aos 50 minutos, Braithwaite encontrou Enamorado em boa condição, mas o colombiano finalizou desequilibrado e mandou a bola para fora.
Em um campeonato no qual cada ponto pode determinar a permanência na Série A, oportunidades como essas têm um peso enorme. No entanto, existe outro problema por trás disso: o banco do Grêmio não parece oferecer muitas soluções capazes de alterar uma partida.
Braithwaite conseguiu ser mais participativo do que Carlos Vinícius, mas não foi suficiente para mudar o cenário. Tetê também desperdiçou uma oportunidade. Nardoni entrou no lugar de Dodi, mas acrescentou pouco ao funcionamento da equipe. E Krovinovic, que era titular com Luís Castro, permaneceu novamente no banco.
Isso cria uma situação complicada para Renato. Se o time titular não consegue controlar o jogo, as alternativas disponíveis no banco também não parecem capazes de oferecer uma transformação significativa. O treinador pode alterar peças, mas precisa trabalhar com um elenco que apresenta limitações evidentes.
Renato não é mágico, mas agora precisa encontrar respostas rapidamente
No entanto, o importante separar responsabilidade de culpa. Renato escolheu uma formação que tem limitações ofensivas, mas não é possível exigir que um treinador resolva instantaneamente problemas acumulados durante toda uma temporada. O elenco é o mesmo, a tabela é a mesma e o calendário não oferece tempo para uma reconstrução.
Ao mesmo tempo, o treinador precisa encontrar respostas. A chegada de Renato não pode significar apenas uma mudança de comando na tentativa de sobreviver ao campeonato. Com nove rodadas restantes, é necessário que o Grêmio encontre uma identidade mínima capaz de sustentar resultados.
Contra o Remo, a equipe mostrou capacidade de competir. Isso é importante. O Grêmio marcou, sofreu pouco no primeiro tempo e esteve perto de vencer. Mas também mostrou que, quando o adversário aumenta a pressão, sua estrutura começa a desmoronar.
Esse é o ponto que mais preocupa. Uma equipe que luta contra o rebaixamento precisa saber ganhar partidas ruins. O Grêmio teve exatamente essa oportunidade em Belém. Não precisava jogar bem, dominar ou produzir uma grande atuação. Precisava apenas proteger a vantagem e aproveitar uma das oportunidades que surgiram no segundo tempo. Não conseguiu.
O Gre-Nal pode definir o tamanho da pressão sobre o Grêmio
O empate deixa o Grêmio diante de uma sequência final na qual praticamente todos os jogos terão peso de decisão. O calendário não permite mais que pontos considerados acessíveis sejam desperdiçados, especialmente contra adversários que também estão envolvidos na luta na parte de baixo da tabela.
Por isso, o Gre-Nal chega em um momento particularmente delicado. O clássico naturalmente já teria enorme importância, mas o cenário da tabela transforma o confronto em uma oportunidade para o Grêmio reagir ou em mais um capítulo de uma queda que pode se acelerar rapidamente.
Uma vitória não resolveria todos os problemas. Da mesma forma, uma derrota não necessariamente decretaria o rebaixamento. Mas o resultado terá um peso psicológico evidente sobre um time que já demonstra dificuldade para sustentar vantagens e encontrar soluções ofensivas.
O empate contra o Remo deixa justamente essa impressão: o Grêmio ainda consegue competir, mas precisa aprender a transformar competitividade em resultado. A equipe de Renato não foi completamente dominada em Belém. Também não foi uma atuação desastrosa. O problema é que, na situação atual, isso já não é suficiente. O Grêmio precisa ganhar.
Contra o Remo, teve a oportunidade de fazer isso. Abriu o placar, suportou a pressão durante boa parte do jogo e chegou aos minutos finais ainda na frente. Quando precisou de eficiência para confirmar a vitória, porém, não encontrou.
Agora restam nove partidas para mudar esse cenário. E o problema é que o Grêmio não está apenas lutando contra os adversários que ainda enfrentará. Está lutando também contra a própria incapacidade de transformar vantagens em vitórias.
Se o time repetir esse comportamento no restante do campeonato, a conta pode chegar rápido demais. O empate em Belém não colocou o Grêmio no Z-4. Mas deixou algo ainda mais incômodo: a sensação de que, neste momento, o time está deixando escapar oportunidades que talvez não apareçam novamente.
(Foto: Richard Ducker/Grêmio)



