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Vasco mostra que aprendeu a vencer mesmo sem jogar bem, enquanto Botafogo ainda procura uma identidade; confira as impressões do jogo

O Vasco venceu o Botafogo por 2 a 1, no Nilton Santos, e talvez tenha apresentado uma de suas atuações menos convincentes desde a evolução da equipe sob o comando de Pedro Emanuel. Ainda assim, existe algo importante na maneira como o time saiu do clássico: pela primeira vez em uma sequência recente de bons resultados, o Vasco não precisou dominar o jogo para vencer. Foi eficiente quando teve as oportunidades, soube aproveitar os erros do adversário e, depois de sofrer pressão, mostrou maturidade para controlar os minutos finais.

O resultado representa a terceira vitória consecutiva no Brasileirão e reforça uma mudança importante no comportamento da equipe. Durante boa parte da temporada, o Vasco criou oportunidades suficientes para vencer partidas, mas desperdiçou chances e acabou deixando pontos pelo caminho. Contra o Botafogo, aconteceu o contrário. Foram poucas oportunidades realmente decisivas, mas o time foi letal quando elas apareceram.

Do outro lado, o Botafogo deixa o clássico com uma sensação muito mais incômoda. A equipe teve posse de bola, criou situações e conseguiu diminuir a diferença no segundo tempo, mas continuou dependente de momentos individuais e apresentou pouco repertório coletivo. Para Tite, que teve 17 dias para trabalhar durante a Data Fifa, a derrota funciona como um choque de realidade: o time até mostrou sinais de organização, mas ainda está longe de apresentar uma identidade capaz de sustentar a reação na reta final do campeonato.

O Vasco não dominou, mas soube exatamente como vencer

Não foi um jogo em que o Vasco controlou completamente o Botafogo. Pelo contrário. Em alguns momentos, especialmente na defesa, a equipe apresentou problemas que não haviam aparecido com tanta frequência nas últimas partidas. Ainda assim, o time conseguiu fazer algo que também é característica de equipes que começam a amadurecer: entender o que o jogo estava oferecendo.

O primeiro gol nasceu de um erro do Botafogo. Vitinho ficou indeciso ao tentar cortar a bola, Bruno Duarte ganhou a disputa e aproveitou a situação para colocar o Vasco em vantagem. O lance teve participação importante do atacante, mas também mostrou uma característica que se tornou determinante no clássico: o Vasco estava atento para transformar pequenos erros em grandes oportunidades.

No segundo gol, a história se repetiu de outra maneira. Colidio recuperou a bola de forma excelente diante de Huguinho e Medina e rapidamente encontrou David. O atacante aproveitou a situação e ampliou a vantagem. Foram dois momentos em que o Vasco foi muito mais eficiente do que o Botafogo. E isso não é um detalhe menor.

Uma equipe que pretende se afastar definitivamente da zona de rebaixamento precisa aprender a vencer partidas diferentes. Algumas serão dominadas do início ao fim. Outras exigirão resistência. Em determinadas noites, será necessário criar dez chances para marcar duas vezes. Em outras, como no clássico, será preciso aproveitar as duas ou três oportunidades realmente claras que aparecerem. O Vasco fez isso.

Colidio e Thiago Mendes deram ao Vasco o controle que o jogo exigia

Apesar de os gols terem surgido de erros do Botafogo, o Vasco teve alguns bons momentos construídos por mérito próprio, especialmente no início do segundo tempo. Thiago Mendes foi importante para organizar o meio-campo e ditar o ritmo das ações. O volante funcionou como uma espécie de regulador da equipe, escolhendo quando acelerar e quando diminuir a velocidade da partida.

Colidio, por sua vez, foi o jogador que melhor interpretou o momento ofensivo do Vasco. Além da recuperação que originou o segundo gol, o atacante participou de praticamente todas as principais ações de ataque da equipe. Sua capacidade de encontrar passes e dar continuidade às jogadas ajudou o Vasco a sair de situações de pressão e chegar ao campo ofensivo com mais qualidade.

Foi também dele uma das melhores finalizações da partida. O chute colocado quase terminou em um golaço, mas Gabriel Batista fez uma grande defesa. Esse é um aspecto importante da evolução do Vasco. A equipe não depende exclusivamente de uma única forma de atacar. Quando consegue ter espaço, acelera. Quando precisa controlar, Thiago Mendes ajuda a administrar o ritmo. Quando encontra Colidio em boas condições, ganha um jogador capaz de decidir uma jogada individualmente.

O time ainda pode evoluir, mas já apresenta ferramentas suficientes para competir de maneiras diferentes.

A defesa do Vasco ainda deixou um alerta

Se o ataque merece elogios pela eficiência, a defesa precisa ser analisada com mais cautela. O Botafogo conseguiu criar três oportunidades claras explorando principalmente o espaço nas costas de Cuiabano. A equipe encontrou passes em profundidade e conseguiu chegar a regiões perigosas, mas falhou na execução dos cruzamentos.

Foi um daqueles detalhes que poderiam ter mudado completamente a história do clássico. O Vasco teve mérito ao não permitir que essas oportunidades se transformassem em gols, mas não pode depender da falta de precisão do adversário para sustentar vantagens. Em jogos contra equipes mais eficientes, o mesmo tipo de espaço pode resultar em uma derrota.

Esse é provavelmente o principal ponto de atenção deixado pela partida para Pedro Emanuel. A evolução defensiva do Vasco vinha sendo um dos pilares da boa fase. Contra o Botafogo, ela oscilou mais do que o habitual. A diferença é que, dessa vez, o ataque conseguiu compensar. E essa talvez seja outra característica que o time está começando a desenvolver: não precisa necessariamente funcionar perfeitamente em todos os setores para vencer.

O Vasco também mostrou maturidade para cozinhar o resultado

Talvez o momento mais interessante da partida tenha acontecido depois do gol do Botafogo. Alex Telles marcou um golaço de falta, o Nilton Santos ganhou força e o cenário parecia preparado para uma pressão final do time da casa. Em situações assim, equipes que ainda não possuem confiança podem se desorganizar, recuar excessivamente e permitir que o adversário transforme o estádio em um ambiente de pressão permanente.

O Vasco não fez isso. Poucos minutos depois, chegou a marcar novamente, mas o gol de Thiago Mendes foi anulado por impedimento. Mais tarde, o Botafogo também encontrou o empate com Tiquinho, mas o lance acabou invalidado pela arbitragem após o atacante estar em posição irregular.

Depois disso, o Vasco conseguiu fazer algo que talvez seja ainda mais importante do que os próprios gols: controlou o tempo. A equipe passou a ter mais posse, reduziu a quantidade de ataques do Botafogo e evitou que o adversário construísse aquele abafa típico dos minutos finais. Em vez de simplesmente se defender dentro da própria área, o Vasco entendeu que manter a bola também era uma forma de defender.

Esse comportamento mostra maturidade. O Vasco não jogou seu melhor futebol. Mas soube reconhecer que não precisava continuar atacando da mesma maneira. Precisava apenas impedir que o jogo escapasse.

Para uma equipe que luta para se afastar da parte de baixo da tabela, essa capacidade pode valer tanto quanto uma grande atuação.

O Botafogo teve 17 dias para trabalhar, mas ainda parece sem repertório

Do lado botafoguense, o clássico deveria representar uma espécie de primeira amostra mais completa do trabalho de Tite. Na estreia, antes da Data Fifa, o treinador teve apenas dois treinamentos para preparar a equipe. Desta vez, foram 17 dias entre folgas e atividades. Era natural, portanto, que existisse uma expectativa maior em relação ao comportamento coletivo.

O Botafogo até apresentou alguma evolução na organização. Ziyech foi o principal articulador, enquanto Ferraresi funcionou como uma alternativa para acelerar a construção através de bolas diretas. O time teve posse e conseguiu ocupar o campo ofensivo em determinados momentos.

Mas isso ainda não se transformou em repertório. Vitinho foi o jogador que mais ameaçou o Vasco, principalmente quando recebeu bolas de Ziyech. Danilo e Medina tiveram dificuldades para participar do jogo, enquanto Arthur Cabral apareceu pouco.

O problema é que, quando o Botafogo precisava encontrar uma solução diferente, ela não apareceu. O time dependia de Ziyech para criar, de Vitinho para acelerar e de alguma jogada individual para romper a estrutura vascaína. Faltaram mecanismos coletivos capazes de produzir oportunidades de maneira mais consistente.

Isso explica por que a equipe terminou a partida com volume, mas não necessariamente com controle.

Tite até tentou alterar o cenário depois do intervalo. A entrada de Júnior Santos buscava dar mais presença ofensiva e aumentar a capacidade do Botafogo de permanecer no campo de ataque.

O time conseguiu diminuir com Alex Telles e chegou a empatar com Tiquinho, mas o gol foi anulado por impedimento. O estádio reagiu, o Botafogo ganhou confiança e, durante alguns minutos, parecia capaz de transformar a pressão em uma virada. Mas, novamente, faltou repertório.

Quando o Vasco conseguiu controlar a posse e diminuir o ritmo do jogo, o Botafogo perdeu força. A equipe não encontrou maneiras consistentes de recuperar a bola em zonas perigosas e transformar a superioridade territorial em chances claras.

É justamente nesse ponto que a derrota precisa ser analisada. Tite pode argumentar, com razão, que o Botafogo criou oportunidades e esteve perto do empate. Mas o problema não está apenas na quantidade de chances. Está na maneira como elas foram produzidas.

A equipe ainda depende demais da individualidade para criar perigo.

Gabriel Batista é uma das poucas certezas em meio às dúvidas

Nem tudo foi negativo para o Botafogo. Gabriel Batista talvez seja a principal notícia positiva deixada pelo clássico. O goleiro fez uma defesa de alto nível em uma finalização de Colidio e evitou que o Vasco ampliasse a vantagem em outro momento importante da partida.

Isso ganha peso porque a posição de goleiro foi uma das maiores fontes de insegurança do Botafogo durante a temporada. Encontrar alguém capaz de transmitir confiança pode representar um avanço significativo para Tite.

O goleiro não resolve os problemas coletivos, evidentemente, mas uma equipe em reconstrução precisa de referências individuais enquanto procura sua identidade.

Gabriel Batista pode ser uma delas. O problema é que Tite precisará encontrar outras rapidamente.

A derrota deixa o Botafogo com apenas quatro pontos de vantagem para a zona de rebaixamento, a nove rodadas do fim do Campeonato Brasileiro. É uma situação muito distante da expectativa que existia no começo da temporada, quando o clube sonhava com a parte de cima da tabela.

Agora, a prioridade é outra: garantir a permanência na Série A e, ao mesmo tempo, descobrir quais peças e comportamentos podem ser aproveitados para 2027. Tite  já havia indicado que essa seria uma de suas primeiras metas. O clássico apenas tornou essa realidade mais evidente.

O Vasco vive um momento diferente. A terceira vitória consecutiva confirma uma fase positiva e aumenta a distância para a zona de rebaixamento. Mais importante do que isso, a equipe começa a acumular diferentes maneiras de vencer.

Contra o Botafogo, não foi brilhante. Não dominou durante os 90 minutos. Também apresentou problemas defensivos. Mas foi letal.

Aproveitou os erros, contou com jogadores capazes de decidir, soube sofrer quando necessário e, principalmente, teve maturidade para controlar os minutos finais.

O Botafogo, por outro lado, teve posse, teve momentos de pressão e chegou a ameaçar a reação, mas ainda parece estar procurando uma identidade.

(Foto: Ricardo Moraes/Reuters)