Muito antes de entrar em campo para sua estreia na Copa do Mundo de 2026, o Haiti já havia conquistado uma vitória importante. Em meio a um cenário de instabilidade política, violência e deslocamentos forçados, a classificação para o principal torneio do futebol mundial tornou-se um símbolo de esperança para milhões de haitianos.
Agora, os Grenadiers querem provar que não estão nos Estados Unidos apenas para participar. A equipe estreia diante da Escócia carregando a responsabilidade de representar um país que sonha com dias melhores.
Mais do que buscar resultados, os jogadores enxergam a Copa do Mundo como uma oportunidade de dar visibilidade ao Haiti e mostrar uma realidade diferente daquela frequentemente associada à nação caribenha.
Após 52 anos de espera, os haitianos estão de volta ao maior palco do futebol. A última participação havia sido em 1974, na Alemanha Ocidental. Desde então, o país acumulou décadas de dificuldades dentro e fora de campo, até encontrar uma nova geração capaz de recolocar a seleção entre as principais forças da Concacaf.
O futebol como símbolo de esperança
Sorteado em um grupo que conta com Escócia, Brasil e Marrocos, o Haiti chega como franco azarão. No ranking da FIFA, a equipe ocupa apenas a 83ª posição e poucos apostam em uma classificação para o mata-mata. Internamente, porém, o discurso é diferente.
“Tenho orgulho do povo haitiano. Sabemos que muitas pessoas têm uma imagem negativa do nosso país por causa dos problemas que enfrentamos, mas estar aqui fará muito bem para o Haiti, para o povo e para as nossas famílias”, afirmou o meio-campista Jean-Ricner Bellegarde.
Nascido na França e atualmente jogador do Wolverhampton, da Inglaterra, Bellegarde foi uma das peças fundamentais da campanha que levou os Grenadiers ao Mundial. O Haiti terminou à frente da Costa Rica nas Eliminatórias e garantiu uma das vagas da região para a Copa.
Apesar da empolgação, o elenco mantém os pés no chão.
“Vamos pensar jogo a jogo, dar o nosso melhor e ver até onde podemos chegar”, resumiu o jogador.
A força da diáspora haitiana
Outro fator que motiva o grupo é a impossibilidade de muitos torcedores acompanharem a equipe presencialmente. A crise humanitária vivida pelo Haiti dificulta viagens internacionais e impede que parte da população esteja presente nos estádios. Ainda assim, os jogadores esperam contar com o apoio da numerosa comunidade haitiana residente nos Estados Unidos.
“O país inteiro apoia a seleção. Sentimos isso quando jogamos em Miami e Fort Lauderdale. A atmosfera criada pelos torcedores foi incrível”, destacou o atacante Derrick Etienne.
Para o jogador do Toronto FC, a participação na Copa vai muito além do aspecto esportivo.
“Queríamos fazer algo pelo país, ajudar a chamar atenção para o que acontece lá e mostrar uma imagem diferente do Haiti.”
Uma geração que almeja voos mais altos

A classificação para o Mundial foi uma das maiores conquistas da história recente do futebol haitiano. Sob o comando do técnico Sébastien Migné, a seleção conseguiu reunir talentos espalhados por diferentes ligas do mundo e montar um grupo competitivo. Muitos atletas nasceram fora do Haiti, mas possuem raízes familiares no país e abraçaram o projeto da seleção.
O resultado foi uma campanha consistente nas Eliminatórias da CONCACAF, que terminou com os Grenadiers à frente da Costa Rica e garantiu uma vaga histórica para a Copa do Mundo. Só que, antes mesmo do Mundial, a equipe já havia dado sinais de evolução. Em 2019, chegou às semifinais da Copa Ouro e mostrou que poderia voltar a competir em alto nível dentro da região.
A atual geração também quer apagar as lembranças da única participação anterior em Mundiais. Em 1974, os haitianos perderam os três jogos da fase de grupos e sofreram 14 gols. Agora, o objetivo é escrever uma história diferente.
“Estamos tentando fazer algo que nunca foi feito antes. Sabemos que é uma missão difícil, mas temos confiança. Não temos nada a perder e tudo a ganhar”, afirmou Etienne.
Entre as principais armas ofensivas da equipe está Wilson Isidor. Nascido na França, o atacante estreou pela seleção haitiana recentemente e rapidamente se transformou em uma das referências do setor ofensivo.
“Tenho muito orgulho de representar o país do meu pai”, declarou o jogador. “Viemos para transmitir uma mensagem e mostrar que não somos apenas uma pequena nação marcada por problemas.”
O que esperar do Haiti na Copa?

Realisticamente, o Haiti entra na Copa do Mundo como a quarta força do Grupo H. Escócia, Marrocos e principalmente Brasil aparecem como favoritos às vagas na fase eliminatória. Ainda assim, os Grenadiers possuem características que podem torná-los um adversário incômodo. A equipe tem velocidade pelos lados do campo, boa capacidade de transição e jogadores acostumados ao futebol europeu.
O principal objetivo é conquistar a primeira vitória da história do país em Copas do Mundo e, quem sabe, sonhar com uma classificação inédita. Independentemente do resultado, o Haiti já chega ao torneio com uma das histórias mais marcantes desta edição. Em um Mundial repleto de gigantes, os Grenadiers representam algo que vai além do futebol: resiliência, identidade e esperança para um povo acostumado a superar adversidades.
Créditos da foto de capa: Divulgação/Getty Images
