O início da Inglaterra nesta Copa do Mundo mostra uma grande mudança no rendimento de Harry Kane. A diferença em relação ao torneio de 2022, no Catar, é evidente ao analisar os dados. No Catar, o atacante precisou de quatro partidas completas e longos 269 minutos em campo para registrar sua primeira finalização certa ao gol, demonstrando esgotamento físico e mental desde o início da competição.
Desta vez, a realidade é oposta e esperançosa. O centroavante estreou no torneio aparentando estar no ápice de sua confiança ao marcar dois gols na vitória por 4 a 2 sobre a Croácia. Para um atacante como Harry Kane, iniciar uma competição de tiro curto balançando as redes é o cenário ideal, pois retira o peso do jejum de gols e a cobrança da torcida e da grande mídia, que naturalmente recai sobre o principal goleador e capitão do elenco.
O fator psicológico foi potencializado pelo desenho do calendário. Por causa do chaveamento do Grupo L, a Inglaterra passou a semana inicial do Mundial concentrada, assistindo pela televisão ao desempenho de grandes jogadores como Kylian Mbappé, Erling Haaland e Lionel Messi. Todos estrearam marcando pelo menos dois gols em suas respectivas partidas. A fome de Harry Kane para se juntar à lista de artilheiros foi satisfeita logo aos 12 minutos de jogo contra os croatas, remetendo a boas lembranças que o país não presenciava desde a Copa de 2018, na Rússia, quando ele marcou cinco gols nos dois primeiros jogos e pavimentou o caminho rumo à artilharia da competição.
Esquema da Inglaterra adaptado ao capitão
Além do fator anímico, a melhora de rendimento de Harry Kane passa por uma reestruturação tática profunda sob o comando de Thomas Tuchel. Na Eurocopa de 2024, a seleção inglesa sofreu para extrair o melhor de seu principal jogador devido a um sistema ofensivo engessado. Sempre que Kane recuava para a intermediária para jogar como articulador, o time ficava sem uma referência centralizada na área. Não havia infiltrações, o que facilitava o trabalho dos zagueiros adversários, que subiam a marcação e estrangulavam o meio-campo inglês, gerando muitas dificuldades de criação durante as partidas.
Tuchel mudou essa dinâmica ao replicar, na seleção da Inglaterra, o modelo que desenvolveu com o próprio Harry Kane no Bayern de Munique. O treinador alemão compreendeu que precisaria ajustar o sistema para a Copa do Mundo de 2026, criando um ecossistema que potencializasse as valências do atacante.
Agora, no momento em que o centroavante desce para buscar a bola e iniciar o jogo de costas, pontas e meias como Madueke, Anthony Gordon e Jude Bellingham disparam em transição. A velocidade desses atletas atacando o espaço deixado pelos defensores que saem para caçar Harry Kane gera caos na estrutura defensiva dos adversários.
O encaixe tático é potencializado pelo excelente momento físico do atleta, que desembarcou no torneio após uma temporada histórica de 61 gols pelo Bayern de Munique, um aumento de quase 20 gols em relação às suas melhores marcas na carreira na Inglaterra.
A força psicológica do atacante
A partida contra a Croácia também serviu para testar a resiliência psicológica de Harry Kane. O lance que abriu o caminho para a vitória envolveu um pênalti defendido e, depois, mandado repetir pela arbitragem. Cobrar a mesma penalidade duas vezes em um intervalo de minutos impõe uma grande carga de estresse. O cobrador enfrenta o dilema de mudar ou não o canto, sabendo que o goleiro compartilha do mesmo raciocínio.
Harry Kane superou o jogo psicológico e os pensamentos negativos ao converter o segundo chute exatamente no mesmo local da batida anterior, balançando as redes. Minutos depois, coroou a atuação com um cabeceio preciso após cruzamento de Declan Rice, mostrando tempo de reação e leitura de trajetória ao antecipar a zaga croata. O atacante ainda demonstrou comprometimento sem a bola ao salvar um gol em cima da linha no último minuto de jogo, evidenciando seu trabalho defensivo.
Harry Kane quer sua segunda Chuteira de Ouro na Copa do Mundo
Com dois gols anotados e enfrentando as seleções de Gana e Panamá nas rodadas seguintes, Harry Kane entra na disputa pela artilharia da Copa do Mundo. O atacante carrega na camisa o patch especial da FIFA que o identifica como um dos três atletas do torneio que já conquistaram a Chuteira de Ouro em edições anteriores, ao lado de Kylian Mbappé e James Rodríguez.
A obsessão de Harry Kane, um grande artilheiro, move o capitão inglês rumo ao feito de se tornar o primeiro jogador na história do futebol a conquistar o troféu de artilheiro da Copa do Mundo por duas vezes.
A Inglaterra deu o primeiro passo ao alinhar sua proposta de jogo às necessidades de Harry Kane, garantindo que o atacante tenha o volume de chances necessário para competir em alto nível até as fases decisivas.
As próximas rodadas contra Gana e Panamá definirão o teto ofensivo da Inglaterra na competição. A presença de Harry Kane em plenas condições físicas, somada a um sistema tático condizente com suas características, consolida a equipe de Thomas Tuchel como uma possível candidata ao título da Copa do Mundo.
Créditos da foto de capa: REUTERS/Hannah Mckay