Gabriel Martinelli, Mikel Arteta, Arsenal. Foto: Richard Heathcote/Getty Images
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Arsenal x Martinelli: por que Arteta não hesita em deixar ídolos para trás?

Mikel Arteta nunca foi exatamente um profissional fácil de decifrar. Ainda como jogador do Arsenal, o espanhol já carregava um perfil extremamente dedicado e metódico, mas também transmitia certa distância. Depois de romper o ligamento cruzado anterior durante sua passagem pelo Everton, começou a enxergar no futuro uma carreira como treinador. O objetivo estava traçado antes mesmo de pendurar as chuteiras.

Anos depois, Gabriel Martinelli parece ser o mais recente jogador a descobrir que a regra continua valendo. O brasileiro teria recusado as tentativas do Arsenal de negociá-lo nesta janela e, como consequência, acabou afastado dos preparativos para os jogos. Depois de sequer entrar em campo no Community Shield, Martinelli também ficou fora da lista para a estreia da Premier League contra o Coventry City.

A mensagem de Arteta é clara: no Arsenal atual, história e identificação com o clube não garantem espaço. Se o jogador deixa de encaixar no projeto, o treinador não parece disposto a fazer concessões.

Martinelli ficou para trás no projeto de Arteta

Por mais dura que a decisão possa parecer, Arteta tem argumentos para sustentá-la. O treinador não esconde que o Arsenal entrou em uma busca constante por evolução e, para ele, isso passa também pela renovação de algumas peças do elenco.

“Todos sabemos que tudo tem um começo e um fim”, afirmou recentemente, ao ser questionado sobre a saída de jogadores importantes.

No início do mês, Arteta foi ainda mais direto ao explicar o que pretende para o elenco: “Precisamos trazer mais habilidade e qualidade”.

É justamente nesse ponto que Martinelli parece ter perdido espaço. O brasileiro possui atributos físicos importantes. É rápido, agressivo e capaz de atacar grandes espaços com velocidade. O problema é que o Arsenal passou a encontrar cada vez menos desses espaços à medida que os adversários passaram a respeitar o time de Arteta de uma maneira diferente.

Na temporada 2022/23, quando os Gunners deram o salto definitivo para a briga pelo título, Martinelli viveu o melhor momento de sua carreira em números. Naquele cenário, havia campo para explorar e o brasileiro conseguia transformar sua velocidade em uma arma decisiva.

A realidade mudou. Nos últimos anos, tornou-se comum encontrar adversários posicionados em blocos baixos diante do Arsenal. Com pouco espaço às costas da defesa, uma das principais características de Martinelli perdeu força.

O próprio Arteta reconheceu essa dificuldade.

“Não há espaço para correr”, lamentou o treinador em determinado momento. “Quando você está preso no trânsito, eu quero ir a 100 milhas por hora, mas tenho três ônibus, 55 táxis e motos ao meu redor.”

Martinelli não conseguiu encontrar uma solução para esse novo cenário. Na última temporada, foi titular em apenas 11 partidas da Premier League e marcou somente um gol.

Enquanto isso, o Arsenal continuou elevando o nível de seu elenco. Christos Tzolis chegou para disputar espaço pelo lado esquerdo, Eberechi Eze oferece novas possibilidades ofensivas e o clube ainda trabalha com a possibilidade de contratar outro jogador para a posição. A equação, portanto, ficou desfavorável para Martinelli.

Depois de anos de investimento pesado, o Arsenal também precisa equilibrar suas contas e abrir espaço no elenco. Alguns jogadores inevitavelmente terão de sair. E, diante de uma concorrência cada vez maior, o brasileiro acabou se tornando um dos candidatos mais naturais a deixar o Emirates.

Martinelli não é o primeiro e provavelmente não será o último

A situação atual também não é uma novidade na era Arteta. Desde que assumiu o Arsenal, o espanhol mostrou diversas vezes que não tem problemas em tomar decisões consideradas impopulares quando entende que elas são necessárias para o funcionamento do projeto.

Mesut Özil foi o primeiro grande exemplo

O alemão era um dos jogadores mais importantes do elenco e tinha um salário elevado, mas acabou afastado das atividades do time principal após a paralisação provocada pela pandemia de Covid-19. O episódio marcou uma mudança importante na relação entre Arteta e o elenco e deixou claro que nem mesmo os maiores nomes estavam protegidos.

Pierre-Emerick Aubameyang, Bernd Leno tiveram destinos semelhantes
Gabriel Martinelli, Mikel Arteta, Arsenal. Foto: Richard Heathcote/Getty Images
Gabriel Martinelli, Mikel Arteta, Arsenal. Foto: Richard Heathcote/Getty Images

Capitão, ídolo e um dos principais artilheiros do Arsenal, Aubameyang entrou em rota de colisão com o treinador e acabou deixando o clube.

A lista ainda passa por nomes como Bernd Leno e Aaron Ramsdale, goleiros que perderam espaço mesmo depois de terem sido considerados peças importantes do time.

O padrão é bastante evidente: quando Arteta entende que uma mudança é necessária, o peso do jogador parece importar pouco.

Martinelli, nesse sentido, não está necessariamente recebendo um tratamento diferente. Está apenas chegando ao outro lado de uma filosofia que o treinador já aplicou diversas vezes.

A forma como Martinelli foi afastado gera debate

Se existe uma discussão legítima no caso, ela talvez não esteja tanto na decisão de negociar Martinelli, mas na maneira como o Arsenal conduziu o processo.

A torcida está dividida. Há quem entenda que, depois de sete anos no clube, o brasileiro já teve oportunidades suficientes para provar seu valor e que o futebol, no fim das contas, é uma meritocracia: quem não entrega o suficiente perde espaço.

Por outro lado, existe também uma parcela de torcedores que considera que a história construída por Martinelli no norte de Londres merecia um tratamento diferente.

Mesmo entre os dois lados, porém, existe um ponto de convergência: a condução do processo parece ter deixado a desejar.

O próprio Arteta reconheceu que conversas como essa são difíceis, mas defendeu a necessidade de tratar o jogador com honestidade e transparência.

“Você pode não gostar do que ouviu, mas, se é a verdade, se é a realidade, se é honesto e vai ajudá-lo a tomar decisões melhores e ter mais clareza sobre os próximos passos da carreira, isso precisa ser feito”, explicou.

Arteta escolhe o projeto acima dos indivíduos

Martinelli ainda pretende continuar sua carreira em um clube da elite europeia. Por isso, teria recusado propostas do Galatasaray e também esfriado possíveis negociações com clubes da Arábia Saudita.

O futuro do brasileiro, portanto, ainda está em aberto. O do Arsenal, por outro lado, parece bastante claro. Arteta construiu um projeto baseado em competitividade, controle e evolução constante. Para manter esse nível, algumas decisões inevitavelmente serão dolorosas. Foi assim com Özil, Aubameyang, Leno e Ramsdale. Agora, Martinelli parece ser o próximo nome dessa lista.

A questão é que, para Arteta, o Arsenal precisa estar acima de qualquer jogador.

“Quando chega o momento, nosso dever e nossa responsabilidade são fazer o melhor possível. No fim, precisamos tomar decisões no futebol”, resumiu.

É uma filosofia dura, mas que ajuda a explicar boa parte do Arsenal que chegou ao topo da Premier League. Martinelli pode ter sido importante para levar o clube até aqui, mas Arteta parece acreditar que, para dar o próximo passo, talvez seja necessário deixá-lo para trás.

Créditos da foto de capa: Richard Heathcote/Getty Images