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Ian Garry faz aposta ousada antes de encarar Islam Makhachev no UFC 330; confira

Ian Garry chega ao UFC 330 diante do maior desafio de sua carreira. Do outro lado do octógono estará Islam Makhachev, campeão dos meio-médios e dono de uma das sequências mais impressionantes da história recente do UFC. Mas, para o irlandês, a luta em Philadelphia não será importante apenas pelo cinturão em jogo.

O confronto também pode definir os primeiros capítulos de uma nova fase de sua carreira fora do octógono. Pouco antes de ser anunciado como desafiante ao título, Ian Garry oficializou uma parceria com Eddie Hearn e a Matchroom Talent Agency, empresa que passou a cuidar de seus interesses comerciais. A escolha chamou atenção porque Hearn vem protagonizando uma queda de braço cada vez mais pública com Dana White, presidente do UFC.

A situação coloca Ian Garry em uma posição curiosa. Ele garante que sua relação com Hearn não tem qualquer intenção de interferir em seu trabalho dentro do UFC e que o objetivo é exclusivamente fortalecer sua marca fora das lutas. Só que, no mundo dos esportes de combate, as coisas raramente são tão simples quanto parecem no papel.

E o resultado do UFC 330 pode deixar isso ainda mais claro.

Ian Garry encontrou em Eddie Hearn uma nova oportunidade

A parceria entre Ian Garry e Eddie Hearn não surgiu em um momento qualquer. O empresário britânico já havia entrado no universo do MMA através de Tom Aspinall, campeão dos pesos-pesados do UFC e um dos atletas que mais se aproximaram de uma disputa pública com Dana White nos últimos tempos.

Hearn passou a utilizar a situação contratual de Aspinall como argumento para criticar o UFC e seu presidente. A relação entre os dois lados ficou ainda mais tensa depois de outros episódios envolvendo a organização, transformando uma questão inicialmente relacionada a um lutador em uma disputa de egos e interesses entre duas figuras gigantes dos esportes de combate.

O próprio Hearn já explicou que talvez nem tivesse assumido os interesses comerciais de Aspinall caso a Zuffa Boxing, ligada ao grupo de White, não tivesse contratado Conor Benn, um dos principais nomes de sua agência no boxe. A partir daí, a aproximação entre Hearn e alguns atletas do UFC passou a ter um significado ainda maior.

Ian Garry, entretanto, tentou separar completamente as duas situações.

Ao anunciar a parceria, o irlandês fez questão de explicar que Hearn não estaria envolvido em sua carreira esportiva dentro do UFC. A função do empresário seria trabalhar na construção de sua imagem, ampliar sua presença comercial e fazer com que o nome Ian Garry alcançasse ainda mais pessoas fora do octógono.

É uma estratégia que combina bastante com o perfil do lutador.

Irlandês nunca teve medo dos holofotes

Desde que chegou ao UFC, Ian Garry sempre entendeu que uma carreira no MMA moderno não é construída apenas com vitórias. O lutador também precisa saber vender sua história, criar interesse e transformar cada aparição pública em mais um capítulo de sua marca.

Nesse aspecto, Ian Garry nunca passou despercebido.

O irlandês estreou no UFC em um grande palco, no Madison Square Garden, e venceu Jordan Williams por nocaute técnico no primeiro round. Depois da vitória, não demorou para assumir um discurso ambicioso e se colocar como o sucessor de Conor McGregor, falando sobre uma nova invasão irlandesa no UFC.

A comparação é naturalmente pesada. McGregor construiu uma carreira que ultrapassou completamente os limites do MMA e se tornou uma das maiores estrelas da história dos esportes de combate. Ian Garry ainda está muito distante desse patamar, mas nunca demonstrou qualquer receio em mirar alto.

Dentro do octógono, porém, ele também entregou resultados suficientes para justificar a confiança. O UFC abriu portas importantes para o meio-médio e colocou adversários de alto nível em seu caminho. Em algumas ocasiões, Ian Garry também aceitou mudanças de última hora e entrou em lutas que poderiam facilmente ter sido recusadas.

Foi assim que sua reputação dentro da organização cresceu.

A vitória sobre Carlos Prates foi especialmente importante nesse processo. O triunfo colocou Ian Garry em uma posição ainda mais privilegiada na categoria e ajudou a justificar sua presença na disputa pelo cinturão.

Makhachev é o maior teste possível

O UFC poderia ter escolhido outro caminho, mas decidiu colocar Ian Garry contra Islam Makhachev. E isso diz muito sobre o lugar que o irlandês ocupa atualmente na organização.

Makhachev subiu para os meio-médios depois de dominar a divisão dos leves e agora tenta conquistar mais um cinturão. O russo chega ao UFC 330 com uma sequência de 16 vitórias consecutivas e sem perder desde 2015, quando sofreu a única derrota de sua carreira profissional.

Não é exatamente o tipo de adversário que alguém escolhe para uma noite tranquila.

Ian Garry sabe disso. O próprio lutador reconhece que está diante de uma das tarefas mais difíceis que um desafiante poderia receber, mas também acredita que possui as ferramentas necessárias para surpreender o campeão.

Mais do que vencer, Garry acredita que pode finalizar Makhachev e colocar fim à sequência do russo.

Se conseguir, sua carreira dará um salto gigantesco. Um triunfo sobre Makhachev não significaria apenas conquistar o cinturão dos meio-médios. Seria uma vitória capaz de transformar Ian Garry em uma das maiores estrelas do UFC praticamente da noite para o dia.

E é justamente aí que a parceria com Hearn poderia começar a mostrar todo o seu valor.

Problema aparece se Ian Garry perder

Existe, porém, um cenário muito mais complicado.

Caso Ian Garry seja derrotado por Makhachev, especialmente se o resultado vier de maneira dominante, o lutador provavelmente precisará reconstruir sua trajetória até uma nova disputa pelo título. E é nesse momento que sua relação com o UFC poderá ser observada com muito mais atenção.

Não há qualquer garantia de que a organização irá dificultar sua carreira por causa da parceria com Hearn. Também seria precipitado afirmar que Dana White possui algum problema específico com Ian Garry por causa disso. Mas o histórico recente envolvendo Tom Aspinall torna impossível ignorar a possibilidade de que os bastidores tenham algum peso no futuro.

Até aqui, Ian Garry recebeu um tratamento bastante favorável do UFC. A organização colocou grandes lutas em seu caminho, deu espaço para que ele construísse seu nome e agora o colocou diante do campeão em uma disputa pelo cinturão.

Se perder, a situação pode mudar naturalmente por razões esportivas. Mas será interessante observar se o caminho de volta ao topo continuará sendo tão rápido.

Esse é o verdadeiro risco da aposta de Ian Garry.

Aposta calculada

O curioso é que o próprio lutador parece ter consciência de que está fazendo uma aposta. Ao falar sobre Eddie Hearn, Ian Garry descreveu sua decisão como algo “tático”, “calculado” e “planejado”.

Até agora, os primeiros resultados são positivos.

A chegada de Hearn aumentou a atenção sobre Ian Garry na Irlanda. Em um evento realizado em Dublin para apresentar a parceria, aproximadamente cem pessoas permaneceram no local após os compromissos de imprensa para encontrar o lutador. A presença de Hearn também ajudou a despertar um interesse maior da mídia local, algo importante para um atleta que deseja se transformar em uma estrela em seu próprio país.

Esse é justamente o objetivo.

Ian Garry não quer depender exclusivamente do UFC para construir seu valor comercial. A ideia é transformar sua carreira esportiva em uma plataforma para algo ainda maior, utilizando Hearn para explorar oportunidades comerciais, patrocínios e exposição fora do octógono.

O UFC 330, entretanto, pode acelerar esse processo de maneira brutal.

Uma vitória sobre Makhachev faria Ian Garry passar de promessa ambiciosa a campeão do UFC. Nesse cenário, seu poder de negociação aumentaria consideravelmente e a parceria com Hearn ganharia ainda mais força.

Uma derrota, por outro lado, pode colocar a estratégia sob questionamento.

A carreira de Ian Garry certamente não acabaria. Ele ainda é jovem, já enfrentou adversários importantes e possui tempo de sobra para voltar à disputa pelo cinturão. Mas o pós-UFC 330 poderá mostrar se sua relação com o UFC continuará tão confortável quanto foi até agora.

No fim, Ian Garry está apostando em duas frentes ao mesmo tempo. Dentro do octógono, quer provar que consegue derrotar um dos melhores lutadores do mundo. Fora dele, tenta construir uma marca que não dependa exclusivamente da boa vontade de uma única organização.

A parceria com Eddie Hearn pode ser exatamente o empurrão que faltava para isso acontecer. Mas, antes de pensar no próximo contrato, nos próximos patrocinadores ou em uma nova invasão irlandesa, Ian Garry terá de resolver um pequeno problema chamado Islam Makhachev. E, considerando o que o russo vem fazendo há mais de uma década, talvez seja melhor não chamar esse “pequeno problema” de pequeno demais.

Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC