Poucos confrontos carregam tanto peso histórico quanto Inglaterra e Argentina em uma Copa do Mundo. São décadas de rivalidade, capítulos inesquecíveis e personagens que marcaram gerações, como Diego Maradona, David Beckham e Michael Owen. Agora, em 2026, um novo episódio será escrito. Desta vez, o protagonista é Lionel Messi.
Curiosamente, apesar de toda sua trajetória na seleção argentina, esta será a primeira vez que o camisa 10 enfrentará a Inglaterra. Aos 39 anos, o maior jogador da história recente da Argentina tem a oportunidade de acrescentar mais um capítulo à própria lenda justamente diante do adversário que eternizou Maradona em 1986.
Para Thomas Tuchel, a missão parece simples na teoria, mas extremamente complexa na prática: encontrar uma maneira de neutralizar o jogador mais decisivo da Copa do Mundo. Afinal, Messi continua liderando estatísticas ofensivas, influencia praticamente todas as ações da Argentina e mostra que, mesmo sem o vigor físico de anos atrás, permanece capaz de decidir qualquer partida em poucos segundos.
Messi continua sendo o centro de tudo

Muito se discutiu antes do Mundial sobre qual seria o nível físico de Messi nesta altura da carreira. Afinal, seriam seis Copas do Mundo disputadas e quase duas décadas defendendo a seleção argentina.
O torneio respondeu rapidamente.
Logo na estreia, diante da Argélia, Messi marcou um hat-trick e deixou claro que continuava sendo o grande protagonista da equipe. Depois disso, balançou as redes nas quatro partidas seguintes e apenas passou em branco diante da Suíça, nas quartas de final. Para qualquer outro jogador, uma sequência dessas seria extraordinária. Para Messi, um único jogo sem marcar já passou a ser tratado como uma pequena “seca”.
Os números ajudam a explicar esse impacto.
O argentino divide a artilharia da Copa com Kylian Mbappé, ambos com oito gols, repetindo a disputa individual que protagonizaram na decisão do Mundial do Catar.
Mas limitar Messi aos gols seria um erro.
Ele também lidera toda a Copa do Mundo em chances criadas e grandes oportunidades produzidas para os companheiros. Divide a liderança em chances originadas de bolas paradas, é o jogador que mais executou passes em profundidade e ainda lidera o torneio em passes para dentro da área adversária.
Outro dado chama atenção.
Messi já finalizou 16 vezes de fora da área, cinco a mais do que qualquer outro atleta da competição, mostrando que continua oferecendo perigo mesmo quando não consegue infiltrar entre os defensores.
O grande desafio inglês: como marcar um jogador sem posição fixa?

Contra Erling Haaland, nas quartas de final, a estratégia inglesa era relativamente clara.
Bastava reduzir o número de bolas que chegavam ao centroavante norueguês.
Com Messi, essa lógica simplesmente não funciona.
O argentino não depende de receber a bola em uma posição específica. Pelo contrário, ele próprio cria os espaços de que precisa.
Nas últimas partidas, quando encontrou o setor central congestionado, passou a atuar mais aberto pelo lado direito, buscando receber a bola longe da marcação e reorganizar o ataque argentino a partir dali.
Essa liberdade representa um enorme desafio para a Inglaterra.
Sem um volante exclusivamente marcador, como aqueles especialistas em perseguir um único jogador durante toda a partida, Tuchel precisará encontrar soluções coletivas para impedir que Messi encontre brechas na marcação.
Caso contrário, bastará um passe ou uma arrancada para mudar completamente o rumo da semifinal.
Além disso, Messi não estará sozinho.
Julián Álvarez mostrou sua qualidade ao marcar um golaço diante da Suíça. Lautaro Martínez participou diretamente do gol decisivo contra o Egito ao servir Enzo Fernández. Isso significa que concentrar toda a atenção apenas no camisa 10 pode abrir espaços para outros jogadores resolverem o confronto.
Spence pode ser a arma de Tuchel

Entre as alternativas estudadas pela comissão técnica inglesa, uma delas ganhou força após as quartas de final.
Djed Spence entrou apenas aos 86 minutos contra a Noruega, mas sua atuação chamou atenção.
O lateral do Tottenham sofreu um pênalti posteriormente anulado pelo VAR, recuperou bolas importantes no campo ofensivo e terminou a partida com o mesmo número de toques dentro da área adversária que Harry Kane, apesar de ter atuado por poucos minutos.
Seu desempenho defensivo impressionou ainda mais.
Apenas John Stones, que permaneceu em campo durante toda a prorrogação, realizou mais cortes do que Spence.
Esse rendimento pode ser decisivo porque tudo indica que Messi continuará iniciando muitas jogadas pelo lado direito do ataque argentino.
Ter um defensor confortável nos duelos individuais, rápido e forte fisicamente pode representar uma das principais armas inglesas para reduzir os espaços do camisa 10.
Aos 39 anos, Messi já não domina os jogos. Ele domina os momentos

Existe uma mudança importante no estilo de jogo de Lionel Messi.
Hoje, ele já não controla uma partida durante 90 minutos como fazia no auge da carreira.
Seus próprios números físicos mostram isso.
Entre todos os atacantes da Copa, Messi apresenta a menor distância percorrida e o menor número de corridas em alta velocidade. Isso, porém, não significa queda de rendimento.
Muito pelo contrário.
Ele administra seus movimentos para preservar energia e aparecer justamente quando a partida exige um momento decisivo.
É por isso que continua sendo tão perigoso.
Basta um passe entre linhas, uma cobrança de falta, um chute de média distância ou uma aceleração inesperada para transformar completamente um jogo equilibrado.
Após eliminar a Suíça, o próprio argentino admitiu sentir o desgaste acumulado.
Segundo Messi, a equipe chegou até a semifinal depois de um enorme esforço físico e emocional, principalmente pelas partidas longas disputadas durante o mata-mata.
Ainda assim, poucos acreditam que isso diminua sua influência.
Na verdade, talvez esse seja justamente o aspecto que torna o desafio inglês ainda maior.
Messi já não precisa dominar uma partida inteira para ser o melhor jogador em campo. Ele precisa apenas de um instante.
E, se esse momento acontecer justamente diante da Inglaterra, o rival histórico que ajudou a eternizar Diego Maradona em 1986, Lionel Messi poderá escrever mais um capítulo inesquecível na história das Copas do Mundo e fortalecer ainda mais uma carreira que muitos já consideram incomparável.
(Foto de capa: Reprodução/X/@Argentina)