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Futebol Copa do Mundo

Inglaterra x RD Congo: o confronto que pode esconder uma das grandes zebras da Copa do Mundo

Se alguém procura uma seleção surpresa nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, talvez seja hora de parar de procurar um azarão e começar a olhar para um Leopardo. A República Democrática do Congo chega ao duelo contra a Inglaterra sem o peso da obrigação, mas com motivos suficientes para acreditar que pode complicar a vida de uma das seleções mais tradicionais do torneio.

Será a primeira vez que os congoleses disputarão uma partida eliminatória em uma Copa do Mundo, e o momento já entrou para a história do país. Mais do que apenas participar, a equipe mostrou na fase de grupos que consegue competir em alto nível e criar problemas reais para adversários mais cotados.

Portugal sentiu isso na pele. Considerada uma das favoritas antes do torneio, a seleção portuguesa encontrou enormes dificuldades diante da organização defensiva da RD Congo. Cristiano Ronaldo teve pouco espaço e foi neutralizado principalmente pela atuação da dupla formada por Chancel Mbemba e Axel Tuanzebe. O único chute no alvo dos portugueses aconteceu logo aos seis minutos, no gol marcado por João Neves.

Além do empate conquistado, muitos observadores saíram com a sensação de que a seleção africana poderia ter levado os três pontos após uma atuação consistente e madura. O gol de Yoane Wissa resumiu bem a postura do time: coragem para competir e disciplina para resistir.

Como o estilo da RD Congo pode dificultar a vida da Inglaterra

A identidade da equipe comandada por Sébastien Desabre está longe de ser baseada em espetáculo. O objetivo principal é controlar riscos, evitar erros e esperar o momento certo para atacar.

Desde que assumiu o comando há quatro anos, Desabre construiu uma seleção extremamente competitiva defensivamente. Um dado chama atenção: durante seu período no cargo, a RD Congo nunca perdeu por mais de um gol de diferença.

Do outro lado, Thomas Tuchel ainda busca consolidar uma identidade para a Inglaterra. Desde que assumiu a equipe, já sofreu uma derrota por dois gols de diferença, quando perdeu por 3 a 1 para Senegal.

Os números ajudam a explicar o perfil congolês. Em cerca de dois terços das partidas sob comando de Desabre, a equipe marcou um gol ou menos. Ainda assim, conseguiu transformar jogos equilibrados em resultados positivos.

Nos dois primeiros compromissos do Mundial, diante de Portugal e Colômbia, a estrutura utilizada foi clara: linha com cinco defensores, meio-campo de muito trabalho físico e apenas dois homens mais avançados.

Aaron Wan-Bissaka e Arthur Masuaku atuaram como alas, mas com prioridade defensiva. Mesmo sendo responsáveis pela amplitude ofensiva, o peso da criação caiu principalmente sobre os jogadores do meio.

A proposta é simples: entregar a posse ao adversário, fechar espaços e atacar apenas quando aparece uma oportunidade clara.

Inglaterra ainda busca soluções ofensivas

Mesmo após a vitória por 2 a 0 sobre o Panamá, a Inglaterra continua cercada por questionamentos em relação à criatividade e intensidade ofensiva.

Segundo métricas de estilo da FIFA, a Inglaterra aparecem entre as seleções com modelo de jogo mais distante em comparação ao da RD Congo. Isso cria um confronto interessante de ideias.

A equipe inglesa já encontrou dificuldades anteriormente diante de adversários que apostaram em linhas compactas e contra-ataques rápidos. Contra Gana, por exemplo, houve momentos em que faltou profundidade para quebrar a marcação.

A diferença agora é que a RD Congo parece ainda mais confortável jogando nesse cenário.

Desabre conhece esse tipo de confronto e dificilmente abrirá espaços desnecessários apenas para facilitar o jogo inglês.

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Foto de capa: FIFA

Ataque Congolês também merece atenção

Embora o sistema defensivo receba mais destaque, seria um erro tratar a RD Congo como uma seleção limitada ofensivamente.

Yoane Wissa vive grande momento na competição. O atacante soma três gols e igualou o desempenho de Harry Kane até aqui no Mundial, além de superar os números de Cristiano Ronaldo.

Depois de marcar na estreia, voltou a balançar as redes duas vezes diante do Uzbequistão e chega embalado para o confronto eliminatório.

Ao lado dele, Desabre apostou em Cédric Bakambu como referência ofensiva. O atacante do Real Betis, porém, ainda não conseguiu acertar um chute no alvo durante a Copa.

Foi justamente contra o Uzbequistão que surgiu uma alternativa importante. Fiston Mayele entrou na partida e trouxe características diferentes ao setor ofensivo.

Ele chegou ao Mundial após conquistar o prêmio de melhor jogador africano atuando dentro do continente e mostrou tranquilidade para decidir em um jogo de poucas oportunidades.

As mudanças também mostraram outra característica importante da comissão técnica: adaptação.

Questionado antes da partida contra os uzbeques, Desabre alterou o sistema para uma linha com quatro defensores e colocou Nathan Mbuku e Brian Cipenga pelos lados do campo. As mudanças surtiram efeito e aumentaram as opções ofensivas da equipe.

Congo Wissa
Foto: Getty Images

O confronto com a Inglaterra tem significado especial

Além do peso esportivo, existe um contexto emocional importante nesse encontro.

Embora nunca tenham se enfrentado oficialmente em competições relevantes, Inglaterra e RD Congo possuem conexões fortes através do futebol.

Axel Tuanzebe nasceu em Bunia, no Congo, mas se mudou ainda criança para a Inglaterra e se desenvolveu nas categorias de base do Manchester United. Inclusive, representou seleções inglesas de base ao lado de nomes como Dominic Calvert-Lewin e Dominic Solanke.

Aaron Wan-Bissaka também cresceu em solo inglês e chegou a integrar convocações da Inglaterra antes de seguir outro caminho internacional.

Aaron Tshibola, atualmente no Kilmarnock, também nasceu em Londres e construiu parte da carreira no futebol inglês.

Arthur Masuaku é outro nome conhecido pelos torcedores locais por suas passagens por West Ham e Sunderland.

Até mesmo dentro do elenco inglês existe ligação com a RD Congo, já que Ezri Konsa possui elegibilidade para defender os Leopardos.

Inglaterra
Foto: (Reprodução/X/England)

Mas acima das conexões individuais está o significado coletivo.

Depois de esperar 52 anos para voltar a disputar uma Copa do Mundo, a RD Congo já vive seu período mais marcante em gerações.

Quando ainda era chamada de Zaire, o país entrou para a história ao se tornar a primeira nação da África Subsaariana a disputar um Mundial, em 1974.

Agora, diante da Inglaterra, surge uma nova oportunidade de escrever outro capítulo histórico.

A RD Congo voltou ao mapa do futebol mundial — e quer mostrar que não chegou até aqui apenas para participar.

Foto: Vincent Carchietta-Imagn Images | REUTERS/Abdelmjid Rizkou