A Inglaterra esteve muito perto de encerrar um jejum que já dura seis décadas. Vencia a Argentina até os minutos finais da semifinal da Copa do Mundo de 2026, mas sofreu a virada por 2 a 1 e adiou, mais uma vez, o sonho de disputar uma final mundial. O roteiro da eliminação foi suficiente para transformar o resultado em uma das derrotas mais dolorosas da história recente da seleção inglesa.
Mais do que perder uma vaga na decisão, a equipe comandada por Thomas Tuchel viu escapar uma oportunidade que parecia estar sob controle. O gol de Anthony Gordon no segundo tempo colocou os ingleses em vantagem, mas mudanças táticas promovidas pelo treinador alteraram completamente o cenário da partida. A Argentina cresceu, encontrou espaços, pressionou até empatar com Enzo Fernández e, já nos acréscimos, Lautaro Martínez marcou o gol da classificação.
O resultado também aumenta a cobrança sobre Tuchel. Contratado após a Eurocopa de 2024 justamente para fazer a Inglaterra superar as barreiras que impediram Gareth Southgate de conquistar um grande título, o alemão repetiu muitos dos comportamentos que tantas críticas renderam ao seu antecessor.
As escolhas de Tuchel mudaram completamente a semifinal

Durante boa parte do segundo tempo, a Inglaterra parecia caminhar para uma classificação histórica.
Além de abrir o placar com Anthony Gordon, a equipe controlava emocionalmente o confronto e administrava uma Argentina que, apesar da qualidade ofensiva, ainda encontrava dificuldades para transformar a posse de bola em oportunidades claras.
Foi então que Thomas Tuchel decidiu proteger o resultado.
A substituição de Gordon por Ezri Konsa, transformando a equipe em uma linha de cinco defensores, marcou uma mudança completa na postura inglesa. Pouco depois, Nico O’Reilly e Dan Burn também entraram em campo, reforçando ainda mais a ideia de preservar a vantagem.
Na prática, o efeito foi exatamente o contrário.
A Inglaterra deixou de disputar a posse de bola, passou a apenas se defender e entregou completamente o controle da partida para a Argentina.
Os números mostram o tamanho dessa mudança. Entre o gol de Gordon e o gol da virada de Lautaro Martínez, a seleção inglesa teve apenas 12% de posse de bola, um índice extremamente baixo para uma equipe que tentava segurar uma vantagem mínima em uma semifinal de Copa do Mundo.
Com Lionel Messi comandando as ações ofensivas, a pressão argentina tornou-se praticamente constante.
O empate parecia inevitável e aconteceu aos 85 minutos com Enzo Fernández. Nos acréscimos, Lautaro Martínez completou a reação e decretou mais uma eliminação inglesa em um grande torneio.
As críticas recaíram imediatamente sobre Tuchel porque a mudança de estratégia foi interpretada como o principal fator para a perda do controle da partida.
A promessa era romper com o passado, mas o roteiro foi semelhante

Quando a Inglaterra anunciou Thomas Tuchel, a expectativa era clara.
O treinador alemão chegava com a missão de fazer aquilo que Gareth Southgate não conseguiu: transformar boas campanhas em títulos.
Southgate conduziu a Inglaterra às finais das Eurocopas de 2021 e 2024, além da semifinal da Copa do Mundo de 2018, mas frequentemente era criticado por adotar uma postura excessivamente conservadora nos momentos decisivos.
A contratação de Tuchel representava justamente uma tentativa de mudar essa mentalidade.
Entretanto, diante da Argentina, o técnico acabou tomando uma decisão bastante semelhante às que tantas vezes foram atribuídas ao seu antecessor.
Ao optar por recuar completamente a equipe após abrir vantagem, permitiu que a Argentina assumisse o protagonismo da partida.
Outro ponto que também voltou ao debate foi a montagem do elenco.
A insistência em apostar em Reece James, apesar do histórico de lesões, acabou gerando instabilidade na lateral direita durante toda a competição. Além disso, a ausência de Trent Alexander-Arnold e de jogadores criativos como Cole Palmer, Morgan Gibbs-White e Phil Foden passou a ser novamente questionada após a eliminação.
A utilização de Ivan Toney apenas aos 96 minutos também gerou críticas. Muitos chegaram a levantar a hipótese de que o atacante teria sido convocado pensando exclusivamente em uma eventual disputa por pênaltis, que nunca aconteceu.
Apesar da frustração, a Inglaterra ainda possui uma geração capaz de competir

Se existe um aspecto positivo para a seleção inglesa, ele está na qualidade da nova geração.
Jude Bellingham voltou a confirmar seu status de um dos melhores meio-campistas do futebol mundial. Ao lado dele, Declan Rice e Elliot Anderson formam uma base sólida para o setor central pensando nos próximos anos.
No ataque, Bukayo Saka deverá retornar totalmente recuperado, enquanto Cole Palmer, Phil Foden e Morgan Gibbs-White continuam sendo opções técnicas importantes para o elenco.
A renovação também passa pelos jovens talentos.
Rio Ngumoha, de apenas 17 anos, chamou atenção durante os amistosos preparatórios para a Copa do Mundo e desponta como uma das grandes promessas do Liverpool.
Outro nome cercado de expectativa é Max Dowman. Com apenas 16 anos, o ponta do Arsenal já aparece como um dos jovens mais promissores do futebol inglês.
Mesmo Harry Kane, que provavelmente disputou uma de suas últimas oportunidades reais de conquistar uma Copa do Mundo, segue sendo uma referência técnica importante para o grupo.
Na defesa, mudanças parecem inevitáveis.
John Stones dá sinais de estar próximo do encerramento de sua trajetória pela seleção, enquanto Jordan Pickford, atualmente com 32 anos, ainda deve permanecer como titular por mais algum tempo, embora a Inglaterra já precise começar a preparar seu sucessor.
A própria Football Association demonstra confiança na continuidade do trabalho.
Mesmo antes do Mundial, renovou o contrato de Thomas Tuchel até a Eurocopa de 2028, reforçando a aposta em um projeto de longo prazo.
Ainda assim, a dor causada pela derrota para a Argentina não desaparecerá rapidamente.
A Inglaterra esteve a poucos minutos de voltar a disputar uma final de Copa do Mundo pela primeira vez desde 1966. Em vez disso, reviveu mais um capítulo da longa coleção de eliminações traumáticas em grandes torneios.
Para uma seleção acostumada a conviver com o peso da história, a semifinal de 2026 talvez seja lembrada justamente pelo que esteve tão perto de acontecer. Não apenas pela derrota para uma rival histórica, mas pela sensação de que a classificação escapou quando o objetivo parecia finalmente ao alcance das mãos.
(Foto de capa: Richard Pelham/Getty Images)



