Thomas Tuchel defendeu recentemente que a Inglaterra precisava “abraçar o caos” depois da dolorosa eliminação para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo. A ideia era transformar a frustração em uma seleção mais agressiva e corajosa. Contra a Espanha, porém, o treinador recebeu uma demonstração clara de que, no mais alto nível, intensidade sem controle também pode custar caro.
A Inglaterra mostrou bons momentos na derrota por 3 a 2 para os atuais campeões mundiais e europeus pela Nations League, em Wembley. Em alguns períodos, a equipe inglesa conseguiu pressionar, acelerar o jogo e realmente incomodar os espanhóis. O problema é que a Espanha mostrou exatamente a característica que ainda falta aos ingleses: capacidade para controlar a partida mesmo quando o cenário começa a ficar complicado.
A seleção espanhola ampliou para 39 partidas sua sequência de invencibilidade e mostrou mais uma vez por que se tornou uma referência no futebol internacional. A Inglaterra, por outro lado, continua tentando transformar uma geração cheia de talento em títulos. Desde a Copa do Mundo de 1966, a seleção masculina inglesa ainda procura repetir uma conquista de grande porte.
O início do confronto mostrou bem essa diferença. Com menos de dois minutos, Marc Guéhi se complicou ao tentar sair jogando e entregou a oportunidade para Lamine Yamal abrir o placar. Era o primeiro sinal de uma Inglaterra que parecia querer imitar a maneira espanhola de trocar passes, mas sem a mesma segurança técnica.
Inglaterra sofre no início, mas consegue reagir contra a Espanha
A Espanha poderia ter ampliado rapidamente. Ferran Torres chegou a balançar as redes, mas teve o gol anulado por impedimento. Depois, parou em boa defesa do goleiro James Trafford e ainda desperdiçou outra oportunidade clara ao mandar a bola para fora quando estava em boas condições.
O fato de a Inglaterra chegar aos 36 minutos perdendo apenas por 1 a 0 já parecia surpreendente diante do domínio espanhol. Aos poucos, porém, a equipe de Tuchel abandonou a tentativa de jogar exatamente como a adversária e começou a apostar mais em suas próprias características, principalmente velocidade, força física e transições rápidas.
A mudança funcionou. Anthony Gordon apareceu para finalizar com calma e empatar o confronto. Pouco depois, Harry Kane desviou de cabeça, contou com uma mudança na trajetória da bola e colocou os ingleses em vantagem antes do intervalo.
Era uma situação praticamente impensável diante do que havia acontecido nos primeiros minutos. Mesmo sendo dominada em boa parte do primeiro tempo, a Inglaterra chegou ao intervalo vencendo por 2 a 1 e deixando a impressão de que poderia conquistar uma vitória importante contra uma das seleções mais fortes do mundo.
Pênalti perdido de Harry Kane muda o rumo da partida
Logo depois do intervalo, a Inglaterra teve uma oportunidade enorme para aumentar a vantagem. Kane foi para a cobrança de pênalti, mas escorregou no momento da finalização, tocou duas vezes na bola e acabou desperdiçando a chance. O lance se transformou em um dos momentos decisivos do confronto.
A partir daí, os erros defensivos voltaram a aparecer. Nico O’Reilly perdeu a posse durante a construção de uma jogada e a Espanha aproveitou para chegar ao empate com Álex Baena. Mais uma vez, uma falha inglesa acabou oferecendo uma oportunidade que os espanhóis não desperdiçaram.
A virada chegou aos 74 minutos. Mikel Oyarzabal, o mesmo jogador que havia marcado o gol do título espanhol na final da Eurocopa de 2024 contra a Inglaterra, apareceu novamente para decidir. O atacante marcou o terceiro gol e garantiu a vitória por 3 a 2 em Wembley.
A defesa inglesa viveu uma noite complicada. Guéhi e O’Reilly tiveram participação direta em erros que terminaram em gols espanhóis, enquanto Jarell Quansah, escolhido para começar na lateral direita, também encontrou dificuldades. Zagueiro de origem, ele não demonstrou a mesma naturalidade atuando aberto pelo setor.

Defesa preocupa Tuchel após nova derrota da Inglaterra
A escolha por Quansah também chamou atenção porque Trent Alexander-Arnold havia retornado à seleção. Tuchel preferiu manter outra opção na posição, mas o desempenho defensivo da Inglaterra voltou a levantar questionamentos sobre a organização da equipe.
O problema não se resume ao duelo com a Espanha. A Inglaterra sofreu 13 gols nas últimas seis partidas em todas as competições. O número chama ainda mais atenção quando comparado ao início do trabalho de Tuchel, quando a equipe havia levado apenas sete gols nos primeiros 17 jogos sob seu comando.
Trafford, pelo menos, terminou o confronto como uma das poucas peças defensivas sem grande responsabilidade pelos gols sofridos. O goleiro recebeu duas oportunidades antes do retorno do titular Jordan Pickford e fez defesas importantes durante a forte pressão espanhola no primeiro tempo.
A sensação foi parecida com a deixada pela semifinal da Copa do Mundo diante da Argentina. Naquela ocasião, a Inglaterra também chegou a liderar com um gol de Gordon antes de acabar derrotada. A diferença é que, contra a Espanha, a equipe não recuou completamente depois de encontrar dificuldades e continuou tentando competir até o fim.

Gordon e Bellingham se destacam mesmo na derrota
Curiosamente, dois dos melhores jogadores ingleses da partida atuam atualmente no futebol espanhol. Gordon, agora no Barcelona, foi uma ameaça constante com sua velocidade e movimentação, enquanto Jude Bellingham tentou conduzir a Inglaterra para frente até os últimos minutos.
Bellingham teve participação intensa e buscou acelerar o jogo sempre que encontrou espaço. Gordon, por sua vez, foi provavelmente o principal nome ofensivo da Inglaterra. Além do gol, conseguiu atacar a defesa espanhola e mostrou justamente a agressividade que Tuchel deseja ver em sua equipe.
Após a partida, o treinador inglês discordou da ideia de que sua equipe tenha vivido apenas do “caos”. Tuchel destacou principalmente a pressão alta da Inglaterra e afirmou que seus jogadores conseguiram recuperar diversas bolas no campo adversário. Para ele, essa capacidade mostrou coragem para enfrentar uma equipe tecnicamente tão forte.
O técnico também avaliou que sua equipe teve uma estrutura ofensiva clara e tentou utilizar bastante os laterais para criar superioridade pelos lados. Na visão de Tuchel, a principal diferença entre os dois times apareceu nos últimos 20 metros do campo, onde a Espanha demonstrou mais qualidade na execução das jogadas.

Inglaterra mostra evolução, mas controle ainda faz diferença
Essa leitura, porém, não elimina os problemas apresentados. A Espanha criou oportunidades suficientes para construir uma vantagem confortável ainda no primeiro tempo e só não conseguiu porque desperdiçou chances importantes. Quando a Inglaterra cresceu, conseguiu realmente equilibrar o confronto, mas voltou a pagar caro pelos próprios erros.
Kane também destacou os períodos positivos da equipe. Para o capitão, a Inglaterra conseguiu competir de igual para igual com uma seleção que conquistou recentemente os principais títulos internacionais. Ao mesmo tempo, reconheceu que o time ainda não conseguiu manter seu melhor nível durante os 90 minutos.
Esse talvez seja o principal ponto para Tuchel depois da partida. A Inglaterra já mostrou que possui velocidade, intensidade e talento para incomodar qualquer adversário. Quando Gordon, Bellingham e Kane conseguem encontrar espaços, a seleção inglesa tem capacidade para criar problemas até mesmo para uma equipe organizada como a Espanha.
Mas conquistar grandes títulos exige mais do que momentos de inspiração. A Inglaterra pode até abraçar o caos defendido por Tuchel, mas também precisa aprender a controlar partidas, reduzir erros simples e manter seu desempenho por períodos maiores. Contra a Espanha, houve sinais de evolução e momentos de grande futebol. No final, porém, quem teve mais controle voltou a vencer.
Getty Images


