Futebol Brasileirão

Internacional aposta tudo no passado para salvar o futuro

A direção do Internacional, ao anunciar Abel Braga como treinador para as duas partidas finais do Brasileirão, contra o São Paulo fora de casa e o Red Bull Bragantino no Beira-Rio, deixou claro que a opção foi muito menos técnica no sentido habitual e muito mais simbólica e emocional.

Em uma situação de emergência, o clube caiu para a zona de rebaixamento e tem apenas duas rodadas para tentar escapar, o presidente optou por uma solução de “risco calculado”: chamar alguém com identificação máxima com a torcida na esperança de que isso reverta um ambiente interno e externo tóxico em tempo recorde.

Abel Braga não é um nome qualquer. É um ídolo do Internacional: multicampeão em momentos importantes, líder em passagens pelo clube e uma figura diretamente associada a alguns dos maiores capítulos recentes da história do Inter, entre eles a Libertadores de 2006 e o Mundial daquele ano, além de campanhas relevantes na década seguinte.

A própria página do clube e perfis jornalísticos destacam essa ligação emocional e histórica entre Abel e a torcida, o que torna a contratação compreensível do ponto de vista simbólico. Em um momento em que moral e união podem fazer diferença, trazer alguém que inspira confiança na arquibancada e que “fala a língua do clube” é uma tentativa deliberada de reverter o vácuo de esperança que se instalou.

Do ponto de vista prático, a direção do Internacional procurou e justificou algumas vantagens óbvias: familiaridade com a casa (táticas já assimiladas por jogadores que conviveram com ele), conhecimento da cultura do Inter e capacidade de impor disciplina e foco em curto prazo.

Em temporadas em que a instabilidade técnica e de vestiário domina, nomes de prestígio conseguem, por vezes, reorganizar um grupo rapidamente. Há ainda o efeito externo: a presença de Abel no banco tende a aumentar a pressão sobre rivais e a mobilizar a torcida para uma última rodada intensa no Beira-Rio, algo que pode transformar pequenas margens em salvação.

Internacional surpreende a todos anunciando Abel Braga como treinador para as duas últimas rodadas do Brasileirão
Internacional surpreende a todos anunciando Abel Braga como treinador para as duas últimas rodadas do Brasileirão (Imagem: Site do SC Internacional)

Contratar Abel Braga contempla vários riscos para o Internacional

Mas a contratação também carrega riscos e aponta falhas institucionais. Chamar um treinador aposentado para uma missão tão pontual é uma solução de curto prazo que não resolve problemas estruturais: montagem de elenco, projeto esportivo, instabilidade diretiva, análise de desempenho e trabalho de base.

O acordo com Abel Braga é uma medida paliativa que evidencia que, internamente, a diretoria avaliou não haver tempo (ou alternativas viáveis) para um plano de recuperação mais técnico e moderno. Em outras palavras: Abel pode ser um remédio imediato, mas não é diagnóstico.

Outra leitura política da contratação: diante da demissão abrupta de Ramón Díaz após a goleada recente, a diretoria precisou de um “nome seguro” para acalmar sócios e torcedores e também para evitar uma avalanche de críticas no curto prazo.

Abel Braga é uma carta que reduz o desgaste público da diretoria, ao menos temporariamente, porque poucos torcedores criticariam a vinda de um ídolo com a sua história. Há, portanto, uma função de contenção de crise na decisão. Reportagens indicam que o clube até sondou outras opções (como Odair Hellmann), mas optou por Abel por sua disponibilidade imediata e identificação com o clube.

No plano técnico-tático, resta saber se Abel conseguirá extrair algo novo de um grupo que, nas últimas rodadas, mostrou fragilidade defensiva e perda de ritmo. Treinadores experientes podem trabalhar postura, padrões simples de jogo e mentalidade vencedora para partidas decisivas, e aí reside a esperança da diretoria: que a experiência e o comando forte do treinador transformem atitude em pontos nas duas rodadas restantes.

Mesmo assim, a margem é estreita e dependerá de preparo físico, entrosamento e da capacidade de Abel Braga em ler adversários que também estarão motivados (especialmente o Bragantino com jogos decisivos e o São Paulo querendo dar uma resposta após a goleada histórica sofrida para o Fluminense).

Por fim, a contratação demonstra um retrato do futebol brasileiro atual, com raras exceções: decisões por afeto e urgência quando o tempo político e esportivo se esgota. A escolha por Abel Braga sintetiza uma aposta na memória afetiva do torcedor e na liderança carismática como ferramentas para mitigar uma crise imediata.

Se der certo, diretores do Internacional serão elogiados por resgatar um ídolo; se não surtir efeito, a escolha será usada como argumento de que o clube precisa urgentemente de uma reforma mais ampla, que não se resolve com soluções de fim de linha.

De qualquer forma, o recado da direção é claro: preferiram, nesta emergência, a identificação e a experiência de um nome símbolo ao risco de tentar uma solução experimental e moderna, numa decisão que mistura pragmatismo, política interna e, sobretudo, muito saudosismo.

(Imagem de capa: SC Internacional)