Quando Andoni Iraola e Oliver Glasner anunciaram que deixariam Bournemouth e Crystal Palace, respectivamente, a sensação era de que ambos estavam apenas aguardando o momento certo para assumir algum gigante da Premier League. Parecia inevitável. Em um cenário de instabilidade generalizada entre os clubes do chamado Big Six, os dois apareciam como símbolos da nova geração de treinadores capazes de unir identidade tática, organização coletiva e modernidade de jogo.
Mas o futebol raramente segue o roteiro lógico. Poucos meses depois, o mercado mudou completamente. E o que parecia uma transição natural virou uma espécie de limbo para dois dos técnicos mais interessantes do futebol europeu.
O contexto favorecia Iraola e Glasner
Naquele momento, praticamente todos os grandes clubes ingleses davam sinais de ruptura. O Manchester United havia acabado de demitir Ruben Amorim após meses caóticos em Old Trafford. O Chelsea vivia mais uma temporada turbulenta sob comando de Liam Rosenior. O Tottenham afundava na tabela da Premier League e discutia até mesmo risco de rebaixamento. Enquanto isso, o Manchester City ainda não sabia se Pep Guardiola permaneceria ou encerraria seu ciclo histórico.
Era um cenário quase perfeito para Iraola e Glasner. Iraola transformou o Bournemouth em uma das equipes mais agressivas e organizadas da Inglaterra. Sua pressão alta intensa, a coragem para atacar em transições rápidas e a capacidade de competir contra times financeiramente superiores fizeram do Bournemouth uma das histórias da temporada. O clube esteve muito próximo da classificação para a Champions League e acabou garantindo vaga na Europa League, algo impensável poucos anos atrás.
Glasner, por sua vez, levou o Crystal Palace a um patamar competitivo raramente visto na equipe. Seu sistema híbrido entre linha de três defensores e pressão vertical potencializou jogadores que antes pareciam limitados em contextos maiores. Mais do que isso: o Palace chegou à final da UEFA Europa Conference League jogando um futebol extremamente competitivo um ano depois de vencer a FA Cup. Naturalmente, os dois passaram a ser vistos como treinadores prontos para dar o salto.
O problema é que o mercado mudou rápido demais O futebol moderno tem uma característica cruel para treinadores em ascensão: timing importa quase tanto quanto competência, e o timing virou contra Iraola e Glasner.
O United decidiu apostar na continuidade e efetivou Michael Carrick após uma sequência positiva como interino. Internamente, o clube entendeu que precisava de estabilidade emocional depois de anos de mudanças bruscas de perfil entre treinadores. Carrick não era o nome mais badalado, mas virou o nome mais seguro para um ambiente cansado de revoluções fracassadas.
No Chelsea, a escolha por Xabi Alonso teve muito mais peso político e midiático do que necessariamente esportivo. Mesmo após perder força no Real Madrid, Alonso ainda carrega um status quase inevitável entre os gigantes europeus. Seu nome vende ideia, projeto e identidade instantaneamente.
Já o Tottenham vive uma situação peculiar. O clube ainda luta para escapar do rebaixamento, mas existe a expectativa de continuidade de Roberto De Zerbi caso a equipe permaneça na Premier League. Mesmo em baixa desde sua saída do Brighton, De Zerbi ainda possui enorme prestígio entre dirigentes ingleses por sua proposta ofensiva e pela imagem de “discípulo” da escola de Guardiola.
No City, com a saída de Guardiola se aproximando, o favorito passou a ser Enzo Maresca, alguém formado dentro do próprio ecossistema tático do clube.
Sobrou apenas a incerteza do Liverpool com Arne Slot, mas mesmo ali não existe uma convicção clara de ruptura imediata. O resultado é curioso: os dois técnicos que talvez tenham feito os trabalhos mais impressionantes proporcionalmente na Inglaterra acabaram vendo as portas fecharem uma por uma.
O paradoxo da elite europeia
Iraola e Glasner provavelmente chegam ao mercado mais valorizados do ponto de vista puramente técnico do que vários nomes que permaneceram empregados. O Bournemouth de Iraola joga um futebol mais moderno e intenso do que muitos gigantes da Premier League. O Palace de Glasner demonstrou organização coletiva superior à de equipes muito mais ricas.
Ainda assim, ambos parecem ter sido ultrapassados por fatores que vão além do campo. Carrick representa estabilidade emocional e identificação institucional. Xabi Alonso representa marca global. Maresca representa continuidade filosófica. De Zerbi ainda representa uma ideia estética que encanta dirigentes.
Iraola e Glasner, por outro lado, representam competência. E apenas competência, hoje, nem sempre basta para assumir um superclube. Os gigantes europeus passaram a contratar menos pela performance imediata e mais pela narrativa estratégica que um treinador pode vender. A imagem pública do técnico importa quase tanto quanto sua capacidade de montar um time competitivo.
Outro ponto importante é que ambos acabaram presos em uma zona desconfortável do mercado. São treinadores grandes demais para assumir projetos pequenos sem parecer um passo lateral. Mas talvez ainda não tenham o glamour político necessário para convencer as diretorias mais poderosas da Europa.
Glasner, por exemplo, chega a mais uma final continental com um elenco limitado e faz um trabalho histórico no Palace. Ainda assim, existe uma percepção de que seu futebol é excessivamente pragmático para certos gigantes. Já Iraola sofre quase o efeito contrário: seu estilo extremamente agressivo gera admiração, mas também dúvidas sobre sustentabilidade em clubes onde a pressão por resultado imediato é absoluta.
No fundo, ambos viraram vítimas de um fenômeno comum no futebol moderno: técnicos emergentes precisam acertar não apenas o trabalho em campo, mas também o momento exato do mercado, e talvez o mercado tenha se movido rápido demais para eles.
O futuro ainda pode mudar tudo
Isso não significa fracasso. Muito pelo contrário. Treinadores como Glasner e Iraola costumam envelhecer bem no futebol europeu porque suas ideias sobrevivem ao hype inicial. Ambos desenvolveram equipes com identidade clara, competitividade consistente e forte trabalho coletivo. Isso raramente desaparece.
Além disso, o futebol europeu é instável demais para qualquer cenário parecer definitivo. Bastam alguns meses ruins em Old Trafford, Stamford Bridge ou Anfield para que os nomes de Iraola e Glasner reapareçam imediatamente no topo das listas.
Porque a sensação permanece: talvez eles não tenham sido deixados de lado por falta de capacidade. Apenas chegaram cedo demais a um mercado que ainda não estava pronto para escolhê-los.
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