James Rodriguez Colômbia
Futebol Copa do Mundo

James Rodríguez se despede da Copa do Mundo como um dos últimos camisas 10 clássicos; confira

O pôr do sol sobre o Estadio Azteca parecia cenário de despedida. Enquanto o céu da Cidade do México perdia aos poucos seus tons alaranjados e dava espaço para a noite, James Rodríguez entrava em campo para mais um capítulo daquela que provavelmente será sua última Copa do Mundo. Mas não era apenas mais uma estreia. Para o colombiano, era um retorno ao palco que transformou sua carreira e o colocou entre os nomes mais marcantes da história recente do torneio.

Usando pela primeira vez a braçadeira de capitão em uma Copa, James não escondeu a emoção durante o hino da Colômbia. As lágrimas apareceram antes mesmo da bola rolar e foram acompanhadas por milhares de torcedores colombianos que praticamente transformaram o Azteca em extensão de Barranquilla. O momento dizia muito mais do que qualquer estatística: ali estava um jogador que talvez nunca tenha atingido todo o potencial esperado nos clubes, mas que encontrou na seleção o lugar onde sempre foi tratado como ídolo.

Dentro de campo, a atuação não teve o brilho dos grandes momentos da carreira. Não foi uma exibição ruim, mas também não teve aqueles lampejos de genialidade que fizeram o mundo parar em 2014. Ainda assim, bastava olhar para as arquibancadas para entender o tamanho do legado. Camisas 10 amarelas dominavam o estádio e cada toque na bola era acompanhado por aplausos e expectativa.

O verão de 2014 que transformou James em lenda

Para entender por que James continua sendo tão reverenciado, é preciso voltar para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Naquele momento, a Colômbia chegava pressionada depois da lesão de Radamel Falcao e muita gente acreditava que a equipe teria dificuldades para competir em alto nível. Foi justamente nesse cenário que apareceu um jovem meia de 22 anos disposto a assumir o protagonismo.

James fez uma das campanhas individuais mais memoráveis da história recente das Copas. Foram gols, assistências e atuações que levaram a Colômbia até as quartas de final pela primeira vez. O meia virou sensação mundial quase da noite para o dia. Contra o Japão, mostrou repertório técnico. Contra o Uruguai, eternizou seu nome.

O gol marcado no Maracanã segue como um dos momentos mais bonitos da história do torneio. Domínio no peito, giro e uma finalização de primeira que acertou o travessão antes de entrar. O lance venceu o Prêmio Puskás daquele ano e virou símbolo de uma Copa que parecia anunciar o nascimento de uma nova superestrela do futebol mundial. Pouco depois, o Real Madrid apareceu e levou o colombiano para o Santiago Bernabéu.

James Rodriguez Colômbia
FOTO: DPA

O talento que encontrou limites no futebol moderno

A chegada ao Real Madrid parecia o início de uma trajetória destinada ao topo. James teve bons momentos, mostrou qualidade e viveu uma adaptação inicial positiva. Mas o futebol começou a mudar rapidamente — e talvez ele tenha sido um dos jogadores mais afetados por essa transformação.

O meia sempre foi um organizador clássico. Daqueles que gostam de receber entre linhas, desacelerar o jogo e decidir com o último passe. Só que o futebol europeu passou a exigir cada vez mais intensidade, pressão sem bola, participação defensiva e capacidade física constante. Aos poucos, características que antes eram diferenciais passaram a ser vistas como limitações.

Com treinadores como Rafa Benítez e depois Zinedine Zidane, James perdeu espaço. Vieram empréstimos, mudanças de clube e uma sequência de passagens que nunca se consolidaram completamente. Bayern de Munique, Everton e outros destinos acabaram reforçando uma sensação que acompanhou sua carreira: a de um jogador extremamente talentoso que nunca encontrou um ambiente ideal para reproduzir o que fazia com a camisa da Colômbia.

Talvez a pergunta que acompanhe James até o fim da carreira seja justamente essa: e se ele tivesse jogado em outra época?

Um dos últimos camisas 10 clássicos da América do Sul

Existe um conceito muito forte no futebol sul-americano chamado “enganche”. É aquele meia criador, responsável por conectar o meio-campo ao ataque e organizar tudo ao redor. Durante décadas, esse perfil dominou o continente. Jogadores como Diego Maradona, Zico, Ricardo Bochini e Juan Román Riquelme fizeram desse papel uma arte.

James pertence exatamente a essa escola.

Hoje, porém, o futebol funciona de maneira diferente. Os meias precisam correr mais, pressionar mais e participar de praticamente todas as fases do jogo. Nomes como Jude Bellingham e Bruno Fernandes representam essa evolução do papel. O camisa 10 clássico virou exceção.

Por isso, ver James ainda ocupando esse espaço desperta uma sensação quase nostálgica. Seu corpo já não responde como antes, mas sua leitura de jogo continua ali. Em alguns momentos, parece que ele ainda enxerga jogadas que ninguém mais no campo consegue visualizar.

A Colômbia como último palco para manter viva a magia

Se nos clubes James perdeu protagonismo, na seleção aconteceu exatamente o contrário. A Colômbia adaptou seu jogo ao redor do camisa 10 e encontrou nele um líder técnico e emocional.

Mesmo já na reta final da carreira, o meia voltou a brilhar recentemente. Foi destaque da Copa América de 2024, liderou números ofensivos nas Eliminatórias e chegou à Copa de 2026 cercado de dúvidas sobre ritmo de jogo, mas nunca sobre sua importância.

Contra o Uzbequistão, ficou claro que o físico não é mais o mesmo. Ainda assim, quando começou a recuar para buscar a bola e organizar as ações, a Colômbia passou a controlar a partida. Era como assistir a um jogador tentando desacelerar um esporte que insiste em correr cada vez mais rápido.

A Copa de 2026 deve marcar a despedida de James dos Mundiais. E talvez também represente o encerramento simbólico de uma geração de camisas 10 clássicos que ajudaram a definir o futebol sul-americano.

Pode ser que sua carreira fique marcada pelo sentimento de que poderia ter ido além. Mas em Copa do Mundo, poucos conseguiram produzir momentos tão inesquecíveis quanto ele. E enquanto ainda existir espaço para um último passe genial, para um toque diferente ou para aquela canhota que encantou o mundo em 2014, James Rodríguez continuará dançando.

Foto: Omar Vega/Getty Images