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Lens desafia a hegemonia do PSG e escreve uma das histórias mais improváveis do futebol francês

Lens voltou a fazer o futebol francês acreditar que o PSG pode, sim, ser derrotado. Em um cenário dominado há anos pelo dinheiro do Catar e pela coleção quase automática de títulos da equipe parisiense, o clube do norte da França construiu uma história que parece saída de um roteiro de cinema. A conquista da Supercopa da França, depois da vitória por 1 a 0 sobre o time comandado por Luis Enrique, foi apenas o capítulo mais recente de uma trajetória que mistura planejamento, identidade e uma dose considerável de ousadia.

Durante muito tempo, parecia impossível imaginar um clube francês capaz de competir com o PSG em torneios nacionais. Afinal, a diferença financeira entre os parisienses e os demais clubes aumentou de forma considerável na última década. Ainda assim, o Lens conseguiu quebrar essa lógica e se transformou no único adversário capaz de tirar títulos da equipe de Luis Enrique nos últimos anos.

Cidade que respira futebol

Localizada no norte da França, muito próxima da fronteira com a Bélgica, a cidade de Lens construiu sua identidade ao redor da mineração. Com o declínio da atividade industrial e o crescimento dos grandes centros urbanos, o futebol passou a ocupar um papel ainda mais importante na vida da população.

O clube se transformou em um símbolo de resistência.

O estádio Bollaert-Delelis é praticamente um patrimônio da cidade. Para muitos moradores, o Lens representa muito mais do que uma equipe de futebol. É um elemento cultural, uma fonte de orgulho e um dos poucos símbolos capazes de manter viva a identidade local.

Essa conexão ajuda a explicar um dado impressionante: o estádio já registrou 87 partidas consecutivas com todos os ingressos vendidos. Nenhum outro clube francês conseguiu algo semelhante.

Não é exagero dizer que a cidade vive em função do futebol.

Vitória sobre o PSG foi mais do que um simples título

A conquista da Supercopa da França teve um peso simbólico enorme.

O Lens derrotou o campeão europeu por 1 a 0 e conquistou um troféu inédito em sua história. O detalhe mais impressionante é que a equipe atuou com um jogador a menos durante praticamente uma hora, depois da expulsão do jovem zagueiro Ganiou.

Mesmo em desvantagem numérica, o time conseguiu resistir à pressão do PSG.

Organização, disciplina tática e muita entrega fizeram a diferença. Enquanto o elenco estrelado da equipe parisiense tentava encontrar espaços, o Lens apostava na força coletiva para se manter vivo na partida.

O gol decisivo de Florian Thauvin transformou a noite em um momento histórico para o clube. Mais do que levantar um troféu, o Lens enviou uma mensagem ao restante do futebol francês: existe vida além do PSG.

Segredo está no planejamento

O atual momento do clube começou a ser construído há quase uma década.

Quando Joseph Oughourlian assumiu o controle da equipe, encontrou uma instituição mergulhada em problemas financeiros e distante das principais competições europeias.

A transformação aconteceu de maneira gradual.

Em vez de apostar em contratações milionárias, a diretoria optou por investir em planejamento, análise de mercado e desenvolvimento estrutural.

Os resultados começaram a aparecer. Nos últimos anos, o clube conquistou duas classificações para a Liga dos Campeões e levantou dois títulos em 2026: a Copa da França e a Supercopa.

Além das conquistas esportivas, o Lens conseguiu reorganizar as finanças e construir um ambiente muito mais estável.

Em uma época em que diversos clubes franceses enfrentam dificuldades econômicas por causa da queda das receitas provenientes dos direitos de transmissão, essa estabilidade se transformou em uma enorme vantagem competitiva.

Mercado provou que gastar menos não significa competir menos

A janela de transferências poderia ter representado um grande problema.

O elenco perdeu jogadores importantes, como Sangaré, Saïd, Allan Saint-Maximin e Adrien Thomasson. Em tese, a saída desses atletas deveria provocar uma queda no rendimento da equipe. Mas isso não aconteceu.

A diretoria agiu rapidamente e encontrou soluções no mercado.

Titraoui chegou para reforçar o meio-campo e rapidamente assumiu um papel importante na equipe. Nawrocki, Ivanovic e Cuisance também foram contratados e participaram da decisão contra o PSG.

O mais interessante é que o clube não abandonou sua principal característica: a valorização dos jovens talentos.

A base continua sendo um dos maiores patrimônios da instituição.

Foi justamente dela que surgiram jogadores como Raphaël Varane e Keita. Agora, o nome da vez é Ganiou. Apesar da expulsão na final da Supercopa, o zagueiro de 21 anos é considerado uma das maiores promessas do futebol francês.

Tecnologia se tornou uma aliada

Outro fator importante para entender o crescimento do Lens está relacionado ao departamento de futebol.

Jean-Louis Leca, ex-goleiro do clube, assumiu um papel estratégico na diretoria e formou uma parceria extremamente eficiente com Benjamin Parrot.

Os dois apostaram em uma metodologia baseada na análise de dados para identificar reforços e encontrar profissionais alinhados ao projeto.

A saída de Pierre Sage poderia ter interrompido o crescimento da equipe.

O treinador foi um dos principais responsáveis pela construção do atual projeto e deixou o clube para assumir o comando do Crystal Palace.

Mais uma vez, a diretoria encontrou uma solução diferente.

Utilizando ferramentas de análise estatística semelhantes às empregadas pelo Brighton, da Inglaterra, o clube identificou Dino Toppmöller como o treinador com características mais próximas às de Sage.

O resultado da aposta não poderia ter sido melhor. Em sua estreia oficial, Toppmöller derrotou justamente o PSG e conquistou o primeiro título da sua trajetória no clube.

Lens é o único capaz de desafiar Luis Enrique?

Desde a chegada de Luis Enrique ao PSG, o futebol francês parecia ter encontrado um dono. Até a temporada passada, o treinador espanhol havia conquistado todos os títulos nacionais que disputou.

O Lens mudou essa história. A equipe aproveitou a eliminação precoce do PSG na Copa da França para conquistar o torneio e, meses depois, voltou a derrotar o rival na Supercopa.

Os resultados reforçaram uma percepção que já existia desde a última edição da Ligue 1.

Na temporada passada, o Lens terminou como vice-campeão e chegou a liderar o campeonato quando faltavam apenas nove rodadas para o encerramento da competição.

Alguns episódios, como o adiamento do confronto contra o PSG, geraram polêmicas e provocaram discussões no futebol francês. Mesmo assim, a campanha foi muito superior às expectativas.

A classificação para a Liga dos Campeões já era considerada um enorme sucesso. Agora, o objetivo é ainda mais ambicioso.

Próximo desafio é derrubar a muralha chamada PSG

Sonhar com o título francês continua sendo uma tarefa extremamente complicada.

A diferença financeira entre os dois clubes permanece gigantesca. O PSG continua reunindo alguns dos melhores jogadores do continente e possui recursos praticamente ilimitados. Mas o futebol adora desafiar a lógica.

Se existe uma equipe capaz de transformar o improvável em realidade, essa equipe parece ser o Lens.

Talvez a maior virtude do clube seja justamente a ausência de estrelas acima do coletivo. Não existem egos descontrolados nem disputas internas por protagonismo.

Existe apenas uma cidade apaixonada pelo futebol, um estádio que pulsa a cada partida e um elenco disposto a desafiar o impossível.

Em Paris, ninguém esconde a preocupação. Pela primeira vez desde o início da era do investimento catari, o PSG encontrou um adversário capaz de encará-lo sem baixar a cabeça.

Pode ser cedo para falar em uma nova potência do futebol francês. No entanto, ignorar o que está acontecendo em Lens seria um erro. Porque alguns milagres duram apenas uma noite. Outros, porém, têm o hábito de se transformar em revoluções.

Foto: Divulgação / Racing Club de Lens