Liverpool sempre foi aquele time que não te deixava respirar. Era pressão o tempo todo, intensidade absurda e uma sensação constante de que o gol podia sair a qualquer momento, nem que fosse na marra. Muito disso tinha a assinatura de Jürgen Klopp, com seu famoso “heavy metal football”.
Mas o cenário mudou.
Com a chegada de Arne Slot, o clube decidiu não buscar um “clone” de Klopp. Pelo contrário: optou por uma abordagem mais controlada, mais racional, quase… calma demais para os padrões de Anfield. E, num primeiro momento, deu certo. Muito certo, inclusive.
O problema é que, agora, essa mesma mudança começa a levantar uma pergunta incômoda: será que o Liverpool perdeu justamente o que o tornava tão temido?
Entre o controle e a falta de agressividade
A ideia de Slot nunca foi ruim. Longe disso. O técnico holandês trouxe um estilo mais cadenciado, com foco na posse de bola, menos correria sem sentido e uma pressão mais seletiva, pressionar melhor, não mais, sem esquecer do fato de gostar bastante de trabalhar com bons blocos de jogadores no campo ofensivo.
E isso teve impacto direto no desempenho físico do elenco. Na temporada passada, os Reds praticamente não sofreram com lesões, algo raro nos tempos de Klopp, mesmo se doando fisicamente, tudo parecia estar dado fadado a dar certo. Os treinos menos intensos e mais personalizados ajudaram a manter os jogadores em alto nível durante toda a campanha, um fator decisivo para o título.
Só que futebol não é só ciência. Tem um pouco de caos também. E é justamente isso que parece estar faltando.
Nesta temporada, além de conviver com mais problemas físicos, o clube inglês tem mostrado dificuldade para “matar” jogos, ou se apresentar como dominante no duelo, algo que seu elenco deveria gritar. Aquela sensação de domínio absoluto desapareceu em alguns momentos. O próprio Virgil van Dijk já ligou o alerta após empate contra o Burnley, citando quedas de intensidade depois dos 60 minutos.
O que antes era controle, agora às vezes parece passividade.
Mudanças no elenco pesaram mais do que parece
Não dá pra falar de estilo sem falar de peças. E o Liverpool perdeu algumas importantes. A saída de nomes como Darwin Núñez e Luis Díaz, além do impacto emocional pela perda de Diogo Jota, mexeu diretamente com a identidade ofensiva do time.
Esses jogadores tinham algo em comum: intensidade sem bola. Pressionavam, incomodavam, roubavam bolas no campo de ataque. Mesmo com a pressão mais seletiva de Slot, eles eram peças que elevavam o nível coletivo. Hoje, o ataque tem características diferentes.
Jogadores como Alexander Isak e Hugo Ekitiké são talentosos, mas não têm o mesmo perfil agressivo na marcação. E até Mohamed Salah, ainda decisivo, já não entrega o mesmo volume físico de outros tempos.
Resultado? Um time que pressiona menos, recupera menos bolas no campo ofensivo e dá mais tempo para o adversário respirar.
E, no futebol moderno, dar tempo é pedir problema.
Menos risco, menos impacto
Os números ajudam a explicar essa mudança de comportamento. Na temporada 2019/20, auge do Liverpool de Klopp, o time tinha uma média de mais de 200 ações combinadas de posse (ganhando e perdendo a bola). Era um jogo acelerado, caótico, imprevisível.
Hoje, esse número caiu consideravelmente. Na prática, o Liverpool perde menos a bola, o que parece bom, mas também recupera menos. Ou seja, arrisca menos. E isso tem um efeito colateral claro: o time se torna mais previsível.
A construção das jogadas muitas vezes fica presa entre defesa e meio-campo, girando de um lado para o outro sem progressão. Quando surge um espaço para quebrar linhas, falta ousadia.
É aquele famoso “toca pro lado e ninguém tenta algo diferente”. E aí o adversário agradece, se organiza e fecha os espaços.
A ausência de um diferencial na construção
Outro ponto importante nessa equação é a saída de Trent Alexander-Arnold como peça central na construção. Durante anos, ele foi o cara que quebrava qualquer sistema defensivo com um passe. Curto, longo, por dentro, por fora, pouco importava. Ele acelerava o jogo quando tudo parecia travado.
Sem esse tipo de jogador em evidência, o Liverpool perde justamente o fator surpresa.
E isso impacta diretamente Mohamed Salah. Antes, o egípcio recebia a bola em transição, com espaço para atacar. Agora, muitas vezes encara defesas baixas e compactas, com pouco campo para explorar.
Não por acaso, Arne Slot já comentou sobre o aumento de “low blocks” enfrentados pela equipe. Mas a questão é: será que é só tendência dos adversários… ou também consequência do próprio estilo do Liverpool?
Liverpool e sua falta de “bagunça” (no bom sentido)
O próprio Alexander-Arnold resumiu bem a essência da equipe inglesa de Klopp: arriscar fazia parte do plano. Perder a bola não era necessariamente um problema, porque o time estava preparado para recuperar rápido e atacar de novo, pegando o adversário desorganizado.
Era um ciclo de pressão e caos que desmontava qualquer defesa.
Hoje, o Liverpool parece mais seguro… e menos perigoso. Claro, isso não significa que a solução seja simplesmente voltar ao estilo antigo. O elenco mudou, o contexto é outro. Mas existe um meio-termo que talvez ainda não tenha sido encontrado.
E é aí que entra o debate. Após a derrota para o Wolves, Van Dijk foi direto: o time está “lento e previsível”. E, convenhamos, essas são duas palavras que nunca combinaram com o Liverpool nos últimos anos.
Talvez o caminho não seja abandonar o controle, mas sim adicionar uma dose maior de imprevisibilidade. Porque, no fim das contas, o futebol que empolga e que ganha jogo grande, quase sempre tem um pouquinho de caos.
E talvez seja exatamente isso que está faltando em Anfield hoje.
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