A fase de grupos da maior Copa do Mundo da história chegou ao fim deixando para trás 72 partidas disputadas e 215 gols marcados. O encerramento dessa primeira fase entregou uma mistura caótica entre a burocracia de um regulamento inflado e o drama que só o futebol de seleções consegue produzir. O gol de empate da Áustria aos 96 minutos contra a Argélia, estabelecendo 3 a 3 no no último lance, foi a ilustração perfeita de uma Copa do Mundo que se recusa a ser entediante, mesmo quando o formato parece jogar contra o espetáculo.
Havia um medo legítimo de que a expansão do torneio transformasse a fase de grupos em diversos jogos arrastados, de má qualidade técnica e goleadas previsíveis. Na prática, a realidade entregou uma dinâmica bem diferente. A média de 2,99 gols por partida é a mais alta registrada desde a década de 1950, e o equilíbrio prevaleceu na maioria dos grupos. O gigantismo do evento serviu de palco para histórias que dificilmente existiriam nos formatos anteriores. O gol de empate de Curaçao contra a Alemanha e a valentia da Jordânia, que balançou as redes mesmo caindo diante da Argentina, mostram que os estreantes não vieram a passeio. A surpreendente e invicta seleção de Cabo Verde, liderada pelo veterano goleiro Vozinha, de 40 anos, avançou para o mata-mata e agora se prepara para enfrentar a Argentina de Lionel Messi nos 16 avos de final.
O impacto das estrelas e o debate das estatísticas infladas
Se por um lado os azarões trouxeram frescor ao torneio, por outro as grandes estrelas do futebol mundial aproveitaram a fragilidade de algumas defesas para inflar seus números na corrida pela artilharia. Lionel Messi abriu os caminhos com um hat-trick contra a Argélia, mas a disputa pelo topo da artilharia virou uma pré-seleção para a Bola de Ouro, com Vinicius Junior, Ousmane Dembélé, Erling Haaland e Kylian Mbappé colados na liderança.
Essa explosão de gols de batedores de recordes inevitavelmente levanta questionamentos sobre o nível técnico das seleções. Goleadas e marcas pessoais estabelecidas contra equipes como Uzbequistão ou Iraque, que se classificaram graças às vagas extras da Ásia após uma série de repescagens, distorcem a comparação com Copas do passado, onde cada gol precisava ser cavado contra defesas de elite. Atualmente, o cenário está distante da era de Paolo Rossi em 1982, que brilhou contra gigantes como Brasil e Alemanha na reta decisiva.
A expansão da Copa do Mundo
Essa nova configuração geográfica e financeira do futebol gerou duras críticas nos bastidores. O técnico de Gana, Carlos Queiroz, mostrou o descontentamento de uma ala mais tradicionalista ao afirmar que o excesso de seleções corre o risco de tornar a Copa do Mundo algo banal. Na visão do treinador português, a Copa do Mundo perde parte de seu misticismo e raridade quando o aspecto financeiro dita a expansão das vagas, transformando o torneio em um evento longo demais apenas para eliminar 16 equipes e retornar no mata-mata com as tradicionais 32 seleções.
Apesar das críticas sobre a Copa do Mundo estar “distribuindo vagas”, o eurocentrismo foi castigado durante o torneio, com as quedas precoces de Escócia e Turquia. A grande surpresa do continente sul-americano foi a eliminação do Uruguai, que se despediu sem vencer uma única partida. Por outro lado, a África viveu uma fase de grupos histórica, com nove das suas dez representantes avançando de fase, em nítido contraste com o retrocesso das seleções asiáticas, que viram sete países arrumarem as malas mais cedo.
O mata-mata é tudo ou nada
Mesmo com todas questões políticas e comerciais em sua estrutura, a Copa do Mundo demonstrou uma capacidade única de se manter especial. O torneio vive dos seus contrastes e de seus personagens improváveis, vistos da genialidade precoce de Kerim Alajbegovic pela Bósnia aos 18 anos, passando pela plasticidade da trivela de Giovanni Reyna pelos Estados Unidos, até a coletiva e a alegria de estar na Copa do Mundo demonstrada pela seleção do Equador.
A partir de agora, o torneio entra em uma rota completamente diferente, onde a rede de segurança dos pontos corridos deixa de existir. Sem espaço para testes ou recuperação, cada partida passa a carregar uma carga psicológica e dramática maior e cada erro pode significar o retorno imediato para casa. O gigantismo da fase de grupos fica para trás para dar lugar à verdadeira Copa do Mundo, onde apenas o peso da camisa e a frieza nos momentos de decisão irão decidir quem continuará vivo na briga pelo título.
Créditos da foto de capa: Reuters/Troy Taormina