O Manchester United vive um daqueles momentos que parecem bons demais para serem simples. Desde a saída de Ruben Amorim, no dia 5 de janeiro, Michael Carrick assumiu o comando interinamente e fez algo que poucos esperavam: três jogos, três vitórias, derrubando Pep Guardiola, Mikel Arteta e Marco Silva pelo caminho. Nada mal para quem, até pouco tempo atrás, era visto apenas como uma solução temporária para “apagar incêndio”.
Com esses resultados, o United voltou a sonhar alto. A vaga no top-4 da Premier League, que parecia distante e até improvável, agora está logo ali. O suficiente para garantir um retorno à Champions League e afastar o fantasma de mais uma temporada fora da alta classe do cenário europeu. Naturalmente, parte da torcida já começou a se perguntar: por que não efetivar Carrick de vez?
Calma. O próprio clube pede calma. E, dessa vez, faz sentido.
Um entusiasmo que exige memória curta, ou não
Parte da cautela do clube nasce da própria história. Em 2018, o roteiro do Manchester United foi assustadoramente parecido. José Mourinho foi demitido, Ole Gunnar Solskjaer assumiu interinamente e promoveu uma verdadeira lua de mel com elenco e torcida. Oito vitórias consecutivas, atuações vibrantes e uma das noites mais icônicas da Champions League, com a virada contra o PSG no Parc des Princes.
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O contrato definitivo veio rápido. Rápido até demais. O desgaste apareceu, os resultados caíram e, anos depois, a avaliação interna foi clara: o Manchester United se deixou levar pela emoção, mas também, quem poderia imaginar? Errar uma vez é humano, agora, os Diabos Vermelhos não querem repetir o feito e aparecerem como burros.
Hoje, com Sir Jim Ratcliffe à frente das decisões esportivas, a ideia é evitar esse erro. Carrick agrada, empolga e passa credibilidade, mas o clube quer entender se o impacto é estrutural ou apenas o clássico “efeito troca de técnico”.
Manchester United quer olhar o mercado antes de agir
Aqui entra um ponto-chave: o tempo pode jogar a favor do Manchester United. Muitos treinadores bem avaliados devem ficar disponíveis nos próximos meses, o que naturalmente amplia o leque de opções. Depois de terem feito chover na temporada passada, e nas anteriores, encontraram instabilidade nesta nova ocasião, o que acaba sendo interessante para os principais times da Inglaterra, mas também, um alerta.
Na Premier League, nomes como Andoni Iraola (Bournemouth) e Marco Silva (Fulham) continuam muito bem cotados. Oliver Glasner, que já anunciou saída do Crystal Palace ao fim da temporada, também aparece nesse radar, ainda que seu momento atual sirva para ficar ligado sobre como o futebol pode virar rápido.
Campeão da Europa League pelo Eintracht Frankfurt e responsável por levar o Palace ao primeiro título de sua história, o austríaco hoje enfrenta uma sequência incômoda de resultados ruins, só que vale lembrar, a perda de suas principais estrelas, e a falta de reposição para elas. Eliminação vexatória na FA Cup, tropeços europeus e uma campanha doméstica apenas segura o suficiente para não gerar pânico. Moral da história? Avaliar técnico apenas por troféus recentes é perigoso.
O peso da Copa do Mundo complica tudo
O cenário fica ainda mais delicado quando entram os técnicos de seleções. Thomas Tuchel (Inglaterra), Mauricio Pochettino (Estados Unidos), Carlo Ancelotti (Brasil) e Julian Nagelsmann (Alemanha) são nomes que, naturalmente, despertam interesse em qualquer gigante europeu. Entretanto, o caminho na direção deles é bem mais complicado, ainda mais quando se observar o palco que possuem pela frente, e seus elencos.
Mas negociar com treinadores às vésperas de uma Copa do Mundo é andar em campo minado. A história está cheia de exemplos traumáticos. Bobby Robson foi massacrado pela imprensa inglesa em 1990 ao acertar com o PSV antes do Mundial. Em 2018, Julen Lopetegui perdeu o cargo na Espanha dois dias antes da estreia após o Real Madrid anunciar sua contratação.
É interessante lembrar de Paulo Sousa também, que teve um belo trabalho com a Polônia, mas abriu mão de comandá-la na Copa do Mundo para se juntar ao Flamengo. Segundo as informações da época, até pagou sua multa rescisória para a transferência ser concluída.
Internamente, o entendimento é claro: conversas podem existir, sondagens são normais, mas qualquer acordo formal agora seria imprudente. Além de desestabilizar seleções, colocaria o próprio Manchester United no centro de uma crise desnecessária.
E o elenco? Precisa de respostas, mas não de barulhos
Existe, claro, o outro lado da moeda. Jogadores gostam de clareza. Harry Maguire e Casemiro estão em fim de contrato, e o Manchester United já tem monitorado reforços importantes para o meio-campo também, como Elliott Anderson, Adam Wharton e Carlos Baleba. É natural que atletas e empresários queiram saber quem comandará o projeto, se a mudança realmente é interessante.
O trauma da passagem de Ralf Rangnick no United ainda é lembrado. A indefinição sobre o futuro do comando técnico contribuiu para um colapso esportivo na temporada 2021/22, com atuações apáticas e resultados decepcionantes.
Carrick, porém, não vê esse risco agora. Pelo contrário. Segundo o próprio treinador interino, o grupo está focado no presente e reage bem ao cenário. Sem promessas, sem pressão pública e com uma ideia simples: ganhar o próximo jogo.
Esperar também é uma decisão
No futebol moderno, onde técnicos são demitidos antes mesmo de terminarem frases em coletivas, a paciência virou artigo de luxo. O Manchester United tenta resgatar exatamente isso, a questão é que, é muito mais fácil pensar, quando se está ganhando, pense nesta mesma realidade com os Diabos Vermelhos tendo três derrotas consecutivas.
Se Carrick terminar a temporada em alta, terá argumentos reais para permanecer, algo meio que semelhante a Dorival Júnior no Flamengo, depois de ter conquistado a Copa do Brasil. Entretanto, ainda existe a chance de ocorrer a procura por um outro nome, como foi o caso do time rubro-negro. Se o clube entender que existe alguém mais preparado para liderar um projeto de longo prazo, terá feito a escolha com base em análise, e não em euforia.
Curiosamente, mesmo que Carrick deixe o cargo ao fim do ciclo, sua passagem já não seria curta. Com 17 jogos, ele superaria treinadores que mal tiveram tempo de desfazer as malas na Premier League. Ange Postecoglou, por exemplo, durou apenas cinco partidas no Nottingham Forest.
Desta vez, o Manchester United parece disposto a aprender com o passado. E, no futebol, isso já é meio caminho andado.
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