Enzo Maresca começou sua trajetória no Manchester City com uma característica que pode ser decisiva para o futuro da equipe: a capacidade de reconhecer erros e mudar uma partida. A derrota por 4 a 2 para o Paris Saint-Germain, pela Champions League, expôs as limitações do time comandado pelo italiano, mas também mostrou por que ele começa a ser visto como um possível sucessor à altura de Pep Guardiola. Depois de um primeiro tempo em que o City foi dominado pelo meio-campo parisiense, o treinador promoveu três substituições no intervalo e conseguiu transformar uma equipe desorganizada em um adversário capaz de ameaçar a vitória dos franceses.
O resultado, no entanto, deixa uma contradição importante. Maresca parece estar aprendendo rapidamente a resolver os problemas que surgem dentro de campo, mas assumiu o comando de um clube cuja situação mais delicada não depende apenas de decisões táticas. As questões financeiras e regulatórias que cercam o Manchester City continuam projetando incertezas sobre o futuro da instituição e, consequentemente, sobre o próprio treinador.
O italiano está há apenas dez partidas no cargo e já soma oito vitórias. O retrospecto indica um início positivo, mas a sequência também revela um padrão interessante: em diferentes momentos, Maresca precisou recorrer ao banco de reservas para corrigir escolhas iniciais ou alterar o rumo dos jogos. Contra o PSG, essa capacidade voltou a aparecer. O problema é que, enquanto ele tenta construir sua própria identidade no City, também precisa lidar com a responsabilidade de substituir um dos treinadores mais influentes da história recente do futebol.
O primeiro tempo mostrou o tamanho do problema tático do City
A derrota para o PSG não começou a ser construída apenas pela qualidade dos franceses. O próprio Manchester City contribuiu para as dificuldades ao entrar em campo com uma estrutura que deixou espaços importantes no meio-campo.
Maresca escalou Rayan Cherki como camisa 10, mas a presença do francês em uma função tão avançada acabou criando um desequilíbrio. Enzo Fernández já possui características ofensivas e gosta de participar da construção perto da área adversária. Com os dois ocupando espaços semelhantes, Elliot Anderson ficou isolado em uma região na qual precisava de mais apoio para enfrentar a intensidade do meio-campo parisiense.
O problema não era simplesmente a qualidade individual dos jogadores. Era a maneira como suas características se combinavam. Cherki e Fernández podem oferecer criatividade, passes verticais e capacidade de encontrar espaços entre as linhas, mas uma equipe também precisa de jogadores capazes de proteger a defesa, disputar a segunda bola e impedir que o adversário progrida com facilidade.
Contra o PSG, essa necessidade se tornou ainda mais evidente. O time francês possui um meio-campo capaz de controlar o ritmo e acelerar o jogo, além de contar com Ousmane Dembélé, que frequentemente abandona a posição inicial no ataque para participar da construção. Quando o atacante recua, cria superioridade numérica em regiões nas quais o adversário já enfrenta dificuldades para manter a organização.
O City ficou exposto justamente nesse setor. A equipe não conseguia controlar as movimentações do PSG e tampouco encontrava uma maneira consistente de impedir que os franceses avançassem. A desvantagem de três gols no intervalo foi uma consequência de um primeiro tempo em que o plano inicial de Maresca não conseguiu responder às exigências da partida.
Não era a primeira vez que esse tipo de problema aparecia. Três semanas antes, o treinador havia enfrentado dificuldades semelhantes contra o Sunderland, quando a estrutura do meio-campo também deixou Anderson exposto. Contra um adversário da dimensão do PSG, porém, o custo foi muito maior.
Se o primeiro tempo evidenciou uma escolha equivocada, o intervalo mostrou uma das principais virtudes de Maresca: a disposição para reconhecer o problema e agir sem demora.
O treinador promoveu três substituições, mas a mudança foi além da entrada de novos jogadores. A estrutura da equipe também foi alterada para oferecer maior proteção ao meio-campo e permitir que os jogadores ofensivos encontrassem espaços com mais liberdade.
A entrada de Ayyoub Bouaddi foi particularmente importante. Aos 19 anos, o meio-campista marroquino ofereceu a Anderson um companheiro para dividir as tarefas defensivas e ajudar na saída de bola. O City passou a ter uma base mais equilibrada, com maior capacidade para proteger a região central e impedir que o PSG avançasse com tanta facilidade.
Essa mudança também liberou Enzo Fernández. Com mais apoio atrás, o argentino pôde participar da construção ofensiva sem carregar a mesma responsabilidade de proteger sozinho o meio-campo. A equipe ganhou alternativas para progredir e começou a encontrar situações nas quais seus jogadores mais criativos podiam fazer a diferença.
A entrada de Iliman Ndiaye também teve um significado tático. Jeremy Doku não havia conseguido acompanhar adequadamente as subidas de Achraf Hakimi, lateral-direito do PSG que oferecia profundidade e criava dificuldades pelo corredor. Ndiaye trouxe características diferentes para a posição e ajudou o City a encontrar um equilíbrio melhor entre atacar e defender.
O posicionamento dos jogadores também mudou. Ndiaye passou a atuar pela esquerda, enquanto Antoine Semenyo ocupou o lado direito. A troca de corredores permitiu explorar outras combinações e ajudou a equipe a se tornar mais imprevisível. Foi justamente um cruzamento de Ndiaye que encontrou Erling Haaland para marcar o primeiro gol do City.
A substituição de Ruben Dias, capitão e um dos jogadores mais próximos de Maresca, foi outra decisão importante. O zagueiro deixou o campo no intervalo, e Abdukodir Khusanov passou a atuar como defensor central, depois de começar a partida na lateral direita. Sua velocidade oferecia uma proteção importante para uma equipe que precisava assumir riscos e deixar mais espaço nas costas da defesa.
Luis Enrique reconheceu depois da partida que o City se lançou ao ataque e deixou apenas um defensor em determinadas situações. A mudança aumentou a exposição da equipe, mas também permitiu que ela pressionasse o PSG e ameaçasse transformar a derrota em uma recuperação histórica.
O City não conseguiu completar a virada, mas a segunda etapa deixou uma impressão diferente da primeira. Maresca não apenas trocou jogadores. Encontrou uma maneira de corrigir o desequilíbrio que havia comprometido sua equipe.
O banco de reservas está se tornando uma arma de Maresca
O desempenho contra o PSG ajuda a explicar por que o italiano começa a ser reconhecido como um treinador capaz de alterar o destino de uma partida. Em dez jogos no comando do City, Maresca conquistou oito vitórias, e algumas delas foram construídas ou transformadas por decisões tomadas durante os confrontos.
Na estreia pela Premier League, contra o Bournemouth, a equipe estava a caminho de uma derrota até a entrada de Cherki. O francês participou diretamente da reação e terminou a partida com duas assistências.
No clássico contra o Manchester United, Maresca precisou reorganizar a equipe depois da expulsão de Phil Foden. Cherki deixou o campo para a entrada de Ndiaye, cuja capacidade de proteger a bola, enfrentar defensores e conquistar faltas ajudou o City a administrar a partida mesmo com um jogador a menos.
Contra o Liverpool, no último domingo, o treinador também demonstrou capacidade para antecipar mudanças. Doku entrou relativamente cedo e participou dos três gols da vitória, incluindo uma finalização espetacular que resultou no segundo tento da equipe. A atuação reforçou a importância de saber identificar o momento em que uma partida precisa de uma característica diferente.
Há, porém, uma diferença entre ter bons reservas e saber utilizá-los. O City possui um elenco caro e tecnicamente qualificado, com alternativas capazes de mudar o ritmo das partidas. Isso oferece a Maresca recursos que muitos treinadores não têm. Ainda assim, a capacidade de perceber o que falta ao time, escolher a substituição correta e reorganizar os jogadores em pouco tempo também depende de leitura tática.
Os números de gols marcados por reservas, isoladamente, não revelam toda essa influência. Desde a chegada de Maresca, o City contabilizou apenas dois gols de jogadores que começaram no banco, incluindo o marcado pelo jovem Ryan McAidoo contra o Norwich, pela Copa da Liga Inglesa. Cherki, por exemplo, já foi substituído no intervalo em três ocasiões, e poderia ter sido retirado também na partida contra o Crystal Palace. Naquela ocasião, o próprio jogador afirmou que o treinador pretendia substituí-lo, mas conseguiu convencê-lo a permanecer em campo. Cherki acabou marcando duas vezes no segundo tempo.
Isso mostra que a relação entre Maresca e o banco não se resume a colocar jogadores para decidir partidas. Também envolve a capacidade de reconhecer quando uma escolha inicial não está funcionando e a disposição para reconsiderá-la.
O desafio agora é reduzir a frequência com que essas correções se tornam necessárias. Um treinador pode ser excelente ao mudar jogos, mas uma equipe que pretende conquistar a Champions League precisa começar as partidas com estruturas capazes de enfrentar diferentes estilos de adversário.
O sucessor de Guardiola também precisa lidar com os problemas do clube
A comparação entre Maresca e Guardiola é inevitável. O italiano foi assistente do catalão e conhece de perto os princípios que transformaram o Manchester City em uma das equipes mais dominantes da Europa. Sua chegada, portanto, foi interpretada como uma tentativa de preservar parte dessa identidade enquanto o clube inicia uma nova etapa.
Mas substituir Guardiola significa assumir uma responsabilidade que vai além da organização tática. O espanhol construiu uma relação profunda com o clube, influenciou sua cultura de treinamento e esteve à frente de um dos períodos mais vitoriosos da história do City. Maresca precisa demonstrar que pode dar continuidade a esse projeto sem simplesmente reproduzir o trabalho de seu antecessor.
Ao mesmo tempo, o italiano assumiu o cargo em um contexto institucional delicado. O processo envolvendo as acusações financeiras contra o Manchester City continua sendo uma fonte de incerteza, com possíveis consequências esportivas e administrativas que podem afetar o planejamento do clube. A dimensão dessas consequências dependerá dos desdobramentos do caso, mas a situação já coloca a direção diante de questões que o treinador não tem condições de resolver.
Esse cenário também ajuda a explicar por que a posição de Maresca pode ser menos confortável do que parece. Embora o treinador tenha começado bem e demonstre capacidade para resolver problemas em campo, o futuro do clube permanece ligado a decisões que serão tomadas fora dele. Dependendo dos desdobramentos, o técnico poderá precisar administrar mudanças profundas no projeto ou até considerar outras oportunidades profissionais.
A ironia é que o italiano parece estar aprendendo rapidamente a solucionar problemas que surgem durante os jogos, mas não possui controle sobre os fatores que podem definir o futuro de sua própria equipe.
Maresca precisa transformar correções em consistência
O início de trabalho de Maresca oferece motivos para otimismo. O treinador demonstrou flexibilidade, capacidade de leitura e disposição para tomar decisões difíceis, inclusive quando isso significa retirar jogadores importantes ou modificar o posicionamento de atletas em quem confia.
A reação contra o PSG foi uma evidência clara dessas qualidades. Mesmo depois de um primeiro tempo desastroso, o City voltou para a segunda etapa com outra organização, passou a oferecer maior resistência no meio-campo e encontrou maneiras de ameaçar a defesa adversária. O placar final continuou sendo uma derrota, mas o comportamento da equipe mudou de maneira significativa.
O problema é que o Manchester City não pode depender sempre de uma intervenção no intervalo para encontrar seu melhor futebol. A escolha de Cherki como camisa 10, o isolamento de Anderson e as dificuldades para acompanhar as movimentações do PSG foram problemas que poderiam ter sido antecipados. A capacidade de corrigir erros é importante, mas evitá-los desde o início é o que costuma diferenciar uma equipe competitiva de uma equipe capaz de conquistar títulos.
Maresca também precisará decidir como combinar Cherki e Enzo Fernández sem comprometer o equilíbrio do meio-campo. A entrada de Bouaddi mostrou uma alternativa promissora, mas a solução precisa ser testada em diferentes contextos. O City tem talento suficiente para produzir um ataque criativo e perigoso, mas precisa garantir que essa liberdade não seja acompanhada por fragilidade defensiva.
A temporada ainda está no início, e dez partidas representam uma amostra pequena para definir o futuro do treinador. As oito vitórias são um sinal positivo, mas a consistência será medida pela capacidade de repetir boas atuações contra adversários que exploram problemas diferentes.
(Foto: Getty Images)



