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Futebol Copa do Mundo

Messi deu uma aula tática e comandou a virada da Argentina sobre a Inglaterra dentro de campo

A imagem de Lionel Messi caminhando durante boa parte das partidas costuma gerar uma impressão equivocada. Aos 39 anos, o argentino já não possui a mesma explosão física que marcou o início de sua carreira, mas continua compensando essa perda com um entendimento do jogo que poucos atletas na história conseguiram desenvolver. Na semifinal da Copa do Mundo contra a Inglaterra, essa inteligência ficou evidente. Mais do que participar diretamente dos dois gols da vitória por 2 a 1, Messi atuou praticamente como um treinador dentro de campo, identificando problemas na estrutura inglesa e conduzindo a Argentina a uma virada construída muito mais pela leitura tática do que pela intensidade física.

Durante boa parte do primeiro tempo, a estratégia da Inglaterra funcionou. Thomas Tuchel desenhou um plano específico para neutralizar o jogo argentino pelo centro do campo, setor onde tradicionalmente a equipe de Lionel Scaloni constrói suas principais jogadas. No entanto, conforme o desgaste físico apareceu e a partida evoluiu, Messi começou a modificar completamente o cenário com pequenos ajustes em seu posicionamento. A partir dali, a Argentina assumiu o controle do jogo e transformou uma semifinal equilibrada em uma demonstração de superioridade tática.

A estratégia inglesa funcionou até Messi encontrar a solução

tuchel inglaterra
Foto: Justin Setterfield/Getty Images

Nos primeiros minutos, a Inglaterra conseguiu executar praticamente tudo o que havia planejado.

A pressão na saída de bola argentina foi organizada para impedir que os zagueiros encontrassem os laterais. Anthony Gordon e Morgan Rogers fechavam os corredores externos, obrigando Emiliano Martínez, Cristian Romero e Lisandro Martínez a buscar passes pelo meio.

Era exatamente isso que Tuchel desejava.

No centro do campo, Jude Bellingham marcava Enzo Fernández, Declan Rice acompanhava Alexis Mac Allister e Elliot Anderson tinha a missão de seguir Lionel Messi praticamente por todo o campo.

A ideia era simples: utilizar a superioridade física inglesa para sufocar os principais organizadores da Argentina.

Durante boa parte do primeiro tempo, o plano funcionou.

Anderson, principalmente, fez um excelente trabalho sobre Messi. Sempre agressivo nas disputas, chegava rapidamente às bolas divididas e impedia que o camisa 10 recebesse com liberdade.

O problema surgiu quando Messi começou a perceber exatamente como o sistema inglês funcionava.

Em vez de permanecer entre as linhas ofensivas, passou a recuar cada vez mais para participar da construção das jogadas.

Esse movimento criou um dilema para Anderson.

Se acompanhasse Messi até regiões mais baixas do campo, abriria espaço nas costas para outros argentinos atacarem. Se permanecesse em sua posição, permitiria que o capitão argentino recebesse a bola livre para organizar o jogo.

Foi nesse momento que a partida começou a mudar.

A inteligência de Messi desmontou a marcação inglesa

Lionel Messi
Dale Zanine-Imagn Images

Uma das principais características de Messi atualmente é utilizar o próprio ritmo da partida a seu favor.

Enquanto muitos enxergam o fato de caminhar durante boa parte do jogo como sinal de pouca participação, na realidade isso funciona como uma forma de estudar constantemente o posicionamento dos adversários.

Na semifinal, essa característica apareceu diversas vezes.

Messi permanecia praticamente parado durante alguns segundos e, quando identificava o momento ideal, acelerava rapidamente para receber a bola.

Esses movimentos obrigavam os marcadores ingleses a reagirem sempre em atraso.

Ao mesmo tempo, a intensidade da pressão inglesa começou a diminuir com o desgaste físico da equipe.

Com isso, a Argentina passou a conseguir aproximar seus jogadores durante a construção das jogadas e avançar em bloco até assumir completamente o controle da posse de bola.

Os números mostram claramente essa mudança.

Entre o gol marcado por Anthony Gordon, aos 55 minutos, e o empate argentino, aos 85, a Inglaterra teve apenas 12% de posse de bola.

Ou seja, durante praticamente meia hora, limitou-se apenas a defender.

Messi aproveitou esse cenário para explorar outro detalhe importante.

Percebendo que Elliot Anderson continuava saindo agressivamente para cada disputa, passou a utilizar essa característica contra o próprio marcador.

Em vez de acelerar imediatamente as jogadas, segurava a bola por alguns instantes, atraía Anderson e, somente depois, fazia passes rápidos para companheiros que apareciam justamente no espaço deixado pelo inglês.

Foi exatamente esse comportamento que originou o gol de Enzo Fernández.

Após uma cobrança curta de escanteio e uma tabela, Anderson deixou novamente sua posição para dobrar a marcação sobre Messi.

O argentino esperou o momento exato, atraiu ainda mais defensores e encontrou Enzo completamente livre na entrada da área para finalizar.

Os ajustes de Tuchel facilitaram ainda mais o jogo argentino

Argentina derrota Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026
Foto: Patrick Smith/FIFA/Getty Images

A Inglaterra já demonstrava sinais de desgaste quando Thomas Tuchel resolveu modificar sua estrutura defensiva.

A entrada de Ezri Konsa transformou a equipe em uma linha de cinco defensores.

A intenção era reforçar a proteção da área diante da quantidade de jogadores argentinos que atacavam os cruzamentos.

Na prática, a mudança teve efeito contrário.

Com cinco defensores presos próximos ao próprio gol, sobraram apenas três meio-campistas para cobrir toda a largura do campo.

Messi percebeu rapidamente essa nova configuração.

Em vez de atuar centralizado, passou a ocupar constantemente o lado direito do ataque argentino, região onde encontrava espaço para receber com liberdade.

Mais tarde, outra alteração agravou ainda mais esse problema.

Após a saída de Declan Rice, Bellingham passou a desempenhar uma função mais recuada no meio-campo.

Embora seja um jogador extremamente completo, essa não é sua posição mais natural.

Sempre que precisava pressionar os argentinos próximos da área, era obrigado a percorrer grandes distâncias.

Esse pequeno atraso era suficiente para que a Argentina invertesse rapidamente o jogo até encontrar Messi livre pelo lado direito.

Scaloni também colaborou decisivamente para esse domínio.

Ao inverter funções entre Enzo Fernández e Alexis Mac Allister e colocar jogadores fortes pelo alto como Lautaro Martínez e Nico González, criou uma estrutura ofensiva baseada em cruzamentos constantes.

Rodrigo De Paul também passou a ocupar mais frequentemente o corredor direito, aumentando ainda mais a superioridade numérica argentina naquele setor.

Durante aproximadamente meia hora, praticamente todos os ataques argentinos nasceram por esse lado.

Uma vitória construída pela leitura de jogo

Messi comemora gol de Lautaro Martinez contra a Inglaterra
Foto: Shaun Botterill/Getty Images/AFP

Embora Messi tenha encerrado a partida com uma assistência para Lautaro Martínez e participação direta no lance do gol de Enzo Fernández, sua maior contribuição talvez tenha sido invisível para quem observa apenas os números.

Sua movimentação constante, sua capacidade de reconhecer espaços livres e, principalmente, sua leitura das mudanças promovidas por Thomas Tuchel transformaram completamente o rumo da semifinal.

Enquanto a Inglaterra permaneceu presa ao plano inicial e tentou apenas resistir à pressão, Messi passou a atuar como um verdadeiro organizador dentro de campo, ajustando posicionamentos, escolhendo onde receber a bola e indicando o caminho por onde a Argentina poderia atacar.

Foi uma atuação que demonstrou por que, mesmo aos 39 anos, ele continua sendo um dos jogadores mais influentes do futebol mundial.

A velocidade já não é a mesma, mas a capacidade de interpretar o jogo permanece em um nível raramente visto na história. Na semifinal da Copa do Mundo, não foi apenas o talento técnico que decidiu a classificação argentina. Foi a inteligência de um jogador capaz de enxergar a partida alguns segundos antes de todos os outros.

(Foto de capa: FIFA)

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Kaique