Rafa Márquez México
Futebol Copa do Mundo

México de Rafa Márquez começa nova era com empate, mas mostra que identidade pode ser o caminho

Rafa Márquez não precisou reconstruir o México

Rafa Márquez poderia ter escolhido começar seu trabalho na seleção mexicana rompendo com o que havia sido feito antes. Um novo treinador normalmente carrega a expectativa de mudanças, especialmente depois de uma Copa do Mundo que terminou com a sensação de que o time poderia ter ido mais longe.

Mas a estreia diante da Colômbia mostrou uma escolha diferente.

No empate por 1 a 1 em Baltimore, o México manteve boa parte das características que marcaram sua evolução na reta final do Mundial de 2026. Mesmo depois de sofrer um gol cedo, a equipe não abandonou a proposta, recuperou o controle da partida e criou oportunidades suficientes para sair de campo com a vitória.

O resultado, portanto, não conta toda a história.

Márquez recebeu uma seleção que havia encontrado uma identidade pouco antes de encerrar sua participação na Copa e decidiu preservar essa base. Em vez de começar novamente do zero, o treinador parece ter entendido que o primeiro passo seria descobrir até onde aquela ideia poderia chegar.

É uma diferença importante para o início de um ciclo que terá 2030 como horizonte.

O México encontrou um estilo e Márquez decidiu mantê-lo

Durante anos, uma das principais dificuldades da seleção mexicana foi justamente a falta de regularidade na maneira de jogar. Havia partidas em que a equipe conseguia controlar o adversário e outras em que parecia perder completamente suas referências.

Isso mudou durante a Copa.

Na reta final do Mundial, o México passou a apresentar um futebol mais agressivo, com coragem para construir desde a defesa, velocidade nas combinações entre meio-campo e ataque e uma pressão mais intensa imediatamente depois da perda da bola.

Contra a Colômbia, esses comportamentos permaneceram.

Sete jogadores que começaram os dois jogos eliminatórios da Copa também foram titulares na estreia de Márquez. O número poderia ter sido ainda maior se não fossem os desfalques.

A decisão transmite uma mensagem bastante clara: o novo treinador não pretende transformar a seleção apenas para deixar sua marca. Ele quer aproveitar aquilo que já funciona e acrescentar novas peças dentro dessa estrutura.

Para uma equipe que acabou de sair de uma Copa do Mundo e começa um ciclo de quatro anos, essa continuidade pode ser tão importante quanto qualquer novidade.

A Colômbia marcou primeiro, mas o México não se perdeu

A partida poderia ter tomado outro rumo quando a Colômbia abriu o placar.

Em uma estreia de treinador, sofrer cedo costuma colocar pressão sobre a equipe e aumentar a tentação de abandonar o planejamento inicial. O México, porém, continuou tentando construir desde trás, encontrou espaços entre as linhas e aumentou gradualmente a presença no campo ofensivo.

A reação veio acompanhada de volume.

A equipe mexicana acertou a trave três vezes e criou outras oportunidades para virar o confronto. Em determinados momentos, conseguiu empurrar a Colômbia para perto da própria área e recuperar a bola rapidamente quando perdia a posse.

Não foi uma seleção satisfeita em competir. Foi uma equipe que, depois de sofrer o primeiro golpe, continuou tentando vencer.

O empate de Gilberto Mora confirmou essa superioridade em campo, mas também deixou uma sensação de oportunidade perdida. Diante de uma Colômbia forte e acostumada a disputar partidas desse nível, o México teve condições concretas de conquistar uma vitória que teria dado ainda mais peso à estreia de Márquez.

Faltou eficiência para transformar o desempenho em três pontos.

Gilberto Mora já aparece como o rosto da nova geração

Se a estreia serviu para mostrar a continuidade de uma ideia, também apresentou um nome que pode representar o futuro do México.

Gilberto Mora marcou o gol mexicano e se tornou o jogador mais jovem a balançar as redes pela seleção. O recorde, por si só, já chama atenção, mas a atuação explica melhor por que Márquez decidiu entregar ao jovem uma responsabilidade tão grande.

O treinador utilizou Mora como um verdadeiro camisa 10, dando liberdade para circular pelo último terço e encontrar espaços entre as linhas. Em vez de exigir que o adolescente participasse constantemente da saída de bola dentro do próprio campo, Márquez deixou essa responsabilidade para os jogadores mais recuados.

Mora, então, recebeu a missão de pensar o jogo perto da área adversária. E respondeu bem.

O jovem apareceu em diferentes regiões do setor ofensivo, recebeu de frente para os defensores e mostrou tranquilidade para escolher quando acelerar, quando tocar e quando procurar a jogada mais vertical.

Ainda seria precipitado transformar um jogador tão jovem no responsável pela próxima grande geração mexicana. Mas também seria impossível ignorar o que aconteceu em Baltimore.

Márquez parece ter identificado em Mora um jogador capaz de ocupar o centro de seu projeto ofensivo.

A renovação começa sem abandonar quem já estava funcionando

A presença de Mora também ajuda a explicar a estratégia de Márquez para esse novo ciclo.

O México não precisa escolher entre experiência e juventude. Pode manter uma base que já mostrou competitividade e, ao mesmo tempo, criar espaço para jogadores que terão idade ideal na Copa de 2030. É justamente o que começa a acontecer.

Além de Mora, Jeremy Márquez e Denzell García receberam minutos, enquanto jogadores como Raul Rángel, Johan Vásquez, Erik Lira e Roberto Alvarado continuam exercendo papéis importantes na estrutura.

O objetivo, portanto, não parece ser uma renovação radical. É uma renovação progressiva.

Isso permite que Márquez conheça novos jogadores sem desmontar uma equipe que ainda tem mecanismos claros de funcionamento. Também reduz a necessidade de buscar uma identidade completamente diferente justamente quando o calendário começa a exigir resultados.

O treinador terá tempo para testar, mas não terá quatro anos para simplesmente experimentar sem cobrança. A construção precisa acontecer enquanto a seleção continua competindo.

O próximo desafio será transformar desempenho em resultados

É justamente aí que começa a parte mais complicada do trabalho.

A estreia foi positiva em termos de desempenho, mas um novo ciclo não pode viver apenas de boas impressões. O México terá de transformar esse futebol em vitórias para impedir que a empolgação inicial desapareça.

O próximo compromisso será contra o Peru. Depois, a seleção terá pela frente os Estados Unidos, em um confronto que naturalmente aumentará a pressão sobre Márquez e dará outra dimensão à avaliação do início de seu trabalho.

São partidas que podem ajudar a responder uma questão fundamental: o México realmente encontrou uma identidade sustentável ou apenas repetiu, em uma noite, aquilo que funcionou na Copa?

A resposta não virá de um único resultado.

Mas virá da capacidade de manter os mesmos princípios diante de adversários, contextos e dificuldades diferentes.

O México precisa continuar saindo para jogar, pressionando após a perda e criando superioridade no campo ofensivo. Também precisa aprender a transformar o volume produzido em gols, porque três bolas na trave e várias oportunidades desperdiçadas não garantem pontos.

Márquez terá de aperfeiçoar justamente essa relação entre desempenho e resultado.

A era Márquez começa com uma direção, não com uma ruptura

O empate com a Colômbia pode ser considerado pouco pelo placar, mas oferece uma leitura mais interessante quando o jogo é observado pelo processo.

Márquez não tentou reinventar o México imediatamente. Preservou uma estrutura que havia funcionado na Copa, manteve jogadores importantes, abriu espaço para uma nova geração e entregou a Gilberto Mora liberdade para exercer seu talento.

Isso não garante que o ciclo será bem-sucedido.

Uma identidade precisa sobreviver a adversários diferentes, momentos ruins, lesões, mudanças de elenco e, principalmente, à pressão por resultados. O México ainda terá de provar tudo isso ao longo dos próximos quatro anos.

Mas existe uma vantagem que nem todo treinador encontra ao assumir uma seleção: Márquez parece saber de onde partir. A equipe já demonstrou que consegue competir contra adversários fortes. Agora precisa sustentar esse comportamento e transformá-lo em uma característica permanente.

O primeiro jogo da era Márquez não terminou com a vitória que o México poderia ter conquistado. Terminou, porém, com uma indicação importante sobre o caminho escolhido. O novo treinador não parece querer apagar o que veio antes. Quer fazer o México evoluir a partir daquilo que já começou a funcionar.

E, para uma seleção que inicia um novo ciclo com uma geração jovem surgindo e uma identidade recém-construída, talvez seja justamente essa continuidade que faça a diferença.

Foto: Omar Vega/Getty Images