Na MLB, o momento de ver o seu principal prospecto, aquele que dá mais esperanças de melhores dias para o seu time, é inesquecível. E de uns tempos para cá, os times tem adotado uma tática mais agressiva não só com promoções para as grandes ligas, como assinar contratos sem eles sequer ter atuado no time principal. Por que cada vez mais isso está acontecendo?
O exemplo mais recente é do atual prospecto #1 do beisebol, Konnor Griffin, shortstop do Pittsburgh Pirates. O jogador, escolhido em 2024 na nona escolha geral, e que completará 20 anos no próximo dia 24, assinará com a franquia um contrato de longo prazo. Alguns jornalistas não confirmam duração e valores, podendo variar entre 8 e 9 anos e U$110-140 milhões. Além de Griffin, outro middle infielder, Colt Emerson, do Seattle Mariners, fechou com a franquia por 8 anos e U$95 milhões. Hoje, Emerson está na AAA.
Mais um que se juntou a esse grupo foi o SS Cooper Pratt, do Milwaukee Brewers. Assim como Emerson, nunca jogou além da AA na carreira, mas a franquia de Wisconsin confia no garoto a ponto de dar um contrato de 8 anos e quase U$51 milhões. Para Milwaukee, é o segundo investimento feito antes de um prospecto estrear, sendo o mais recente com o outfielder venezuelano, Jackson Chourio (8 anos, U$82 milhões em 2023).
E por que os times fazem esses acordos com jogadores mesmo que não tenham sido testados a nível MLB? Antes de entrar nos detalhes, tenho que explicar como funciona o sistema para um jogador que vem das ligas menores se tornar um free agent na Major League no futuro.
MLB – Uma prática cada vez mais comum
Ao ter o seu contrato selecionado, o jogador tem o seu controle (ou passe como diriam os mais antigos) vinculado a franquia. Enquanto esse jogador não completar três anos de serviço na MLB, tempo que é definido com o tanto que o jogador esteja fazendo parte do time principal (162 jogos = 1 ano), ele recebe o salário mínimo (~U$780 mil). Ao completar três anos, sai o salário mínimo e entra a arbitration, uma ouvidoria que é acionada caso jogador e franquia não cheguem a um acordo salarial negociado previamente. Ao completar seis anos de serviço, o jogador estará livre no mercado para negociar com outras franquias.
Ou seja, os times tem controle do jogador até certo ponto. Eles os acompanham e analisam para saber se o tal jogador tem atributos que sejam válidos o investimento para “comprar” os seus melhores anos de carreira antes deles irem para o mercado já com um esperado declínio em seu beisebol. Cada vez mais as estatísticas avançadas e scouts ganham espaço nas franquias, em especial aquelas com investimento menor e por essas manobras se mantém competitivas ao máximo.
Assinar com os jogadores ainda jovens, e em especial latinos, faz toda a diferença para manter a janela de competição, e até título, aberta por mais tempo. Um exemplo de time que fez isso e valeu o investimento foi o Atlanta Braves. Pós-Chipper Jones, o time remontou sua base com jovens jogadores latinos, em especial Ronald Acuña Jr e Ozzie Albies. Ambos assinaram seus contratos com pouca bagagem de MLB, e isso se pagou com uma World Series em 2021.
Outra possível vantagem para esses contratos pode vir com o novo acordo trabalhista (CBA), caso seja aprovado um piso mínimo de salário para as equipes da MLB e/ou que os jogadores possam ir ao mercado em um tempo menor comparado aos dias atuais, a franquia já se resguarda para ambas as possibilidades. Ou seja, para ela é muito vantajoso e tem pouco a perder caso o acordo não saia como planejado.
Mas, para todo contrato assinado cedo, tem as suas histórias de casos que não deram frutos. O mais recente sendo do segunda base do Boston Red Sox, Kristian Campbell. Cotado para calouro do ano em 2025 e com um spring training muito forte, jogador e franquia assinaram no começo da temporada um vínculo de 8 anos e U$60 milhões para assegurar o futuro da posição. Em junho do mesmo ano, Campbell foi mandado para a AAA.
Outro exemplo aconteceu com o próprio Seattle Mariners ao assinar com o primeira base Evan White por 6 anos de U$29 milhões em 2019. Nas duas temporadas seguintes, White atuou em 84 jogos com aproveitamento de 16,5% no bastão e apenas 10 Home Runs. Segundo sua página no Baseball Reference, sua última aparição como profissional foi em 2024, quando jogou pela AAA do Los Angeles Angels.
Ou seja, nem sempre os investimentos que os times fazem para extrair o máximo que pode com os seus jogadores antes de ver um arremesso na MLB dão certo. A ciência por trás dessas manobras é justamente evitar perdê-los cedo e desperdiçarem seus melhores anos em outras franquias. Na visão dos jogadores que aceitam contratos menores comparados ao que poderiam receber num futuro hipotético, a garantia financeira pesa mais e nas palavras do outfielder Corbin Carroll, do Arizona Diamondbacks: “Essa estabilidade… tem me provido águas mais tranquilas para navegar”.
Então comecem a se acostumar, pois esse é mais um capítulo do “novo normal”.