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Automobilismo Fórmula 1

Mônaco: Por que ultrapassar no circuito virou quase impossível?

Durante décadas, o Grande Prêmio de Mônaco foi considerado o maior desafio técnico da Fórmula 1. Porém, nos últimos anos, uma reclamação se tornou frequente entre pilotos, equipes e torcedores: ultrapassar nas ruas de Monte Carlo ficou quase impossível.

Embora o circuito nunca tenha sido conhecido por oferecer muitas disputas de posição, diversos fatores modernos contribuíram para tornar as ultrapassagens ainda mais raras. O resultado é que, muitas vezes, a classificação de sábado acaba sendo mais decisiva do que a própria corrida de domingo.

O circuito continua praticamente o mesmo desde os anos 1950

O principal motivo é simples: os carros cresceram, mas a pista não. O traçado de Mônaco foi criado para uma Fórmula 1 completamente diferente da atual. As ruas estreitas do Principado permanecem limitadas pelo espaço urbano, o que impede grandes modificações no desenho do circuito.

Enquanto os carros da década de 1950 tinham pouco mais de 1,60 metro de largura, os modelos atuais se aproximam dos dois metros. Além disso, ficaram muito mais longos, chegando a ultrapassar cinco metros de comprimento.

Em várias partes da pista, especialmente na Loews Hairpin (atualmente Fairmont Hairpin), em Portier e no setor da Piscina, dois carros lado a lado simplesmente não conseguem dividir o espaço de maneira segura. Isso reduz drasticamente as oportunidades de ataque.

A aerodinâmica moderna dificulta ainda mais

Outro fator importante é a turbulência aerodinâmica. Mesmo após as mudanças de regulamento introduzidas pela FIA em 2022 para facilitar perseguições entre carros, Mônaco continua sendo um caso particular. As curvas são lentas e sucessivas, exigindo níveis máximos de pressão aerodinâmica.

Quando um piloto segue muito próximo do adversário, o fluxo de ar é perturbado. Isso reduz a aderência disponível e dificulta manter a mesma velocidade nas curvas.

Na prática, o piloto que tenta atacar frequentemente precisa se afastar um pouco para não perder desempenho, o que acaba inviabilizando a aproximação necessária para uma tentativa de ultrapassagem.

A única zona real de ataque quase nunca é suficiente

Atualmente, a principal oportunidade de ultrapassagem acontece na saída do túnel, rumo à Nouvelle Chicane. É o trecho mais rápido do circuito e onde normalmente o sistema DRS pode ajudar o carro perseguidor a reduzir a diferença para quem está à frente.

O problema é que a reta é curta e a frenagem acontece logo em seguida. Para completar a manobra, o piloto precisa construir uma vantagem significativa antes da freada, algo extremamente difícil em um circuito onde os carros passam quase toda a volta separados por poucos metros.

Por isso, mesmo com DRS, várias corridas recentes registraram pouquíssimas mudanças de posição entre os líderes.

Estratégia e classificação passaram a valer mais que a corrida

Como consequência, a pole position se tornou mais valiosa do que em praticamente qualquer outra etapa do calendário. Nas últimas décadas, a maioria dos vencedores em Mônaco largou na primeira fila. Quando um piloto assume a liderança, muitas vezes consegue controlar o ritmo da corrida sem precisar forçar o carro ao limite.

Isso também explica o aumento das disputas estratégicas. Equipes frequentemente utilizam janelas de pit stop, gerenciamento de pneus e até o ritmo de corrida para tentar ganhar posições que dificilmente conquistariam na pista.

O fenômeno ficou tão evidente que a Fórmula 1 e a FIA discutiram diversas vezes possíveis soluções para aumentar o espetáculo em Monte Carlo. Entre as ideias debatidas estiveram mudanças no formato da corrida, revisões no regulamento de pneus e até alterações no traçado. Até agora, porém, nenhuma medida transformou significativamente a dinâmica das ultrapassagens.

Apesar das críticas, muitos defendem que essa dificuldade faz parte da essência de Mônaco. O desafio não está apenas em ser rápido, mas em executar uma volta perfeita na classificação e passar 78 voltas sem cometer erros a poucos centímetros dos muros.

É justamente essa combinação de precisão, risco e tradição que mantém o GP de Mônaco como uma das provas mais emblemáticas da história da Fórmula 1. Afinal, em nenhum outro circuito do mundo uma posição no grid vale tanto quanto nas estreitas ruas de Monte Carlo.

Foto: (Fórmula 1)