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NFL: Como a volta de Aaron Donald mudaria os Rams

Se Aaron Donald voltar da aposentadoria, os Rams serão o time mais temido da NFL  Há dois anos sem pisar em um campo da NFL, Aaron Donald acendeu a chama da especulação quando disse, no início de junho, que retornar à liga “é uma possibilidade”. A frase curta, quase discreta, foi suficiente para movimentar toda a liga. Afinal, estamos falando do maior defensive tackle da história da NFL, tricampeão do prêmio de Melhor Jogador Defensivo da temporada. E se ele voltar, o Los Angeles Rams pode deixar de ser apenas um candidato ao Super Bowl para se tornar o time mais perigoso que a liga já viu em décadas.

O colapso que mudou tudo

Para entender o tamanho do que está sendo construído em Los Angeles, é preciso olhar para o que deu errado na temporada passada. O Rams foi, por muito tempo, a melhor defesa da NFL em 2025. Nas primeiras 11 semanas, o time liderava a liga em eficiência defensiva. Era dominante, era coesa, parecia pronta para uma corrida ao título.

Então veio o colapso

Nas nove semanas seguintes, o time despencou para o 25o lugar nessa mesma métrica. Foram cinco jogos cedendo 30 ou mais pontos, incluindo dois para o Carolina Panthers, time que terminou a temporada com a 6a pior média de pontos por jogo. Bryce Young, um quarterback que havia passado boa parte do ano sendo questionado, foi 15 de 20 com três touchdowns e zero interceptações contra eles na temporada regular. Amon-Ra St. Brown registrou 13 recepções, 164 jardas e dois touchdowns. Bijan Robinson correu para 229 jardas de scrimmage num embate transmitido em rede nacional. Na final da NFC, Sam Darnold lançou para 346 jardas e três touchdowns, e Jaxon Smith-Njigba desmontou a secundária com 10 recepções e 153 jardas.

O Rams permitiu mais jogos individuais de 130 ou mais jardas recebidas na reta final da temporada do que qualquer outra equipe permitiu em toda uma temporada. O jovem pass rush da equipe não conseguia chegar ao quarterback com consistência, e a secundária simplesmente não tinha respostas para os melhores recebedores da liga.

A resposta da franquia: montar uma super defesa

A diretoria do Rams não ficou parada. A offseason de 2026 foi marcada por movimentos agressivos e sem precedentes. A troca por Trent McDuffie, um dos melhores cornerbacks da NFL, saído do Kansas City Chiefs, foi o primeiro sinal de que Los Angeles estava disposto a pagar qualquer preço para corrigir os erros do passado. Na sequência, veio Myles Garrett, o defensive end que quebrou o recorde de sacks em uma única temporada, com 23 na temporada passada. E agora, potencialmente, Aaron Donald completaria esse trio.

Se Donald assinar, o Rams teria adicionado três defensores de primeiro time All-Pro em uma única offseason, empatando um recorde histórico da NFL. Nunca dois jogadores com múltiplos prêmios de Melhor Jogador Defensivo jogaram juntos no mesmo time. Donald e Garrett seriam pioneiros nesse quesito.

Donald e Garrett – a dupla que redefiniu a NFL

Para quem acompanha o esporte, a ideia de Donald e Garrett no mesmo defensive line é algo que vai além da estratégia. É quase poético. A NFL já foi agraciada com linhas defensivas lendárias como o “Fearsome Foursome” (Rams dos anos 1960), o “Steel Curtain” (Steelers anos 70) e os “Purple People Eaters” (Vikings anos 70). Nenhuma delas chegaria perto das credenciais individuais que essa dupla carrega.

O parâmetro mais próximo do que essa dupla pode fazer está na própria história dos Rams. Em 2021, Donald e Von Miller atuaram juntos após a chegada de Miller em meados da temporada. Os dois combinaram 11,5 sacks na temporada regular e foram simplesmente devastadores no Super Bowl, com quatro sacks sobre Joe Burrow, incluindo a pressão decisiva de Donald que garantiu o título. E esse, segundo as análises, pode ser o piso, não o teto, do que Donald e Garrett fariam juntos. Garrett é mais jovem e mais dominante do que Miller era naquele momento. 

Na temporada passada, a dupla mais produtiva em pressões na NFL foi Will Anderson Jr. e Danielle Hunter, do Houston Texans, com 176 pressões e 27 sacks combinados, o maior número já registrado desde que o PFF começou a coletar esses dados, em 2017. A projeção é que Donald e Garrett possam superar esse patamar, especialmente no segundo semestre da temporada, quando os grandes jogadores costumam se elevar ainda mais.

O uso inteligente de um retorno histórico

Uma das questões mais legítimas em torno do possível retorno de Donald é a física: ele ficou dois anos longe da NFL como jogador. Volta com 32, 33 anos de idade. Como o Rams usaria esse jogador sem o desgastar prematuramente?

A resposta parece estar num modelo de rotação inteligente. Quando Donald se despediu da liga, em 2023, ele já havia ajustado seu papel: jogou apenas 80% dos snaps na temporada regular, mas esteve em campo em 93% dos snaps de terceiro down, as situações de maior impacto. O Rams já possui uma dupla de defensive tackles competente em Kobie Turner e Braden Fiske, o que permitiria integrar Donald de forma gradual, priorizando os momentos decisivos. 

Garrett tem a maior média de sacks por jogo da história da NFL, com 0,94. Donald, entre os tackles, lidera com 0,72. Individualmente, são os maiores nessa métrica em suas respectivas posições. Juntos, forçariam tantas duplas marcações que os outros rushers do Rams, como Byron Young e Turner, teriam oportunidades individuais com muito mais frequência.

O problema que Garrett e Donald resolveriam

Um dado técnico explica muito do sofrimento do Rams no final de 2025. A equipe estava entre as cinco melhores da liga em taxa de pressão sobre o quarterback, sem sequer usar blitzes com frequência. Tecnicamente, isso deveria ser a fórmula perfeita para uma defesa dominante. Gerar pressão sem mandar jogadores extras ao pass rush é exatamente o que os melhores esquemas defensivos buscam.

O problema é que a pressão não se convertia em consequência real. Nas últimas duas temporadas, o Rams converteu pressões em sacks na nona pior taxa da NFL, e ficou em 25º lugar em jardas permitidas por tentativa quando realmente pressionava o quarterback. 

É aqui que a qualidade individual de Donald e Garrett faz diferença. O número não é uma curiosidade estatística: quando a pressão vinha de Donald, o time adversário rendia em média 3,46 jardas por jogada. Com Garrett, esse número cai para impressionantes 2,13. Com Jared Verse, o principal rusher do Rams temporada passada, o número sobe para 4,43. Não é que Verse seja ruim. É que Donald e Garrett são de outro patamar. 

A secundária que fecha o ciclo

Um pass rush de elite precisa de uma cobertura que sustente o tempo necessário para que a pressão chegue. E foi exatamente isso que o Rams buscou com a chegada de Trent McDuffie e Jaylen Watson, ex-companheiros no Kansas City Chiefs.

Em 2025, os Chiefs tiveram a maior taxa de cobertura pressionada da NFL, com 87% de press coverage, justamente com McDuffie e Watson jogando pelas laterais. O Rams ficou em 20o nessa mesma categoria, com 57%. A mudança de cultura defensiva que essa dupla de cornerbacks traz é significativa: menos tempo para os recebedores se separarem, mais pressão sobre o quarterback e mais oportunidades para que Donald, Garrett e o rush encontrem o caminho livre.

Se o Rams de 2026 funcionar como planejado, será um dos times defensivos mais completos e bem montados que a NFL já assistiu. Uma linha de frente com dois dos melhores pass rushers de toda a história, sustentada por uma secundária física e experiente, num esquema que já provou ser capaz de chegar a um Super Bowl. 

Aaron Donald precisaria apenas confirmar o que, por ora, ainda é uma possibilidade. Mas o palco já está montado. E raramente na história do esporte americano um jogador teve uma oportunidade tão bem preparada para um retorno histórico.

Foto: David Crane/Los Angeles Daily