Essa nova temporada da Fórmula 1 vem sendo um dos assuntos mais comentados pelos pilotos da categoria, principalmente por Max Verstappen.
Em fevereiro desse ano, durante os testes no Bahrein, Verstappen fez uma das críticas mais fortes aos novos carros. Ele disse que dirigir os monopostos era principalmente uma questão de gerenciamento, com forte influência da energia e da unidade de potência.
A frase mais forte foi a comparação dos carros com uma “Fórmula E com esteroides”. Segundo ele, muitas das ações do piloto têm um impacto enorme sobre o gerenciamento de energia, algo que considerou pouco representativo da Fórmula 1.
Depois das primeiras corridas, o piloto continuou demonstrando insatisfação com a forma como os carros precisam administrar a energia. Ele chegou a brincar dizendo que havia trocado o simulador pelo Nintendo Switch para treinar no Mario Kart, em uma referência ao quanto considera complexa a nova dinâmica de gerenciamento. A preocupação central é que o piloto possa ganhar tempo em uma curva, mas ser punido na reta seguinte por causa da forma como a energia foi utilizada.
O debate sobre o gerenciamento de energia voltou a dominar os bastidores da Fórmula 1 antes do Grande Prêmio da Hungria. Depois da etapa de Spa-Francorchamps e das fortes críticas feitas por Oscar Piastri, o funcionamento das unidades de potência de 2026 se tornou novamente um dos principais assuntos entre pilotos e equipes.
O foco está principalmente na capacidade de aprendizado dos sistemas que controlam a entrega de energia. Os algoritmos utilizados pelas novas unidades de potência conseguem analisar dados e adaptar seu comportamento com base no que aprendem ao longo do tempo.
Na prática, isso significa que pequenas diferenças na forma como um piloto utiliza o acelerador podem influenciar o gerenciamento de energia em outro momento da volta. O problema é que o mesmo também pode acontecer por causa de fatores que não estão sob o controle do piloto, como mudanças na direção do vento ou nos níveis de aderência da pista.
Piastri classificou como “lixo” o fato de os pilotos poderem ser prejudicados por algoritmos que tomam decisões com base em informações acumuladas anteriormente. O australiano acredita que essa característica pode tornar o desempenho dos carros menos previsível e reduzir a influência direta dos pilotos sobre o resultado.
Verstappen diz que críticas às regras finalmente estão sendo compreendidas
Max Verstappen, que há bastante tempo vem questionando os regulamentos de 2026, afirmou que não pretende criticar as novas regras todas as semanas. Durante o fim de semana na Bélgica, o piloto chegou a dizer que algumas pessoas fora da sala de coletiva poderiam “atirar” nele caso continuasse falando sobre o assunto.
A declaração gerou interpretações de que Verstappen estaria sendo pressionado a evitar críticas à categoria. Na Hungria, porém, o tetracampeão mundial esclareceu que estava apenas brincando. “Não, eu estava brincando sobre isso”, afirmou.
Apesar disso, Verstappen mantém sua visão crítica sobre o novo regulamento. O piloto da Red Bull acredita que suas preocupações não foram levadas a sério quando começou a falar sobre os problemas das regras. “Já expressei minha opinião sobre esses regulamentos há muito tempo. No começo, a maioria das pessoas dizia: ‘ah, ele está reclamando, deveria ficar quieto’. Mas tenho que dizer que, nas últimas corridas, cada vez mais pessoas estão vendo a mesma coisa que eu já conseguia enxergar há muito tempo”, declarou.
O holandês também fez questão de afirmar que suas críticas não estão relacionadas ao fato de ter deixado de vencer com a mesma frequência. “Não é sobre eu não estar mais vencendo. É porque eu me importo com o produto”, explicou.
Tipo de torcedor influencia a percepção sobre as corridas
Para Verstappen, a forma como a Fórmula 1 é percebida também depende do nível de conhecimento do público. Fãs casuais podem olhar para uma corrida e enxergar disputas e ultrapassagens, enquanto aqueles que acompanham mais profundamente os aspectos técnicos podem identificar problemas diferentes.
O piloto afirmou que continua falando sobre suas preocupações porque acredita que algumas consequências das regras atuais já eram previsíveis há anos. “Às vezes as pessoas dizem: ‘sim, mas essa foi uma ótima corrida’. E então eu digo: ‘sim, mas a maneira como estamos correndo não é realmente realista’. Depois você chega a algumas pistas e está guiando com pouca potência para os padrões da Fórmula 1. É um pouco doloroso, algo que eu já conseguia ver há anos”, afirmou.
A crítica de Verstappen está ligada principalmente à forma como o gerenciamento de energia pode alterar a relação tradicional entre velocidade e desempenho. Na visão do piloto, ganhar tempo em uma curva deveria representar uma vantagem direta na volta, mas as regras atuais podem fazer com que esse ganho seja parcialmente perdido na reta seguinte.
Pilotos mais rápidos estão sendo penalizados?
Verstappen acredita que os pilotos mais rápidos do grid estão tendo mais dificuldade para mostrar suas diferenças técnicas. “É basicamente a forma como você usa o acelerador. Às vezes, sendo mais rápido na curva, você perde mais na reta seguinte, o que, obviamente, não deveria acontecer”, explicou.
Para o holandês, essa lógica é diferente do que normalmente ocorre em outras categorias do automobilismo. Em condições tradicionais, um piloto que ganha tempo em uma curva deveria conquistar uma vantagem na volta. “Em qualquer categoria de corrida, se você ganha tempo na curva, isso é tempo de volta de graça. Normalmente, você não seria penalizado na reta. Agora, você realmente precisa pensar: ‘preciso usar uma marcha diferente, uma técnica de frenagem diferente ou uma maneira diferente de voltar ao acelerador’”, afirmou.
Segundo Verstappen, essa característica também ajuda a explicar por que os companheiros de equipe têm aparecido tão próximos em desempenho ao longo da temporada. “É basicamente neutralizar muito tempo de volta. Por isso, acho que, em geral, você vê muitas disputas próximas entre equipes e também entre companheiros, porque às vezes você não pode fazer a diferença. Você não tem permissão para fazer a diferença, porque isso simplesmente vai penalizá-lo na reta seguinte”, disse.
No Hungaroring, circuito próximo a Budapeste, esse problema deve ser menos evidente do que foi em Silverstone e Spa-Francorchamps, já que a pista húngara exige menos energia nas retas. Ainda assim, Verstappen entende que isso não muda completamente o cenário geral criado pelas regras de 2026.
Ultrapassagens ficaram mais artificiais, afirma Verstappen
O piloto também criticou a maneira como algumas ultrapassagens estão acontecendo nesta temporada. Verstappen recebeu o prêmio de ultrapassagem do mês da Fórmula 1 pela manobra sobre Lewis Hamilton na Áustria.
Após a ultrapassagem, quando perguntado no pódio como havia conseguido realizar o movimento, Verstappen respondeu, sorrindo, que havia apertado o botão de potência e, de repente, tinha mais cavalos de potência do que Hamilton.
Segundo o piloto, a resposta resume bem a maneira como algumas ultrapassagens acontecem atualmente. “É muito diferente. Não gosto muito. Às vezes é até engraçado ver as pessoas à sua frente brigando, usando a bateria, e você, sem fazer nada, simplesmente passa. Você passa na reta seguinte literalmente sem fazer nada”, afirmou.
Para Verstappen, esse tipo de situação não representa o que uma ultrapassagem deveria ser. “Não é assim que deveria ser. Além disso, com essas asas abertas em todos os lugares, você reduz muito o arrasto quando está seguindo outro carro. É claro que isso é feito por razões óbvias, mas prefiro pegar o vácuo de alguém e então tentar uma ultrapassagem na freada ou algo assim”, explicou.
O holandês também criticou o fato de algumas ultrapassagens acontecerem no meio das retas, sem que o piloto precise executar uma manobra complexa. “Agora, às vezes a ultrapassagem acontece no meio da reta. É um pouco estranho”, afirmou.
F1 divide opiniões sobre espetáculo e essência das corridas
A crítica de Verstappen resume uma divisão importante em torno da nova geração de carros. Para os torcedores que observam principalmente o número de ultrapassagens, as corridas podem parecer mais movimentadas.
Já para os fãs que acompanham de perto a dinâmica técnica do automobilismo, a forma como essas disputas acontecem pode ser menos satisfatória. “O problema é que os verdadeiros fãs de automobilismo entendem. Os fãs que não acompanham tanto acham legal porque veem mais ultrapassagens. Mas não é real. Não é disso que as corridas deveriam tratar”, concluiu Verstappen.
O debate sobre o gerenciamento de energia, portanto, vai além da tecnologia das unidades de potência. As críticas dos pilotos apontam para uma mudança na forma como o desempenho é construído durante uma volta e na maneira como as ultrapassagens são realizadas.
Enquanto os algoritmos aprendem com os dados e as equipes tentam aperfeiçoar o funcionamento das unidades de potência, pilotos como Verstappen e Piastri continuam questionando até que ponto a tecnologia está ajudando a Fórmula 1 ou retirando dos competidores parte da capacidade de decidir o resultado diretamente na pista.
Foto: (CNN Brasil)



