Nottingham Forest: O modelo caótico que pode levar à glória europeia
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Nottingham Forest: O modelo caótico que pode levar à glória europeia

O Nottingham Forest vive um dos momentos mais fascinantes e contraditórios do futebol inglês atual. Após nove anos de extrema instabilidade, com 13 treinadores, mais de 124 contratações permanentes e mais de 600 milhões de libras gastos, o clube está a um resultado de disputar uma final europeia. 

Sob o comando de Vitor Pereira, o time vive sua melhor fase na temporada exatamente quando mais precisava. A irregularidade crônica, que por muito tempo ameaçou levar o clube ao rebaixamento, agora pode ser o caminho para a glória continental.

A vitória por 3 a 1 contra o Chelsea, com time bastante modificado, simboliza o momento atual. O Forest não só garantiu pontos importantes na Premier League como demonstrou profundidade de elenco e confiança. Pela primeira vez na temporada, o time venceu jogos de forma consistente. 

Nas últimas cinco rodadas da Premier League, foram 13 pontos conquistados, o melhor aproveitamento da competição, com 16 gols marcados, cinco a mais que qualquer outro time no período.

Uma era de loucura controlada por Marinakis

O proprietário Evangelos Marinakis transformou o Nottingham Forest em um verdadeiro laboratório de instabilidade. Quatro treinadores permanentes em uma única temporada é recorde na Premier League. Demitiu Nuno Espírito Santo após o excelente sétimo lugar da temporada anterior, apostou em Ange Postecoglou, depois Sean Dyche, e só encontrou estabilidade com Vitor Pereira em fevereiro.

Essa rotatividade constante, aliada ao alto volume de contratações, seria condenada em quase qualquer outro clube. No Forest, porém, parece funcionar de forma peculiar. O clube flertou com o rebaixamento durante grande parte da temporada, mas agora está seis pontos acima da zona de perigo. A capacidade de Marinakis de insistir em Pereira, mesmo após um início ruim (uma vitória em sete jogos), foi decisiva. A confiança depositada no treinador português, com quem já trabalhou no Olympiakos, rendeu frutos.

Vitor Pereira e a transformação do time

Pereira encontrou um time desorganizado e sem confiança. Nos primeiros 30 jogos, o Nottingham Forest havia marcado apenas 28 gols e sofria com grave subaproveitamento ofensivo. Nas últimas cinco partidas, o ataque explodiu: 16 gols a partir de apenas 6,8 xG, um overperformance de +9,2, o maior da liga nesse recorte.

A defesa também se destaca. O Forest está entre os dez melhores da Premier League em xG concedido (45,6), mostrando solidez mesmo em jogos difíceis. A consistência na escalação foi outro ponto forte: antes da vitória no Stamford Bridge, o time havia feito menos alterações na equipe titular que qualquer outro clube da liga.

Contra o Chelsea, Pereira escalou oito mudanças e mesmo assim dominou. Isso revela duas coisas importantes: a profundidade do elenco (graças aos investimentos de Marinakis) e o espírito coletivo que o treinador conseguiu implantar. Morgan Gibbs-White, mesmo lesionado, é exemplo dessa garra. Pereira chegou a brincar pedindo para ele jogar “sem cabecear”.

A chance real de glória europeia

O Forest está a um empate contra o Aston Villa, em Villa Park, de chegar à final da Europa League, algo inédito desde as conquistas históricas da Champions League (então Copa dos Campeões) em 1979 e 1980. Após vencer o primeiro jogo por 1 a 0 em casa, o time tem moral e um grupo relativamente descansado para o confronto decisivo.

Essa possibilidade coroa um modelo que, teoricamente, não deveria dar certo. Poucos clubes sobreviveriam a tanta rotatividade sem implodir. O Nottingham Forest não só sobrevive como prospera no momento mais importante da temporada. A irregularidade virou força: quando o time acerta, parece imbatível.

É claro que há riscos. A fase atual pode ser uma “purple patch” passageira. Pereira já viveu situação parecida no Wolves, onde salvou o time e depois viu o desempenho cair. No entanto, o atual Forest transmite confiança, intensidade e profundidade que poucos times médios possuem.

Temporada além das expectativas para o Nottingham Forest

Independentemente do desfecho europeu, esta temporada já é um sucesso para o Forest. Garantir a permanência na Premier League pela quarta vez seguida e brigar por um título continental após 36 anos sem troféus grandes é extraordinário. O modelo caótico de Marinakis, com suas decisões impulsivas e investimentos pesados, está perto de entregar algo concreto.

Nottingham Forest prova que, no futebol, nem sempre a consistência tradicional é o único caminho. Às vezes, a loucura controlada, aliada ao timing certo de um treinador como Vitor Pereira, pode levar um clube histórico de volta ao topo. A Europa está perto. E o Forest, mais uma vez, mostra que seu jeito imprevisível pode, sim, terminar em glória.

Foto: UEFA.