Luka Doncic
Basquete NBA

Como novo líder dos Lakers, Luka Doncic tem um desafio primordial: liderar fora das quadras

Luka Doncic já conhece a responsabilidade de ser o principal jogador de uma equipe. Ao longo da carreira, o esloveno esteve no centro de projetos importantes, foi MVP da EuroLeague pelo Real Madrid aos 19 anos e conduziu o Dallas Mavericks às Finais da NBA em 2024. A temporada 2026/27, porém, apresenta um desafio diferente. Pela primeira vez, Doncic entra em um ano no Los Angeles Lakers sem a presença de LeBron James, e a ausência do astro transforma não apenas a hierarquia da equipe, mas também as exigências colocadas sobre o camisa 77.

A mudança ficou evidente nesta semana, quando o técnico JJ Redick se reuniu individualmente com Doncic para conversar sobre liderança. A conversa faz parte de uma rotina que o treinador pretende estabelecer com todos os jogadores, mas ganha significado especial no caso do esloveno. Com LeBron agora no Philadelphia 76ers, o Lakers precisa preencher um vazio que vai muito além da produção estatística. Doncic passa a ser a principal referência técnica, emocional e simbólica de uma franquia que não conquista o título desde 2020.

O desafio, portanto, não está necessariamente em aprender a liderar uma equipe. Isso Doncic já fez. A questão é ampliar a maneira como exerce essa liderança.

Redick reconhece que o esloveno não é naturalmente o jogador mais vocal do vestiário. Sua liderança costuma aparecer principalmente através do desempenho, da capacidade de assumir responsabilidades ofensivas e da maneira como influencia o jogo. O treinador, entretanto, entende que a nova configuração dos Lakers exige uma evolução também fora daquilo que acontece diretamente com a bola.

“Como líder, você sempre pode crescer”, afirmou Redick. Para o técnico, a mesma mentalidade de evolução que Doncic demonstra como jogador também pode ser transferida para sua atuação como líder. O ponto central está em aspectos aparentemente pequenos, como linguagem corporal, reação diante de erros, comportamento em momentos difíceis e comunicação com os companheiros.

Essa cobrança ganha importância porque, em uma equipe como o Lakers, a postura do principal jogador dificilmente fica restrita ao indivíduo. Quando Doncic demonstra frustração, seus companheiros percebem. Quando reage positivamente diante de uma adversidade, o efeito também pode se espalhar pelo grupo. É justamente essa influência que Redick pretende transformar em uma ferramenta mais consciente.

A liderança que Redick espera de Doncic

A nova hierarquia também coloca Austin Reaves ao lado de Doncic como uma das principais referências internas. A dupla é vista pelo treinador como os jogadores que naturalmente serão seguidos pelo restante do elenco. Reaves, que recebeu um contrato de quatro anos e US$ 180 milhões na offseason, tornou-se uma peça ainda mais importante dentro do projeto, enquanto Doncic assume definitivamente o posto de principal rosto da franquia.

Essa transformação não aconteceu apenas dentro da quadra. O esloveno teve participação importante na formação do elenco para a nova temporada e demonstrou uma disposição maior para assumir responsabilidades que anteriormente eram divididas com outras estrelas. A manutenção de Reaves foi um movimento desejado por Doncic, enquanto a chegada de Walker Kessler também representa uma aposta importante para a estrutura do time.

O envolvimento de Doncic com o grupo ficou ainda mais evidente durante a offseason. O jogador bancou um avião particular para levar parte do elenco à Eslovênia, onde organizou um minicamp de quatro dias. Para Redick, esse tipo de iniciativa demonstra uma mudança de comportamento. Não se trata apenas de preparar o próprio corpo ou aperfeiçoar aspectos individuais do jogo, mas de criar uma oportunidade para aproximar os jogadores antes do início da temporada.

É uma diferença importante em relação ao período em que Doncic dividia os Lakers com LeBron. Mesmo durante a temporada e meia em que os dois atuaram juntos, o esloveno já exercia momentos de liderança, como Redick fez questão de lembrar. A diferença é que, agora, não existe mais uma figura acima dele na hierarquia do elenco.

A saída de LeBron deixa um espaço que não pode ser preenchido simplesmente por números. O Lakers perdeu uma referência histórica, um jogador acostumado a comandar equipes e uma personalidade que durante anos concentrou parte da pressão externa. A partir de agora, uma parcela maior dessa responsabilidade inevitavelmente recairá sobre Doncic.

Linguagem corporal e comportamento também entram em jogo

Isso significa que o comportamento do esloveno será observado com uma atenção diferente. Reclamações com a arbitragem, momentos de desatenção defensiva ou reações negativas durante uma partida terão um peso maior porque virão do principal jogador da equipe. Da mesma maneira, esforço defensivo, comunicação e capacidade de manter a estabilidade em momentos complicados podem funcionar como sinais para o restante do elenco.

Esse talvez seja o ponto mais delicado da transformação de Doncic. Seu talento ofensivo nunca esteve em discussão. O esloveno continua sendo um dos jogadores mais completos da NBA com a bola nas mãos, capaz de controlar o ritmo, criar para os companheiros e assumir o ataque em momentos decisivos. O que os Lakers precisam descobrir é como transformar essa influência individual em uma identidade coletiva.

A cobrança também acontece em um momento no qual Doncic possui objetivos pessoais importantes. O jogador ainda busca seu primeiro título da NBA e chega à temporada com a motivação adicional de provar seu valor depois da surpreendente troca que o levou de Dallas para Los Angeles em fevereiro de 2025. Ao mesmo tempo, existe a ambição de se estabelecer definitivamente na discussão pelo posto de melhor jogador da liga.

Essas motivações individuais se encontram com uma necessidade coletiva. O Lakers está há seis anos sem conquistar o campeonato e, para uma franquia com 17 títulos, o período representa uma espera significativa. A pressão por resultados, portanto, não diminuiu com a saída de LeBron. Ela simplesmente mudou de endereço.

Agora, Doncic é quem precisa carregar uma parte maior dessa expectativa.

O próximo capítulo da era Doncic

A história da franquia torna esse processo ainda mais pesado. Antes dele, jogadores como Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar, Magic Johnson, Shaquille O’Neal, Kobe Bryant e LeBron ocuparam o centro de projetos que marcaram diferentes gerações do Lakers. Não se trata de exigir que Doncic reproduza exatamente o comportamento de qualquer um deles, mas de reconhecer o tamanho da posição que ocupa.

O próprio jogador parece compreender essa dimensão. Questionado sobre como se sente sendo o principal responsável pela equipe após a saída de LeBron, Doncic não demonstrou hesitação. Disse que já esteve nessa posição várias vezes durante a carreira e que se sente animado para assumir o desafio.

A declaração combina com o momento vivido pelo Lakers. A franquia não está pedindo que Doncic se transforme em outra pessoa. O objetivo de Redick parece ser fazer com que ele desenvolva uma nova camada de seu próprio jogo e de sua personalidade como líder.

Ser o principal jogador dos Lakers, neste momento, significa mais do que fazer 30 pontos ou distribuir assistências. Significa entender que cada reação pode ser interpretada pelo restante do elenco, que cada esforço defensivo pode estabelecer um padrão e que cada comportamento em um momento adverso pode influenciar a maneira como o grupo responde.

Doncic já mostrou que consegue carregar uma equipe dentro da quadra. Agora, os Lakers querem descobrir se ele também consegue carregar a identidade de um grupo.

A temporada 2026/27 será, nesse sentido, menos sobre a capacidade de Doncic assumir o lugar de LeBron e mais sobre a construção de sua própria era em Los Angeles. A franquia já lhe entregou a responsabilidade. O próximo passo será transformar essa confiança em liderança, dentro e fora das partidas.

(Foto: Getty Images)