Durante mais de uma década, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo foram colocados lado a lado em praticamente tudo. Disputaram o protagonismo do futebol mundial, quebraram recordes, colecionaram títulos e transformaram a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid em um dos capítulos mais marcantes da história do esporte. Agora, quando os dois se aproximam do fim de suas respectivas trajetórias internacionais, a diferença entre eles parece estar justamente na maneira como cada um está lidando com o inevitável.
Enquanto Messi recebeu uma despedida digna de uma lenda da Argentina diante de 85 mil pessoas no Monumental de Buenos Aires, marcou um gol e deixou o campo cercado por companheiros emocionados, Cristiano Ronaldo escolheu outro caminho. Aos 41 anos, o português publicou um texto de quase 2 mil palavras nas redes sociais para explicar sua versão de uma crise com Jorge Jesus, acusando o treinador de ter quebrado sua palavra e cometido uma “quebra absoluta de confiança”.
O contraste não está apenas na personalidade dos dois jogadores. Ele também revela duas maneiras completamente diferentes de lidar com o envelhecimento esportivo, com a perda de protagonismo e, principalmente, com a dificuldade de aceitar que uma carreira construída para durar décadas inevitavelmente chega ao momento em que o jogador já não pode controlar todas as decisões ao seu redor.
Messi entendeu que o fim precisava ser dele
Messi não encerrou sua história com a Argentina porque deixou de ser importante. Pelo contrário. Sua saída acontece justamente depois de uma trajetória em que conseguiu transformar uma relação durante muito tempo marcada por frustrações em uma das histórias mais vitoriosas da história do futebol internacional.
O argentino conquistou uma Copa do Mundo e duas Copas América. Tornou-se o maior artilheiro e o jogador com mais partidas pela seleção. Aos 39 anos, ainda poderia tentar permanecer no elenco e participar de mais alguns jogos, principalmente porque Lionel Scaloni deixou claro que a porta continuaria aberta caso o jogador mudasse de ideia.
Mas Messi parece ter compreendido algo fundamental: continuar sendo convocável não significa necessariamente que continuar seja a melhor decisão. Sua despedida diante da torcida argentina mostrou isso. Houve gol, discurso, lágrimas, agradecimentos e a sensação de encerramento de um capítulo. Messi admitiu que não queria deixar o campo, mas também afirmou estar em paz com a decisão.
Essa palavra talvez seja a mais importante para entender sua saída. Paz.
Depois de tantos anos em que a seleção argentina esteve associada à cobrança, às derrotas e à sensação de que Messi precisava provar alguma coisa, o jogador finalmente conseguiu encerrar sua trajetória internacional sem precisar vencer mais nada.
A Copa do Mundo de 2022 já havia oferecido a consagração que faltava. As duas Copas América também haviam retirado da história de Messi a narrativa de que ele não conseguia conquistar títulos pela Argentina. O que restava era decidir quando parar. E essa decisão parece ter sido tomada antes que o futebol pudesse obrigá-lo a tomá-la.
Ronaldo ainda está tentando controlar o momento da despedida
A situação de Cristiano Ronaldo é completamente diferente. O português também construiu uma carreira pela seleção que dispensa qualquer discussão. São 146 gols em 234 partidas por Portugal, ambos recordes mundiais, além de uma Eurocopa e duas conquistas da Liga das Nações.
Mas a relação atual com a seleção não é mais definida apenas pelo que Ronaldo fez no passado. Aos 41 anos, o problema é que a versão atual do jogador não consegue entregar aquilo que entregava aos 25, 30 ou até 35 anos. Ronaldo perdeu parte da mobilidade, já não possui a mesma capacidade de pressionar e participar de determinadas estruturas sem bola e, em uma seleção que pretende competir no mais alto nível, precisa conviver com a possibilidade de não ser titular.
Foi exatamente isso que aconteceu. Ronaldo ficou no banco sem entrar na vitória de Portugal sobre a Noruega e, posteriormente, descobriu que não seria titular contra a Dinamarca. O jogador então deixou a concentração e, dias depois, publicou uma longa declaração explicando sua versão dos acontecimentos.
O ponto mais significativo do texto não foi a confirmação de que ele não considera ter disputado sua última partida por Portugal. Foi a necessidade de Ronaldo explicar publicamente por que se sentiu traído.
Ele afirmou que Jorge Jesus quebrou sua palavra em duas ocasiões e classificou a situação como uma “quebra absoluta de confiança”. Ao mesmo tempo, reconheceu que deveria assumir as consequências de ter deixado a concentração e pediu que seu comportamento fosse avaliado e punido.
Existe uma contradição interessante nessa postura. Ronaldo reconhece que não agiu corretamente, mas, ao mesmo tempo, faz questão de explicar que sua reação foi consequência de uma decisão que considerou injusta. Isso mostra que a discussão já deixou de ser apenas futebolística.
Portugal precisa decidir qual versão da seleção deseja construir para os próximos anos. E, para fazer isso, precisa responder a uma pergunta desconfortável: Cristiano Ronaldo ainda é um titular indiscutível?
O histórico recente sugere que a resposta é cada vez mais difícil de sustentar. Ronaldo continua sendo um finalizador extraordinário e possui uma capacidade de decidir partidas que poucos jogadores da história tiveram. Mas uma seleção não pode ser construída apenas ao redor da capacidade de um jogador finalizar jogadas.
O futebol atual exige pressão, mobilidade, intensidade e capacidade de participar de diferentes fases do jogo. Se o centroavante não consegue cumprir determinadas funções, o treinador precisa compensar isso em outras áreas.
Aos 41 anos, Ronaldo já não consegue oferecer tudo o que oferecia anteriormente. Isso não significa que não possa ser útil. Significa que seu papel precisa mudar. E talvez seja justamente essa mudança que Ronaldo esteja tendo dificuldade de aceitar.
José Delgado, jornalista português, resumiu essa percepção ao afirmar que Ronaldo não tem mais espaço no melhor onze de Portugal e que “as coisas nunca serão as mesmas novamente”. A opinião pública portuguesa parece caminhar em direção semelhante: segundo as pesquisas citadas no texto, apenas 15% dos portugueses ficaram ao lado de Ronaldo na disputa.
Isso não significa que o país tenha deixado de reconhecer o que ele fez. Pelo contrário. Existe uma compreensão quase unânime de que Ronaldo é uma das maiores figuras da história portuguesa. A questão é que gratidão pelo passado não pode determinar indefinidamente as escolhas do futuro.
A maior diferença entre Messi e Ronaldo está na relação com o legado
Messi também poderia continuar. Scaloni não fechou as portas. O argentino ainda possui qualidade técnica suficiente para contribuir e provavelmente poderia ser convocado durante mais algum tempo. Mas Messi escolheu sair enquanto ainda poderia decidir sair por conta própria.
Ronaldo, ao contrário, está tentando permanecer em um momento em que o treinador já começou a tomar decisões que reduzem sua participação.
Essa diferença altera completamente a narrativa. Messi controla a própria despedida. Ronaldo corre o risco de ter sua despedida controlada pelas circunstâncias. O argentino encerrou a história dizendo que estava grato, orgulhoso e em paz. O português publicou uma longa explicação sobre uma disputa com seu treinador e deixou claro que ainda não considera o capítulo encerrado.
Não existe necessariamente um certo e um errado nessa comparação. Personalidades diferentes produzem respostas diferentes. Messi nunca teve a mesma necessidade de reafirmar publicamente seu protagonismo. Ronaldo construiu boa parte de sua carreira justamente sobre a capacidade de desafiar os limites e provar que ainda era capaz de fazer aquilo que os outros diziam ser impossível.
Essa mentalidade foi fundamental para transformá-lo em um dos maiores jogadores da história. Agora, porém, pode estar se tornando um obstáculo.
A mentalidade que fez Cristiano Ronaldo chegar aos 41 anos ainda buscando gols, recordes e títulos é a mesma que torna tão difícil aceitar que um treinador possa decidir começar uma partida sem ele.
Ronaldo está perseguindo a marca de mil gols. Atualmente, possui 979 entre clubes e seleção. É perfeitamente compreensível que não queira abandonar Portugal antes de atingir esse objetivo.
Mas existe uma diferença entre querer continuar jogando e exigir que a seleção continue funcionando de acordo com aquilo que ele deseja. Portugal não pode construir seu futuro pensando apenas em oferecer a Ronaldo a oportunidade de chegar aos mil gols. A seleção precisa pensar no próximo ciclo, nos jogadores que estão surgindo e na maneira como pretende jogar quando o maior artilheiro de sua história finalmente não estiver mais disponível.
Jorge Jesus pode estar errado na maneira como conduziu a situação. A acusação de quebra de confiança é séria e, se os fatos ocorreram exatamente como Ronaldo descreveu, existe uma responsabilidade do treinador a ser discutida.
Mas mesmo que Jesus tenha administrado mal o episódio, isso não muda a questão fundamental. Ronaldo terá de aceitar que não controla mais sozinho seu papel na seleção.



