Anthony Martial, AEK Athens. Foto: Stefanos Kyriazis/NurPhoto via Getty Images.
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O que deu errado com Anthony Martial? A queda do talento que encantou o Manchester United

Quando Anthony Martial se tornou a contratação surpresa do Manchester United na janela de transferências de 2015, poucos fora da França conheciam profundamente o atacante. Aos 19 anos, porém, o francês já carregava uma expectativa enorme. Contratado por até 58 milhões de libras, Martial se tornou o adolescente mais caro da história do futebol até aquele momento e chegou a Old Trafford cercado de comparações com Thierry Henry.

Mais de uma década depois, o cenário é completamente diferente: aos 30 anos, o atacante está sem clube e vê sua carreira chegar a um momento decisivo. O jogador que parecia destinado a ser uma estrela de primeira prateleira acabou não conseguindo transformar todo o talento apresentado no início da carreira em uma trajetória à altura das expectativas.

Um começo de sonho em Manchester

O Manchester United não economizou para tirar Martial do Monaco. O clube francês não pretendia vender sua principal promessa, mas os ingleses insistiram até chegar a um acordo que começou em 36 milhões de libras e poderia alcançar 58 milhões com bônus. Um deles, inclusive, estava condicionado a Martial conquistar a Bola de Ouro. A dimensão do negócio mostrava o tamanho da aposta feita pelo United, que enxergava no jovem atacante um jogador capaz de se tornar protagonista por muitos anos.

E a resposta veio rapidamente. Em sua estreia, contra o Liverpool, Martial saiu do banco e marcou um golaço em uma jogada individual que reforçou imediatamente as comparações com Henry. Partindo pela esquerda, o francês carregou a bola, passou pela marcação e finalizou com categoria.

Poucos dias depois, marcou duas vezes contra o Southampton e, naquela mesma temporada, ainda decidiu a semifinal da FA Cup contra o Everton nos acréscimos. Ao todo, foram 17 gols em todas as competições e 11 na Premier League em 2015/16. Não eram números extraordinários para um atacante de elite, mas eram mais do que suficientes para indicar que o United poderia ter encontrado seu próximo grande goleador.

O problema é que aquela versão de Martial não conseguiu se manter por muito tempo. A chegada de José Mourinho ao clube, no verão de 2016, mudou a hierarquia do ataque. O português queria jogadores mais experientes para liderar a equipe e o United contratou Zlatan Ibrahimovic.

Martial, que havia recebido a camisa 9 ao chegar a Manchester, perdeu o número para o sueco, decisão que incomodou o jogador e chegou a ser criticada publicamente por seu empresário. Aquele momento simbolizou a perda de espaço do francês, que passou a dividir protagonismo com Ibrahimovic e, posteriormente, com Romelu Lukaku.

Mesmo quando conseguia bons números, Martial raramente tinha a sequência necessária para se consolidar como titular absoluto. Em 2017/18, por exemplo, quase metade de suas 45 aparições aconteceu saindo do banco. A temporada seguinte também foi marcada por altos e baixos, apesar de alguns momentos de destaque. O talento continuava evidente, mas faltava algo fundamental para que ele desse o próximo passo: continuidade.

O melhor Martial apareceu com Solskjaer

Foi com Ole Gunnar Solskjaer que o atacante viveu seu melhor período pelo Manchester United. Depois de atuar predominantemente pela esquerda nos primeiros anos da carreira, Martial passou a ser utilizado como centroavante e encontrou um cenário muito mais favorável para explorar suas características. Com mais liberdade, confiança e sequência, marcou 23 gols na temporada 2019/20 e viveu o melhor momento de sua passagem pelo clube.

Ao lado de Marcus Rashford, formou uma dupla importante em um United que terminou a Premier League na terceira colocação e chegou às semifinais da Europa League e da FA Cup. Pela primeira vez desde sua chegada à Inglaterra, Martial parecia pronto para finalmente confirmar o potencial que havia apresentado ainda adolescente. Só que, novamente, a sequência não veio.

Na temporada seguinte, o francês marcou apenas quatro gols na Premier League. Problemas físicos e uma suspensão de três partidas logo no início da campanha atrapalharam seu ritmo. A partir daquele momento, a questão deixou de ser apenas técnica. Martial continuava tendo qualidade para driblar, acelerar e finalizar, mas cada vez mais encontrava dificuldades para permanecer saudável e ter uma sequência consistente de partidas.

Em entrevista à France Football, o próprio jogador revelou posteriormente que chegou a atuar lesionado durante duas temporadas e que, depois do auge em 2019/20, já não conseguia acelerar da mesma maneira. A velocidade sempre foi uma das principais armas de seu jogo e, sem ela, Martial perdeu parte significativa de seu diferencial. Ao mesmo tempo, a falta de minutos criou um ciclo difícil de interromper: jogava menos, perdia ritmo, rendia menos e, consequentemente, tinha ainda menos oportunidades.

As lesões mudaram o rumo da carreira

O empréstimo ao Sevilla, na temporada 2021/22, deveria representar uma oportunidade para Martial recuperar confiança e voltar a ter protagonismo. O resultado, porém, ficou muito distante do esperado. Foram apenas nove partidas de La Liga e nenhum gol. De volta ao Manchester United, os problemas físicos continuaram e impediram que o atacante tivesse uma sequência significativa nas temporadas seguintes.

Sua última partida pelo clube aconteceu em dezembro de 2023. Seis meses depois, o contrato chegou ao fim e Martial deixou Old Trafford após nove anos.

Os números ajudam a dimensionar a queda: nas duas melhores temporadas pelo Manchester United, 2015/16 e 2019/20, foram 40 gols em 97 partidas. Nos quatro últimos anos, foram apenas 19 gols em 95 jogos. Para um jogador que chegou à Inglaterra tratado como uma das grandes promessas de sua geração, a diferença é significativa.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior frustração envolvendo Martial. Ele não fracassou por falta de talento. Muito pelo contrário. O francês tinha velocidade, técnica, capacidade para atuar pelos lados e qualidade suficiente para jogar como centroavante. Em determinados momentos, mostrou exatamente por que o Manchester United havia investido tanto nele. O problema foi conseguir colocar todas essas características em campo de maneira consistente.

Na mesma entrevista à revista France Football, Martial explicou que precisava de continuidade para atuar em seu melhor nível e que tinha dificuldades quando seu papel mudava constantemente. A chegada de novos atacantes, as alterações de treinador e, principalmente, os problemas físicos fizeram com que ele raramente encontrasse esse cenário ideal. Quando teve sequência, respondeu. Quando as lesões apareceram, todo o processo começava novamente.

Uma promessa que ficou pelo caminho

Quando o ex-jogador Willy Sagnol comparou Martial a Thierry Henry em 2015, também classificou a contratação como uma aposta. E toda aposta, por maior que tenha um potencial, carrega o risco de não funcionar. O francês tinha características para se tornar um dos grandes atacantes de sua geração e, durante alguns períodos, chegou a mostrar isso. No entanto, sua passagem pelo Manchester United acabou marcada muito mais pelo “e se?” do que pelas certezas.

E se tivesse permanecido saudável?; E se tivesse recebido mais sequência?; E se tivesse encontrado um treinador capaz de transformá-lo definitivamente em protagonista?

São perguntas que nunca terão uma resposta concreta. O fato é que, aos 30 anos e sem clube, Martial chega a um momento em que precisa reconstruir sua carreira. A comparação com Henry ficou para trás, assim como a promessa de uma trajetória entre os grandes nomes do futebol europeu.

Agora, Anthony Martial precisa provar algo diferente. Não que possui talento, pois isso ele já mostrou. Precisa provar que ainda consegue colocá-lo em campo de maneira consistente. O jogador que um dia carregou o peso de ser a contratação adolescente mais cara do futebol mundial agora busca uma nova oportunidade para escrever um último grande capítulo de sua carreira.

Créditos da foto de capa: Stefanos Kyriazis/NurPhoto via Getty Images