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Automobilismo Fórmula 1

Os computadores estão tirando o controle dos pilotos? FIA responde às críticas na Fórmula 1

A temporada de 2026 da Fórmula 1 trouxe uma revolução técnica sem precedentes. Com motores que dependem muito mais da energia elétrica do que nas gerações anteriores, pilotos e equipes precisaram mudar completamente a forma de extrair desempenho dos carros. Mas, junto com essa nova tecnologia, surgiu uma polêmica que divide opiniões dentro do paddock: os algoritmos que controlam a entrega de energia da unidade de potência.

Nas últimas semanas, diversos pilotos criticaram o funcionamento desses sistemas, afirmando que, em alguns momentos, o carro parece decidir sozinho quanto de potência entregar. Oscar Piastri foi um dos mais incisivos ao afirmar que “é péssimo” ver classificações sendo influenciadas pelo comportamento dos computadores. Já a FIA reconhece que o problema existe, mas garante que simplesmente proibir esses algoritmos criaria desafios ainda maiores.

Os pilotos perderam parte do controle sobre o carro?

Uma das maiores mudanças introduzidas pelo regulamento de 2026 foi a enorme importância da gestão de energia. Como a parcela elétrica da unidade de potência passou a representar uma fatia muito maior do desempenho do carro, administrar corretamente a bateria tornou-se essencial em praticamente todas as curvas do circuito.

Para isso, as fabricantes desenvolveram sistemas inteligentes capazes de aprender o comportamento do carro ao longo da volta. Esses algoritmos analisam constantemente fatores como nível de carga da bateria, aderência da pista, intensidade do vento e até mesmo a forma como o piloto acelera ou freia. Na prática, isso significa que o software pode alterar automaticamente a estratégia de utilização da energia durante a volta para tentar alcançar o desempenho ideal.

O problema é justamente esse. Segundo os pilotos, nem sempre eles sabem exatamente como o carro irá reagir. Em determinadas situações, dois carros praticamente idênticos podem entregar quantidades diferentes de potência simplesmente porque o sistema interpretou a volta de maneira diferente.

Foi exatamente esse cenário que aconteceu durante a classificação para o GP da Bélgica. Oscar Piastri perdeu muito desempenho nas retas em comparação com Lando Norris, mesmo com a McLaren utilizando configurações praticamente iguais nos dois carros.

Por que a FIA não simplesmente proíbe esses sistemas?

A solução parece simples à primeira vista: retirar toda essa inteligência eletrônica e deixar o piloto controlar manualmente a energia através do volante. Mas, segundo Nikolas Tombazis, diretor de monopostos da FIA, isso acabaria piorando ainda mais o problema.

Se o piloto pudesse decidir sozinho quando utilizar toda a potência elétrica disponível, a tendência seria gastar praticamente toda a carga logo na saída das curvas. O resultado seria uma aceleração extremamente forte nos primeiros metros da reta, seguida por uma perda brusca de potência muito antes do fim dela, justamente o efeito conhecido como clipping, que já é bastante criticado atualmente.

Além disso, existem diversas limitações impostas pelo regulamento para impedir uma escalada tecnológica entre as fabricantes. As regras estabelecem limites rigorosos para a quantidade de energia que pode ser recuperada, utilizada e armazenada durante cada volta. Esses parâmetros existem para evitar que algumas equipes invistam em baterias muito maiores, tornando os carros ainda mais pesados e elevando drasticamente os custos do campeonato.

Segundo Tombazis, controlar todos esses fatores manualmente seria praticamente impossível até mesmo para os melhores pilotos do mundo.

A tecnologia ficou complexa demais?

A Fórmula 1 sempre foi um laboratório de inovação, mas muitos pilotos acreditam que o regulamento atual ultrapassou um limite importante. Max Verstappen foi um dos primeiros a criticar a filosofia dos novos motores ainda antes do início da temporada, chegando a comparar o comportamento dos carros ao da Fórmula E.

Agora, Oscar Piastri levantou uma preocupação diferente: segundo ele, as posições no grid podem acabar sendo definidas pelo funcionamento dos computadores e não apenas pelo talento dos pilotos. Na visão da FIA, essa percepção é compreensível.

A entidade admite que os sistemas ficaram mais complexos do que gostaria, principalmente porque administrar energia passou a ser um dos elementos centrais do desempenho dos carros. Ao mesmo tempo, a federação lembra que boa parte dessas dificuldades nasceu da própria filosofia adotada pelos fabricantes de motores, que defenderam um regulamento muito mais voltado para a eletrificação quando as regras começaram a ser elaboradas, anos atrás.

As mudanças previstas para os próximos anos podem resolver o problema?

A boa notícia é que algumas alterações já estão planejadas. A FIA confirmou que haverá um rebalanceamento gradual entre a potência do motor a combustão e da parte elétrica nas próximas temporadas. A tendência é reduzir a dependência da bateria e devolver parte do protagonismo ao motor térmico.

Na prática, isso significa que a gestão de energia continuará sendo importante, mas deixará de ser tão determinante quanto é atualmente. Segundo Tombazis, essa mudança deve devolver mais controle aos pilotos e reduzir a influência dos algoritmos durante uma volta rápida.

Isso não significa que os sistemas inteligentes desaparecerão completamente. Eles continuarão fazendo parte da Fórmula 1 moderna, mas deverão atuar de forma menos decisiva do que acontece hoje.

O equilíbrio entre tecnologia e talento ainda é o maior desafio

A discussão sobre os algoritmos mostra um dos maiores dilemas da Fórmula 1 atual: até que ponto a tecnologia pode interferir sem diminuir o papel do piloto? Para a FIA, eliminar completamente esses sistemas não é uma solução viável, já que isso poderia criar problemas ainda maiores de desempenho e segurança. Por outro lado, a entidade reconhece que o regulamento de 2026 tornou a gestão eletrônica excessivamente complexa.

Os ajustes previstos para os próximos anos surgem justamente como uma tentativa de encontrar esse equilíbrio. A ideia é preservar a inovação tecnológica, característica histórica da Fórmula 1, mas devolver aos pilotos uma parcela maior do controle sobre o carro.

Até lá, a polêmica deve continuar. Afinal, enquanto alguns enxergam esses algoritmos como uma evolução inevitável da categoria, outros acreditam que a tecnologia está começando a interferir demais naquilo que sempre fez da Fórmula 1 um esporte de pilotos.

Foto: (Reprodução/ Motor Show)