Galarza Paraguai
Copa do Mundo

Paraguai faz história ao eliminar a Alemanha e expõe crise da tetracampeã mundial

A Copa do Mundo de 2026 ganhou sua primeira grande surpresa no mata-mata com a classificação histórica do Paraguai sobre a Alemanha. Após empate por 1 a 1 nos 120 minutos, a seleção sul-americana venceu a disputa por pênaltis e garantiu vaga nas oitavas de final, encerrando uma das marcas mais impressionantes da história dos Mundiais: pela primeira vez, os alemães foram eliminados em uma decisão por penalidades.

O resultado vai muito além de uma simples zebra. A vitória do Paraguai representa o triunfo de uma equipe extremamente organizada taticamente sobre uma seleção recheada de estrelas e reforça um cenário que vem se repetindo desde 2014: a Alemanha já não consegue transformar seu favoritismo em grandes campanhas internacionais.

Enquanto os paraguaios comemoram uma das maiores classificações de sua história, os alemães iniciam mais um período de questionamentos sobre o futuro da seleção, do trabalho da comissão técnica e até mesmo do modelo de formação de jogadores no país.

Orlando Gill lidera atuação histórica do Paraguai

orlando gill Paraguai
Foto: Getty Images

Se existe um nome que ficará eternamente ligado a essa classificação, ele é Orlando Gill.

O goleiro de 26 anos entrou definitivamente para a história do futebol paraguaio ao realizar uma atuação praticamente perfeita diante de uma das seleções mais tradicionais do mundo. Durante os 120 minutos de partida, Gill realizou seis defesas importantes, mantendo o Paraguai vivo mesmo diante da intensa pressão alemã.

Na disputa por pênaltis, sua atuação ficou ainda maior. O arqueiro defendeu duas cobranças e colocou sua equipe muito perto da classificação ainda na quarta série de penalidades.

Embora o Paraguai tenha desperdiçado duas oportunidades para encerrar a disputa, Jonathan Tah acabou isolando sua cobrança, oferecendo uma terceira chance aos sul-americanos. José Canale não desperdiçou e converteu o pênalti decisivo, confirmando uma das maiores zebras desta edição da Copa do Mundo.

Gill, que nunca atuou por clubes fora da  América do Sul e disputava apenas sua décima partida pela seleção principal, tornou-se imediatamente um dos grandes personagens do torneio.

 

A organização defensiva foi o grande diferencial

Mais do que um goleiro inspirado, a classificação do Paraguai foi construída através de uma atuação coletiva extremamente disciplinada.

O técnico Gustavo Alfaro montou sua equipe em um sistema 4-4-2 muito compacto, com linhas baixas e pouca distância entre defesa e meio-campo. O objetivo era claro: impedir que a Alemanha encontrasse espaços pelo centro do campo.

A estratégia funcionou quase perfeitamente.

Durante boa parte do confronto, os alemães controlaram a posse de bola, mas encontraram enormes dificuldades para criar oportunidades realmente perigosas. O Paraguai aceitava que o adversário circulasse a bola pelos lados do campo, mas fechava completamente os corredores centrais.

Além da organização, chamou atenção a inteligência da equipe na marcação. Em vez de apenas defender próxima da própria área, os jogadores alternavam momentos de pressão com rápidas recomposições, mantendo o bloco compacto durante praticamente toda a partida.

O único erro defensivo aconteceu no gol de empate da Alemanha, quando Kai Havertz aproveitou um cruzamento de Florian Wirtz para marcar. Ainda assim, a equipe não perdeu sua organização e continuou fiel ao plano de jogo até o apito final da prorrogação.

Eficiência ofensiva fez a diferença

Mesmo criando poucas oportunidades, o Paraguai mostrou enorme eficiência.

O gol nasceu justamente de uma característica explorada por Gustavo Alfaro: recuperar a bola rapidamente e acelerar os contra-ataques.

Damián Bobadilla iniciou a jogada ao recuperar a posse no campo ofensivo. Miguel Almirón conduziu o ataque antes de encontrar Matías Galarza, que cortou para o meio e serviu Julio Enciso, autor do gol paraguaio.

O lance também evidenciou uma das fragilidades da Alemanha durante toda a competição.

Após perder a bola, a equipe demorou para reorganizar sua defesa, permitindo que Enciso encontrasse espaço entre os zagueiros e finalizasse sem chances para Manuel Neuer.

Bobadilla também simbolizou a recuperação do Paraguai ao longo do torneio.

Depois de marcar um gol contra na estreia diante dos Estados Unidos, o volante recuperou a confiança, ganhou novamente espaço entre os titulares e foi decisivo justamente na jogada que colocou sua seleção em vantagem contra a Alemanha.

Outro destaque foi Matías Galarza.

O meio-campista confirmou seu excelente momento ao participar diretamente de mais um gol importante. Depois de decidir a vitória sobre a Turquia na fase de grupos, desta vez distribuiu a assistência para Enciso e voltou a se destacar também pela intensa participação defensiva.

O VAR aumenta a polêmica da eliminação

Se a atuação defensiva paraguaia foi amplamente elogiada, um dos momentos mais discutidos da partida aconteceu na prorrogação.

Aos 105 minutos, Jonathan Tah marcou de cabeça após cobrança de escanteio executada por Nathaniel Brown. No entanto, o VAR recomendou revisão e o árbitro anulou o gol por entender que Waldemar Anton bloqueou o goleiro Orlando Gill no momento da finalização.

Embora tenha existido contato entre os jogadores, muitos especialistas consideraram a disputa semelhante ao que normalmente acontece em bolas paradas, principalmente na Premier League.

Naturalmente, o lance provocou enorme revolta entre atletas, dirigentes e torcedores alemães, que acreditam que o gol deveria ter sido validado.

Independentemente da interpretação, a decisão passou a integrar a lista dos momentos mais polêmicos desta Copa do Mundo.

Alemanha amplia sequência de frustrações

Alemanha

Se para o Paraguai a classificação representa um dos maiores feitos de sua história, para a Alemanha a eliminação aprofunda uma crise que já dura mais de uma década.

Desde o título conquistado no Brasil, em 2014, os alemães não voltaram a disputar uma grande decisão internacional.

Nas Copas do Mundo seguintes, a equipe caiu ainda na fase de grupos em 2018 e 2022. Agora, em 2026, conseguiu avançar ao mata-mata, mas acabou eliminada logo na primeira fase eliminatória.

O desempenho recente nas Eurocopas também reforça essa queda de rendimento. A seleção foi eliminada nas oitavas de final em 2021 e nas quartas de final em 2024, sempre ficando distante da disputa pelo título.

Diante desse cenário, a federação alemã deverá promover novas discussões sobre o futuro da equipe.

O trabalho do técnico Julian Nagelsmann certamente será analisado, mas os questionamentos vão muito além da comissão técnica. A formação de novos talentos, o desenvolvimento das categorias de base e o papel da Bundesliga na evolução dos jogadores também devem entrar na pauta.

Enquanto a Alemanha tenta entender por que deixou de ser uma potência dominante no futebol mundial, o Paraguai vive um momento completamente oposto. Com uma defesa extremamente organizada, um goleiro em estado de graça e um grupo comprometido taticamente, a seleção sul-americana provou que disciplina, eficiência e confiança podem superar até mesmo uma das camisas mais pesadas da história das Copas do Mundo

(Foto de capa: FIFA)

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Kaique