Automobilismo Fórmula 1

Piastri chega a Abu Dhabi atrás na tabela, mas com histórias que mostram que o impossível já aconteceu

Oscar Piastri desembarca em Abu Dhabi com um cenário que mistura pressão, matemática e a memória recente de duas das reviravoltas mais marcantes da Fórmula 1. O australiano inicia o fim de semana em Yas Marina como terceiro colocado no campeonato, 16 pontos atrás do líder Lando Norris e ainda com Max Verstappen entre ele e o título. A situação é difícil. Mas não inédita.

Piastri lembrou de duas temporadas que viraram referência para quem chega à última corrida como azarão: 2007 e 2010. Em 2007, Kimi Raikkonen apareceu no Brasil atrás de Lewis Hamilton e Fernando Alonso. Precisava vencer e contar com tropeços dos rivais. E conseguiu. Em 2010, Sebastian Vettel chegou a Abu Dhabi em terceiro lugar no campeonato, sem nunca ter liderado a tabela, e saiu campeão. São histórias que mostram que o improvável pode se tornar real quando tudo se encaixa.

Ainda assim, Piastri mantém os pés no chão. Para ele, olhar para o passado serve como leve tranquilidade, não como apoio real para 2024. “É bom lembrar que é possível, mas não me apoio nisso. Dá só um mínimo conforto”, resumiu.

Sua declaração mostra que ele sabe o tamanho da tarefa. Nada garante que a escrita se repetirá, e o contexto atual é mais complexo que o dos anos citados.

As dificuldades encontradas por Piastri

Norris é seu principal obstáculo. O britânico chega à final com vantagem num carro que se comportou de forma consistente nas últimas etapas e que cresceu muito no segundo semestre. Mas o perigo maior pode vir da Red Bull. Verstappen aparece 12 pontos atrás de Norris e precisa vencer e torcer para que o britânico fique fora do top 3 para buscar o quinto título consecutivo. A combinação parece improvável, mas não impossível, especialmente em uma corrida que costuma premiar regularidade e punir erros de execução.

A relação entre os dois pilotos da McLaren, e como a equipe pode gerir a disputa interna, também virou tema da semana. Perguntado se abriria mão das próprias chances caso Norris precisasse de ajuda, Piastri foi direto: não existe conversa sobre isso. E ele não pretende tomar posição até que a equipe diga claramente o que espera.

É um posicionamento pragmático, mas também revelador. Piastri não vê por que se limitar antes da hora. E a McLaren ainda não mostrou sinal de que usará ordens de equipe.

Do outro lado, Norris afirmou que não pretende pedir favores. Ele sabe que um título perdido por interferência da equipe teria um gosto amargo tanto dentro quanto fora dos boxes. A McLaren vive sua melhor fase desde 2012 e não quer lidar com a narrativa de que escolheu um piloto antes da pista tomar a decisão.

Piastri também lidou com outro tema que ganhou corpo nos últimos dias: a comparação com a história de Mark Webber. Seu empresário esteve muito perto do título em 2010, mas viu Vettel virar o jogo na prova final. A presença de Verstappen agora faz o público enxergar paralelos, criando a ideia de que Piastri poderia buscar uma “redenção tardia” para Webber.

Ele, porém, tirou o peso dessa narrativa. Para Piastri, a disputa é pessoal. “Pilotod são egoístas. Fazemos isso por nós. Claro que há muita gente no caminho, mas no fim você começa nesse esporte para vencer por si”, disse.

É uma visão honesta e madura. Carregar a frustração de outro piloto, mesmo sendo seu mentor, não faz sentido para quem tenta construir a própria história.

Afinal, Piastri tem chances?

Analisando o cenário técnico, Piastri enfrenta três dificuldades claras. O primeiro é o mais óbvio: não depende só dele. Mesmo vencendo, precisa torcer para que Norris e Verstappen se atrapalhem.

A McLaren tem sido forte, mas inconsistências surgiram em circuitos de baixa temperatura e pistas de alta sensibilidade aerodinâmica, como Yas Marina. Pequenos ajustes podem alterar o equilíbrio interno do time. Por último, Verstappen não tem nada a perder. Corre livre e costuma render mais sob esse tipo de pressão invertida.

Piastri sabe que corre contra mais do que um déficit numérico. Corre contra duas gerações que já entenderam como trabalhar títulos até o último milímetro do regulamento. Mas também sabe que, em temporadas longas, o desfecho nem sempre segue o roteiro. Raikkonen e Vettel provaram isso. Pilotos que chegaram desacreditados na prova final e saíram campeões porque, quando tudo parecia decidido, surgiram oportunidades inesperadas.

A verdadeira questão não é se Piastri acredita que vai repetir a história. É se ele estará pronto caso ela decida se repetir por conta própria. E nisso ele não demonstra dúvida. Mantém a confiança sem exageros, não descarta nada e não promete mais do que pode cumprir.