Paul Pogba Monaco
Futebol Ligue 1

Em apenas 28 dias, Pogba passa de esperança a problema no Monaco

Vinte e oito dias. Esse é o curto intervalo que separa o simbolismo otimista da “volta por cima” de Paul Pogba e a dura realidade que hoje o coloca à beira de uma rescisão antecipada no Monaco. O prêmio de Comeback of the Year, entregue ao francês no fim de dezembro, já parecia ruim no momento em que foi concedido.

Um mês depois, o troféu soa quase como uma ironia cruel diante de um projeto que se revelou, até agora, um equívoco esportivo, político e simbólico.

Pogba e o prêmio que virou uma piada

Quando Pogba subiu ao palco do Globe Soccer Awards, sua “volta” ao futebol competitivo se resumia a 30 minutos em campo. Não apenas isso: tratava-se de um retorno após uma suspensão por doping, um contexto que por si só já exigiria cautela em qualquer tentativa de reconstrução de imagem.

Ainda assim, o Monaco apostou no peso do nome, na memória do talento e na esperança de que o tempo longe dos gramados pudesse ser superado com um plano físico bem executado. Passadas poucas semanas, esse plano ruiu.

Desde que assinou contrato por dois anos com o clube do Principado, Pogba conviveu com uma sequência implacável de problemas físicos. Lesões na coxa, no tornozelo e na panturrilha impediram qualquer continuidade. A única aparição relevante aconteceu no início de dezembro, na derrota por 1 a 0 para o Brest. Desde então, o meio-campista não voltou a ser opção, transformando sua contratação em um fardo crescente para um clube que já enfrenta turbulências esportivas.

A frustração interna começa a transparecer publicamente. As declarações do CEO Thiago Scuro escancaram um Monaco que perdeu o controle da narrativa. O dirigente admite que o programa de recuperação não funcionou como esperado, que o planejamento é constantemente alterado e que o próprio jogador está “perturbado” com a situação.

Em linguagem institucional, trata-se de um aviso claro: a paciência está se esgotando. A possibilidade de uma conversa no verão europeu sobre o futuro do atleta soa menos como uma revisão natural e mais como o prelúdio de uma ruptura.

O problema do Monaco 

Nesse contexto, Pogba deixa de ser apenas um jogador lesionado e passa a simbolizar a crise mais ampla do Monaco. O clube atravessa uma sequência de resultados negativos na Ligue 1, acumulando derrotas e vendo sua posição na tabela se deteriorar justamente no momento em que deveria consolidar um projeto esportivo mais ambicioso. A pressão cresce, e como quase sempre acontece no futebol, recai com mais força sobre os nomes mais midiáticos.

A ausência de Pogba amplifica essa tensão. Contratado para liderar, para ser referência técnica e emocional em momentos difíceis, o francês assiste de fora a um time em queda livre. Sua incapacidade de ajudar em campo transforma o investimento em alvo fácil para críticas, e sua figura acaba associada às decisões questionáveis da diretoria.

Para Scuro, que já enfrenta desconfiança após um mercado de transferências mal avaliado e a aposta arriscada em Sebastian Pocognoli como treinador, Pogba se tornou o símbolo máximo de um planejamento falho.

Há um ano, o dirigente brasileiro era cogitado para cargos de prestígio em clubes maiores. Hoje, é pressionado em Monaco, com a contratação do campeão mundial sendo apontada como seu maior erro. Essa inversão de status ajuda a entender por que a situação de Pogba ultrapassa o aspecto esportivo: ela é política, institucional e estratégica.

Do ponto de vista do jogador, o cenário é igualmente desolador. Aos 32 anos, Pogba vê desaparecer a última chance real de voltar ao mais alto nível europeu. O sonho de disputar mais uma Copa do Mundo parece definitivamente fora de alcance, não apenas pela falta de ritmo, mas pela incapacidade de se manter saudável. Mesmo que o talento técnico ainda exista, o corpo já não responde às exigências do futebol de elite.

Para onde Pogba pode ir?

Diante disso, o futuro aponta para caminhos menos exigentes, mas ainda financeiramente relevantes. Ligas como a saudita ou a MLS surgem como destinos plausíveis para uma última tentativa de prolongar a carreira. São contextos em que o impacto físico é menor, o calendário é mais permissivo e o peso do nome ainda garante protagonismo. Ainda assim, mesmo essas opções dependem de um mínimo de confiabilidade física, algo que Pogba não consegue demonstrar no momento.

O aspecto mais duro dessa trajetória recente é o contraste entre expectativa e realidade. O prêmio de Comeback of the Year pretendia celebrar resiliência, superação e retorno ao topo. Em vez disso, tornou-se um marcador simbólico de um declínio acelerado. Cada jogo perdido, cada nova lesão e cada ausência prolongada tornam o troféu mais desconectado da realidade.

Pogba dificilmente aceitará encerrar sua carreira dessa forma, como uma promessa não cumprida de retorno. No entanto, o futebol raramente oferece finais românticos para jogadores cujo corpo já não acompanha o talento. No Monaco, a aposta foi feita com base no passado. O presente, porém, insiste em lembrar que legado não basta.

E, 28 dias depois de ser celebrado como símbolo de um renascimento, Pogba se vê diante da possibilidade de que aquele prêmio represente não um recomeço, mas o epílogo de uma carreira que nunca conseguiu se reencontrar plenamente.