leclerc
Automobilismo Fórmula 1

Por que Charles Leclerc está enfrentando dificuldades e como pode voltar à melhor forma?

A sequência difícil de Charles Leclerc continuou no domingo, durante o GP da Áustria, em uma corrida na qual ele caiu da primeira fila do grid para terminar em um distante oitavo lugar. Então, o que está acontecendo com Charles e como ele pode voltar ao seu melhor desempenho?

Talvez existam alguns fatores em jogo. O primeiro deles é o mais evidente: o retorno de Lewis Hamilton à sua melhor forma. Quanto mais vemos Hamilton nesta temporada, mais fica claro que suas atuações iniciais não foram apenas um momento isolado.

Ele parece rápido, consistente e novamente cheio de confiança. Quando você está do outro lado da garagem em relação a um piloto nesse nível, a situação naturalmente se torna mais complicada. Neste momento, o momento positivo dentro da Ferrari está claramente ao lado de Hamilton.

Na minha opinião, a maior diferença entre os dois pilotos da Ferrari até agora está na mentalidade. Durante o fim de semana, Fred Vasseur foi questionado se estava preocupado com a falta de ritmo de Charles em comparação com Lewis. A resposta foi direta: “O ritmo do Charles sempre esteve lá.”

O problema de Leclerc nesta temporada não é velocidade pura. O problema está na execução final e na falta de consistência para transformar esse ritmo em resultados.

Houve vários episódios claros em que Leclerc exagerou na pilotagem. Enquanto Hamilton está se mostrando como um piloto que atualmente extrai o máximo do Ferrari, Leclerc não parece disposto a aceitar as limitações do carro e, por isso, assume riscos na condução que Hamilton simplesmente não assume.

Os erros têm custado resultados importantes

Em Miami, Charles era claramente mais rápido que Lewis. No entanto, sua tentativa desesperada de reagir com pneus já desgastados para defender sua posição diante da ultrapassagem de Oscar Piastri na disputa pelo pódio fez com que ele batesse no muro na última volta, desperdiçando um resultado muito positivo.

Esse episódio resume bastante o momento atual. Enquanto Hamilton parece ter aceitado que a Ferrari não tinha ritmo suficiente para enfrentar a McLaren em Miami, Leclerc decidiu correr um risco maior e acabou atingindo a barreira, precisando completar a prova com o carro danificado.

A mesma postura apareceu em Mônaco. Charles Leclerc talvez tenha sido o piloto mais rápido da classificação naquele fim de semana. Os dados mostram que ele estava um décimo à frente da volta que garantiu a pole position para Kimi Antonelli quando bateu na barreira na curva Tabac.

Mas ser o piloto mais rápido só faz diferença quando é possível completar a volta. Charles estava assumindo riscos que os outros não estavam? Sem dúvida. Ele já havia sofrido uma grande escapada na volta anterior e, em sua última tentativa de conquistar a pole, elevou ainda mais o nível de risco.

O mesmo aconteceu em Barcelona, onde voltou a bater durante o Q3, mesmo tendo sido mais rápido que Hamilton durante boa parte do fim de semana. Entre esses episódios aconteceu talvez a mensagem de rádio mais interessante de Leclerc nesta temporada, durante a classificação em Montreal. “Estamos completamente sem ritmo… No Q3 é ou no muro ou P8.”

Naquele dia foi P8, mas a frase mostra novamente o quanto ele está disposto a assumir riscos para levar a Ferrari além do desempenho que acredita que o carro realmente pode oferecer.

O estilo agressivo de pilotagem tem aumentado as dificuldades

Charles é um talento de uma geração. Desde as categorias de base, tem muito talento e capacidade de fazer coisas impressionantes dentro de um carro, guiando muito pelo instinto e pela sensibilidade. Porém, esse estilo exuberante sempre veio acompanhado de alguns erros ocasionais.

Neste momento, ele parece viver o período mais difícil de sua carreira. Seu excesso de agressividade ao volante tem aparecido com frequência maior do que o normal e, do outro lado da garagem, está um piloto que sabe exatamente como construir campanhas de campeonato, maximizar cada resultado e aumentar ainda mais a pressão sobre o companheiro de equipe. Isso acaba ampliando as dificuldades enfrentadas por Charles.

Leclerc sempre pilotou no limite, mas neste ano a Ferrari apresenta um comportamento bastante instável. O grande ponto forte do carro parece ser uma dianteira muito eficiente combinada com uma traseira que se movimenta bastante.

Normalmente isso favoreceria Charles em relação a Lewis. No entanto, parece que o estilo naturalmente mais agressivo de Leclerc acaba provocando ainda mais essa instabilidade, enquanto a condução mais calma de Hamilton se adapta melhor às características do carro.

Outra consequência desse comportamento da Ferrari é o elevado desgaste dos pneus, principalmente em circuitos nos quais os pneus traseiros sofrem mais. Até agora, poucas corridas tiveram degradação elevada. A maioria foi resolvida com apenas uma parada nos boxes, até chegarem Barcelona e Áustria.

Ferrari precisa recuperar competitividade para ajudar Leclerc

Em Barcelona, Hamilton optou por uma estratégia de três paradas, que acabou lhe rendendo a vitória. Isso fez com que a limitação da Ferrari na gestão dos pneus tivesse impacto muito menor, já que a corrida foi dividida em stints menores. Além disso, Barcelona é um circuito mais equilibrado ou até mesmo mais exigente para os pneus dianteiros.

Já a Áustria representou o cenário perfeito para expor as dificuldades da Ferrari. O carro escorregava mais do que os dos concorrentes, o fim de semana foi marcado por calor intenso e o traçado possui grandes zonas de tração e curvas rápidas, características que aumentam significativamente a temperatura dos pneus traseiros.

Na corrida, praticamente não havia onde esconder esse problema e, mais uma vez, Leclerc acabou pagando um preço elevado. É justamente daí que surgiram muitas das observações de Charles sobre os freios e também algumas mudanças realizadas.

Curiosamente, o melhor desempenho comparativo de Leclerc nesta temporada aconteceu em Miami, um circuito de alta exigência para os freios, antes de ele abandonar. Isso também demonstra a influência crescente de Hamilton dentro da equipe e a pressão que ele passou a exercer.

Não demorará muito para vermos novamente o melhor Charles Leclerc. Porém, neste momento, parece que ele simplesmente precisa manter a concentração, construir alguns fins de semana limpos e consistentes para recuperar sua confiança e sua característica ousadia.

A Áustria foi complicada para a Ferrari, e Silverstone talvez também não seja um circuito muito favorável por causa das longas retas. No entanto, se Leclerc conseguir recuperar o bom momento, uma pista como Budapeste, que aparece logo no calendário, pode representar uma oportunidade muito melhor para vê-lo novamente em sua melhor forma. Afinal, foi lá que conquistou a pole position no ano passado, e a Ferrari desta temporada é um conjunto muito mais competitivo.

Foto: (Scuderia Ferrari)