O roteiro da carreira de Emma Raducanu desde o título improvável no US Open de 2021 tem sido marcado menos por continuidade e mais por interrupções. A mais recente delas, a desistência do WTA 1000 de Roma por conta de uma doença viral, reforça um padrão que já se tornou estrutural na trajetória da britânica: talento evidente, mas constantemente travado por limitações físicas.
A ausência em Roma não é um caso isolado, tampouco um contratempo. Ela chega em um momento crítico da temporada, às vésperas de Roland Garros, e evidencia um problema recorrente: Raducanu não consegue construir ritmo. Desde março, quando atuou em Indian Wells, ela não entra em quadra. Antes disso, já havia desistido do Madrid Open por dores na mão. Ou seja, não se trata apenas de uma doença momentânea, mas de uma sequência de impedimentos físicos que comprometem qualquer tentativa de evolução.
O drama de Emma Raducanu
Esse cenário apenas reforça o histórico recente da jogadora. Após o triunfo em Nova York, Raducanu entrou em um ciclo de lesões que afetaram diferentes partes do corpo: punho, tornozelo, costas e agora questões virais que também impactam sua preparação. Em 2023, por exemplo, passou por cirurgias nos punhos e no tornozelo, o que a afastou por meses do circuito. Desde então, o retorno tem sido difícil, com participações pontuais em torneios e interrupções frequentes.
O impacto disso vai além da simples ausência em torneios. No tênis de alto nível, especialmente no circuito feminino, ritmo é fundamental. Jogadoras conseguem sustentar desempenho porque acumulam partidas, ajustam detalhes em tempo real e constroem confiança progressivamente. Raducanu, por outro lado, vive em um estado de reinício constante. Cada retorno exige readaptação física, técnica e mental.
A ausência de jogos no saibro em 2026 ilustra bem esse problema. Enquanto suas concorrentes já chegam a Roland Garros com quilômetros rodados na superfície, Raducanu pode entrar no torneio sem qualquer partida disputada no piso. Isso não só compromete suas chances competitivas como também aumenta o risco de novas lesões, já que o corpo não passa pelo processo gradual de adaptação exigido pelo calendário.
Há também um componente psicológico difícil de ignorar. O título do US Open criou uma expectativa fora da curva. Raducanu não apenas venceu um Grand Slam, mas o fez sem perder sets e saindo do qualifying, algo praticamente inédito. Esse feito elevou seu status instantaneamente, mas também encurtou etapas naturais de desenvolvimento. Diferente de outras campeãs que chegam ao topo após anos de amadurecimento, ela precisou lidar com pressão e exposição antes de consolidar sua base física e técnica.
Nesse contexto, as lesões funcionam quase como um freio permanente. Cada interrupção impede que ela desenvolva padrões de jogo mais sólidos, refine sua tomada de decisão e encontre consistência contra adversárias do topo. Quando volta, muitas vezes depende mais de talento bruto do que de estrutura tática consolidada.
Ainda dá para ter esperanças em Raducanu?
Ainda assim, há nuances que impedem uma leitura totalmente pessimista. Aos 23 anos, ela ainda tem tempo para reorganizar sua carreira. Casos de atletas que superaram fases prolongadas de lesões não são raros no tênis. A questão é se Raducanu conseguirá construir uma estrutura física mais resistente e, principalmente, um planejamento que priorize continuidade em vez de picos isolados.
O momento atual, porém, indica que o problema está longe de ser resolvido. A desistência de Roma não é apenas uma baixa pontual, mas mais um capítulo de uma narrativa que se repete desde 2021. Enquanto isso, o circuito segue avançando, com novas protagonistas surgindo e consolidando espaço.
No fim, o drama de lesões de Emma Raducanu não é apenas sobre o que ela perde ao ficar fora das quadras, mas sobre o que deixa de construir. Em um esporte onde evolução depende de repetição, adaptação e sequência, a britânica ainda busca algo básico: continuidade. Sem isso, qualquer projeção de retorno ao topo permanece condicionada não ao talento que ela já provou ter, mas à capacidade de finalmente permanecer em quadra.
(Foto: Getty Images)