Shavkat Rakhmonov
Lutas UFC

Shavkat Rakhmonov está de volta; o retorno do invicto pode mudar a disputa pelo cinturão dos meio-médios?

Durante algum tempo, Shavkat Rakhmonov parecia ser o inevitável próximo grande desafiante do peso-meio-médio do UFC. Enquanto Leon Edwards e Belal Muhammad disputavam e defendiam o cinturão, o cazaque avançava silenciosamente pela divisão, acumulando vitórias e construindo uma reputação que fazia dele um dos lutadores mais perigosos da categoria. Quando derrotou Ian Machado Garry no UFC 310, em dezembro de 2024, Rakhmonov chegou a 19 vitórias em 19 lutas profissionais e parecia finalmente estar diante da oportunidade pela qual trabalhava havia anos.

Só que a carreira que parecia caminhar em linha reta para uma disputa pelo título sofreu uma interrupção. Uma lesão no joelho, seguida por uma nova lesão durante a recuperação, tirou o cazaque do octógono justamente quando a divisão dos meio-médios começava a passar por uma transformação. Enquanto Rakhmonov estava afastado, Islam Makhachev subiu de categoria, conquistou o cinturão e encontrou um cenário completamente diferente daquele que o lutador havia deixado.

Agora, porém, existe um sinal de que o “Nomad” pode finalmente estar voltando. Depois de retornar aos treinamentos em maio e começar a fazer sparring em agosto, Rakhmonov publicou uma mensagem que imediatamente chamou a atenção dos fãs: “19-0 vs. 19-0”. A referência parece clara. Existe apenas outro lutador invicto com 19 vitórias na divisão: Michael Morales.

Se a mensagem for realmente uma pista sobre o próximo compromisso de Rakhmonov, o UFC pode estar diante de uma das lutas mais interessantes possíveis para reorganizar a categoria. Mais do que um confronto entre dois invictos, seria um duelo capaz de definir quem realmente merece ser tratado como a próxima grande ameaça ao reinado de Makhachev.

Rakhmonov perdeu tempo, mas não perdeu relevância

O maior problema para Shavkat não foi apenas ficar afastado. Foi observar a divisão mudar enquanto ele não podia fazer nada. Quando Rakhmonov derrotou Machado Garry, o cenário dos meio-médios ainda era construído ao redor de uma disputa entre nomes que já haviam chegado ao topo. O cazaque era visto como o próximo elemento inevitável dessa equação. Seu cartel perfeito, a sequência de finalizações e a maneira como vinha destruindo adversários faziam parecer que a questão era apenas quando ele teria a oportunidade de disputar o cinturão.

A lesão mudou tudo. Enquanto Rakhmonov passava por cirurgia e recuperação, Belal Muhammad perdeu o título para Della Maddalena, que, por sua fez, perdeu para Islam Makhachev. O russo decidiu subir para os meio-médios depois de dominar a divisão dos leves. De repente, o lutador que havia passado anos construindo sua trajetória em 77 kg precisava voltar a conquistar espaço em uma categoria que havia encontrado um novo dono.

Isso é particularmente cruel porque Rakhmonov não perdeu uma luta durante esse período. Ele perdeu tempo. E, no UFC, tempo pode ser quase tão importante quanto uma derrota.

Outros nomes aproveitaram a ausência. Michael Morales continuou vencendo e chegou à marca de 19-0. Carlos Prates se consolidou como uma das maiores ameaças da divisão. A categoria, que já era profunda, ganhou ainda mais alternativas. Rakhmonov agora precisa voltar não apenas para lutar, mas para recuperar a posição que parecia ter garantida.

Michael Morales pode ser o teste perfeito para o retorno

É justamente por isso que a possível luta contra Morales faz tanto sentido. Os dois carregam o mesmo cartel perfeito de 19 vitórias e representam uma geração de meio-médios que cresceu em um momento no qual a divisão passou a exigir muito mais do que uma característica específica. São atletas grandes para a categoria, perigosos em pé, capazes de pressionar e suficientemente completos para não depender de uma única arma.

Morales, aos 27 anos, já mostrou que não pretende simplesmente esperar por uma oportunidade. Sua vitória sobre Sean Brady no UFC 322 foi especialmente importante porque representou a confirmação de que o equatoriano estava pronto para enfrentar nomes relevantes da categoria.

Antes disso, já havia derrotado Gilbert Burns e Neil Magny. Ou seja, suas 19 vitórias não foram construídas exclusivamente contra adversários de pouca expressão. Morales vem acumulando experiências que justificam a posição que alcançou dentro da divisão.

E existe uma diferença importante em relação a Rakhmonov: Morales está em plena ascensão. Enquanto o cazaque tenta retornar depois de um longo período de inatividade, o equatoriano chega embalado por uma sequência de grandes vitórias. Isso criaria uma dinâmica interessante. Rakhmonov teria a experiência e o currículo de quem já esteve muito próximo de uma disputa pelo cinturão, enquanto Morales teria o ritmo competitivo e a sensação de que sua carreira está justamente começando a atingir o ponto mais alto. Seria uma luta em que nenhum dos dois precisaria de muito incentivo para aceitar o risco.

O UFC pode estar procurando o próximo adversário de Makhachev

A possível volta de Rakhmonov também ajuda a explicar o momento da divisão. Makhachev chegou aos meio-médios como campeão dos leves e rapidamente assumiu o topo. A questão agora não é apenas descobrir quem pode disputar o cinturão, mas encontrar um adversário capaz de apresentar um problema realmente diferente para o russo.

Prates aparece naturalmente nessa discussão. O brasileiro construiu uma reputação de nocauteador extremamente perigoso e possui características que podem tornar qualquer luta de alto nível imprevisível. Se ele já tiver feito o suficiente para receber uma oportunidade pelo título, a vitória de Rakhmonov sobre Morales poderia funcionar como uma espécie de eliminatória informal para definir o próximo nome da fila.

Nesse cenário, a divisão poderia ganhar três candidatos importantes.  Prates representa o poder de nocaute e a ameaça de uma luta que pode terminar a qualquer momento. Morales representa juventude, invencibilidade e evolução constante. Rakhmonov representa o lutador que já era considerado por muitos como o principal desafiante antes de a lesão interromper sua trajetória.

São três perfis diferentes tentando resolver o mesmo problema: como derrotar Makhachev.

O maior ponto de interrogação está no joelho de Rakhmonov

Existe, porém, uma questão que nenhuma análise pode ignorar. Rakhmonov não luta desde dezembro de 2024. Mais do que isso, passou por uma cirurgia no joelho e sofreu uma nova lesão durante a própria recuperação. O retorno aos treinamentos e ao sparring é uma notícia extremamente positiva, mas não elimina automaticamente as dúvidas sobre sua condição física.

Para um lutador cujo estilo depende tanto de pressão, movimentação e capacidade de impor ritmo, a condição do joelho é fundamental. Rakhmonov não é um atleta que costuma esperar o adversário cometer um erro. Ele força situações, encurta distância, mistura golpes e luta agarrado quando encontra oportunidade. Tudo isso exige confiança física. O primeiro desafio, portanto, talvez não seja Morales. Pode ser o próprio corpo.

A mensagem publicada nas redes sociais é empolgante, mas uma preparação completa para uma luta de cinco rounds exige muito mais do que conseguir fazer sparring. Rakhmonov precisa provar que consegue treinar consistentemente, atravessar um camp sem novas complicações e chegar ao octógono sem precisar proteger o joelho.

Se conseguir fazer isso, o cenário muda completamente. Porque o Rakhmonov que deixou a divisão ainda é um lutador invicto e extremamente perigoso. O que ninguém sabe é quanto tempo será necessário para reencontrar aquela versão.

Rakhmonov precisa voltar antes que a divisão avance sem ele

Rakhmonov continua invicto, continua sendo um dos lutadores mais talentosos da divisão e continua tendo apenas 31 anos. Não existe motivo para tratá-lo como um atleta ultrapassado ou como alguém que perdeu definitivamente sua oportunidade.

Mas o UFC não espera. A divisão dos meio-médios já encontrou um novo campeão e novos candidatos estão surgindo. Se Rakhmonov conseguir voltar rapidamente, poderá recuperar o espaço que tinha antes da lesão. Se precisar de mais um longo período de adaptação, poderá acabar tendo que reconstruir novamente sua trajetória.

Por isso, uma luta contra Morales seria tão importante. Não seria simplesmente o retorno de um lutador que ficou afastado por quase dois anos. Seria uma tentativa imediata de recolocá-lo no centro da disputa.

E talvez seja exatamente isso que Rakhmonov esteja tentando comunicar com aquela frase. O “19-0 vs. 19-0” pode ser anúncio, provocação ou apenas desejo. Mas, independentemente da intenção, a mensagem recuperou algo que parecia ter desaparecido durante seu longo período afastado: a sensação de que Shavkat Rakhmonov ainda pertence à conversa dos grandes nomes da divisão.

Agora falta descobrir se o corpo permitirá que ele prove isso. Se estiver saudável, o retorno do cazaque pode ser uma das melhores notícias possíveis para os meio-médios. Makhachev ganhou um novo desafio no topo, Morales encontrou uma das maiores ameaças de sua geração e Carlos Prates continua esperando sua oportunidade.

(Foto: Getty Images)