A troca no comando técnico do Real Madrid ainda não trouxe o impacto que muita gente imaginava no Santiago Bernabéu, ocorreram apenas flashes, nada concreta ao ponto de acalmar os ânimos ao redor. A chegada de Álvaro Arbeloa, vendida como um novo começo após a saída de Xabi Alonso, esbarrou em um detalhe que o futebol não perdoa: os números.
Em 12 partidas no comando da equipe merengue, Arbeloa soma quatro derrotas, uma média de uma a cada três jogos. Para efeito de comparação, Xabi Alonso perdeu seis vezes em 24 partidas considerando a Copa do Mundo de Clubes. Se tirarmos o torneio internacional da conta, o ex-treinador acumulou cinco derrotas em 28 jogos desde agosto. Não é uma diferença abissal, mas também não é evolução.
E no Real Madrid, “mais ou menos” costuma ser pouco.
As derrotas da era Xabi vieram contra adversários de peso: Atlético de Madrid, Liverpool, Celta de Vigo, City e Barcelona. Já o Madrid de Arbeloa tropeçou diante de Albacete (na Copa), Benfica (na Champions), além de Osasuna e Getafe na LaLiga.
Não é apenas a quantidade que chama atenção, é o contexto. Perder faz parte do jogo. O problema é quando o time não mostra evolução coletiva, principalmente após uma mudança no comando que prometia corrigir rumos, e essa realidade ficou mais clara do que nunca no último tropeço em casa.
O “sistema Vini” virou regra
Se tem algo que Arbeloa deixou claro desde o início foi sua prioridade no Real Madrid: recuperar Vinicius Junior. O treinador não queria repetir os problemas de gestão que marcaram a reta final de Xabi Alonso e apostou alto no camisa 7.
Funcionou? Em parte, sim.
Vini Jr voltou a jogar com mais confiança, mais explosão e mais protagonismo. Está mais participativo, mais incisivo e decisivo. O brilho individual reapareceu.
Mas aí entra o ponto central: o coletivo não acompanhou.
O Real Madrid praticamente oficializou o chamado “Vinicius sistema”. O próprio treinador deixou claro que quer o time buscando o brasileiro o tempo todo. Resultado? Toda construção ofensiva passa pelos pés dele.
E quando todo mundo já sabe para onde a bola vai, o jogo fica previsível.
O plano anti-Vini já está no manual dos adversários
No duelo contra o Getafe, o roteiro foi didático. José Bordalás montou uma estratégia clara: marcação constante, dobra imediata e cobertura permanente, simplesmente o puro suco do trabalho da equipe, um jeitinho bem argentino de jogar, algo que parece ter causado um impacto direto no camisa 7 do Real Madrid.
Juan Iglesias e Kiko Femenía fizeram o papel de ser a “sombra” do brasileiro, enquanto o sistema defensivo se ajustava para fechar qualquer espaço interno. O resultado foi um Vinicius insistente, mas constantemente cercado.
O Real rodava a bola, mas invariavelmente terminava forçando o um contra um pelo lado esquerdo. Sem alternativas, sem variação de corredor, sem surpresa.
Bordalás foi direto após o jogo ao admitir que a equipe merengue não havia criado tanto perigo assim. E ele não estava errado.
Falta de plano B (ou C) no Real Madrid
O grande desafio de Arbeloa no Real Madrid neste momento é mostrar que existe algo além da dependência de Vinicius, e essa questão tem sido um problema, porque antes era Kylian Mbappé, agora o camisa 7, sem Rodrygo então, a situação tem tudo para ficar mais complicada. Um time campeão não pode se resumir a um único caminho ofensivo.
Falta movimentação interna, falta alternância pelos dois lados, falta infiltração constante pelo meio. Quando o rival fecha o corredor esquerdo, o Real parece travar.
E não é só questão de elenco. É desenho tático.
Se o plano é sempre acelerar pelo mesmo lado, o adversário agradece. O futebol moderno exige múltiplas rotas de ataque. Caso contrário, vira questão de tempo até a defesa ajustar o bloqueio.
Março promete ser decisivo
E como se o cenário já não fosse complicado, o calendário de março chega pesado. O Real Madrid terá uma sequência exigente e, para piorar, não poderá contar com Mbappé.
O francês, principal goleador da equipe, está fora por conta de um entorse no joelho que começou lá em dezembro e não foi tratado com a devida urgência. A situação resume bem a temporada: decisões tardias, problemas acumulados e gestão questionável.
Sem o francês, a tendência é que o “sistema Vini” fique ainda mais intenso. E isso pode ser tanto solução quanto armadilha.
Arbeloa agora encara seu maior teste desde que assumiu o banco do Real Madrid. Mais do que recuperar o moral do elenco, ele precisa apresentar evolução tática visível.
O torcedor entende que mudanças levam tempo. Mas também espera sinais claros de crescimento coletivo. Até agora, o que se vê é um time emocionalmente mais conectado com Vinicius, porém estruturalmente limitado.
A demissão de Xabi Alonso foi uma decisão forte. A promessa era de transformação. Até aqui, o impacto foi mais anímico do que estratégico.
No Real Madrid, a margem para erro é mínima. Se março trouxer resultados negativos, a pressão vai aumentar — e muito.
O “sistema Vinicius” pode até funcionar contra adversários menos organizados. Mas, em jogos grandes, é preciso mais repertório.
Arbeloa ainda tem tempo para ajustar as peças. A pergunta é: o Real Madrid tem paciência?
(Foto: EFE)