enato viu de perto um problema maior do que parecia
Renato Portaluppi voltou ao Grêmio em um momento completamente diferente daquele em que deixou o clube pela última vez. O treinador chega cercado pela identificação com a torcida, pelo peso de sua história e pela expectativa natural de que consiga recuperar rapidamente uma equipe que perdeu o rumo.
Mas o primeiro contato com o novo Grêmio não foi exatamente animador.
Anunciado como substituto de Luís Castro, Renato acompanhou do banco a derrota por 3 a 2 para o Botafogo, em partida atrasada do Campeonato Brasileiro. Sem ainda comandar a equipe, viu o time sofrer três gols, reagir no segundo tempo e até marcar nos acréscimos, mas terminar novamente derrotado.
Foi uma espécie de raio-X antecipado.
Renato não precisou de muitos treinamentos para perceber que o problema do Grêmio não será resolvido apenas com uma mudança de comando. Existe uma equipe que precisa recuperar competitividade, confiança e, principalmente, uma identidade dentro de campo.
E isso não se constrói apenas com discurso.
O Grêmio continua tendo dificuldade para competir
A derrota para o Botafogo expôs novamente uma característica que vem acompanhando o Grêmio durante a temporada: a dificuldade para sustentar uma partida em alto nível.
O time conseguiu reagir e marcou duas vezes, mas passou boa parte do jogo correndo atrás do adversário. O Botafogo abriu vantagem com Danilo e Montoro, chegou ao terceiro gol novamente com Danilo e teve controle suficiente para administrar a reação gremista.
Esse tipo de comportamento é especialmente preocupante para Renato porque não se trata de uma equipe que simplesmente precisa corrigir um ou dois detalhes. O Grêmio precisa competir melhor.
Precisa pressionar melhor, defender melhor, entender quando acelerar e quando controlar. Precisa transformar momentos de superioridade em gols e, principalmente, parar de depender de uma reação desesperada depois que o adversário já construiu vantagem.
Renato conhece esse clube como poucos, mas justamente por isso sabe que a camisa não entra em campo sozinha.
A troca de treinador não pode esconder os problemas do elenco
É natural que a chegada de Renato concentre todas as atenções. O treinador tem história suficiente para se tornar imediatamente o principal personagem do Grêmio, e sua presença pode mudar o ambiente.
Mas existe um risco: transformar sua chegada em uma espécie de solução mágica.
O Grêmio já trocou de treinador diversas vezes nos últimos anos e continua procurando uma identidade. A instabilidade do comando é apenas uma parte de um problema mais amplo, que envolve planejamento, montagem do elenco e capacidade de sustentar um projeto esportivo.
Renato pode melhorar comportamentos, recuperar jogadores e encontrar uma formação mais competitiva. Isso faz parte do trabalho de qualquer treinador. O que ele não pode fazer sozinho é transformar todas as limitações do elenco em virtudes.
Por isso, o primeiro desafio será separar aquilo que é problema de organização daquilo que é simplesmente falta de qualidade ou de opções.
A situação na tabela aumenta a pressão
O Grêmio não tem tempo para uma reconstrução longa.
Após a derrota para o Botafogo, o Tricolor permanece com 28 pontos e muito próximo da zona de rebaixamento. A equipe ocupa a primeira posição fora do Z-4, cenário que transforma praticamente cada rodada em uma partida de pressão.
E há uma contradição importante no momento do clube.
Ao mesmo tempo em que precisa se preocupar com a permanência na Série A, o Grêmio continua vivo na Copa do Brasil. Ou seja, Renato não terá apenas de melhorar o desempenho no Brasileirão, mas também administrar uma temporada que ainda pode oferecer um caminho competitivo no mata-mata.
Isso torna o trabalho ainda mais delicado. Não haverá espaço para testar indefinidamente. O treinador precisará encontrar rapidamente uma equipe minimamente confiável, capaz de pontuar no campeonato e competir nas partidas decisivas.
Renato terá de reconstruir confiança antes de pensar em futebol bonito
A primeira missão de Renato talvez nem seja tática. Antes de escolher sistema, definir titulares ou alterar posicionamentos, ele precisará fazer o Grêmio voltar a acreditar que consegue competir de igual para igual.
Isso parece básico, mas não é.
Um time pressionado pela tabela começa a tomar decisões diferentes. Jogadores evitam riscos, a equipe recua, o erro passa a pesar mais e a confiança diminui. Quando percebe, o Grêmio está novamente tentando sobreviver ao jogo em vez de controlá-lo.
Renato terá de interromper esse ciclo.
Sua experiência pode ajudar justamente nesse ponto. Ele conhece a pressão do clube, conhece a torcida e sabe o que significa comandar o Grêmio em momentos decisivos. Mas experiência não elimina a necessidade de trabalho.
O treinador precisará identificar rapidamente quais jogadores podem responder à nova proposta, quais precisam ser recuperados e onde o elenco simplesmente não oferece soluções suficientes.
O tamanho do problema explica por que Renato não tem motivos para sorrir
A volta de Renato é, por si só, uma notícia capaz de renovar o ambiente no Grêmio. Mas a realidade encontrada pelo treinador é muito mais complicada do que a simples troca de Luís Castro por um ídolo do clube.
O Grêmio está pressionado na tabela, vem de uma sequência de instabilidade no comando e precisa recuperar uma competitividade que não apareceu de maneira consistente ao longo da temporada. Renato terá de trabalhar rápido porque o campeonato não vai esperar que o novo projeto amadureça.
A derrota para o Botafogo serviu como um aviso. Renato não recebeu um time pronto para ser ajustado. Recebeu um time que precisa ser reconstruído em vários aspectos. E talvez essa seja a parte mais difícil de sua quinta passagem pelo clube.
A história dá a Renato crédito. A torcida dá esperança. Mas nenhuma das duas coisas resolve os problemas que ele encontrou. Agora, o trabalho começa justamente onde termina a nostalgia.
Renato voltou ao Grêmio para tentar recuperar um time. Depois do que viu de perto, já sabe que terá de fazer muito mais do que isso.
FOTO: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA/DIVULGAÇÃO



