Liam Lawson está construindo uma das temporadas mais consistentes de sua carreira na Fórmula 1, mas seu futuro na categoria continua cercado de incertezas. Com 83 pontos em 2026, quase o dobro do segundo melhor piloto do pelotão intermediário, Pierre Gasly, o neozelandês tem apresentado resultados que justificariam sua permanência na Racing Bulls. Ainda assim, a equipe ligada à Red Bull pode optar por abrir espaço para Nikola Tsolov em 2027, colocando em discussão uma questão importante: até que ponto faz sentido dispensar um piloto que finalmente encontrou estabilidade e passou a entregar resultados de maneira regular?
A situação de Lawson é particularmente curiosa porque seu desempenho não dependeu de uma passagem bem-sucedida pela equipe principal da Red Bull. Durante as três corridas em que substituiu Isack Hadjar, o neozelandês teve dificuldades para pontuar e não conseguiu demonstrar que estava preparado para competir ao lado de Max Verstappen. Depois de retornar à Racing Bulls, porém, encontrou um ambiente mais favorável e passou a apresentar um rendimento superior ao de seu companheiro de equipe, Arvid Lindblad.
Essa evolução torna sua possível saída ainda mais difícil de justificar do ponto de vista esportivo. Lawson não apenas superou Lindblad nos confrontos diretos, como também acumulou resultados importantes nas últimas etapas. Ao mesmo tempo, a Red Bull precisa decidir se ainda enxerga nele um possível candidato a uma vaga na equipe principal ou se chegou o momento de priorizar a formação de um jovem talento de sua academia.
Lawson encontrou na Racing Bulls a estabilidade que faltou na Red Bull
Os números de Lawson em 2026 mostram uma temporada de recuperação e afirmação. Com 83 pontos, o neozelandês aparece como o principal destaque do pelotão intermediário, com uma vantagem expressiva sobre Gasly, que soma 42. O dado ganha ainda mais relevância quando se considera que sua passagem pela equipe principal da Red Bull não foi responsável por impulsionar essa estatística.
A diferença entre seu rendimento na Racing Bulls e na equipe principal ajuda a explicar a importância do contexto. Lawson marcou, em média, 4,31 pontos por corrida na equipe de Faenza, contra 4,67 durante sua passagem pela Red Bull. Embora o desempenho tenha sido ligeiramente superior na equipe principal, a diferença é pequena e mostra que ele conseguiu produzir resultados semelhantes mesmo depois de enfrentar um ambiente de maior pressão.
O contraste também aparece na comparação com Lindblad. O britânico chegou à Fórmula 1 cercado de expectativas e teve uma temporada de estreia consistente, mas Lawson conseguiu estabelecer uma vantagem clara no confronto direto. O neozelandês lidera por 12 a 6 nas classificações, com uma diferença média de 0,072 segundo, desconsiderando a sessão pouco representativa de Melbourne. Mesmo quando as classificações sprint são retiradas da conta, a vantagem permanece, ainda que menor.
Nas condições de corrida, a diferença é ainda mais interessante: Lawson tem sido, em média, 0,141 segundo mais rápido que o companheiro de equipe. Isso sugere que sua vantagem não está restrita a uma volta rápida, mas também aparece no ritmo ao longo dos GPs, aspecto fundamental para avaliar a consistência de um piloto.
O desempenho recente reforça essa percepção. Nas últimas quatro etapas, Lawson conquistou 24 pontos, superando nomes como Isack Hadjar e George Russell no período. Lindblad, por sua vez, somou apenas um ponto, embora tenha enfrentado circunstâncias desfavoráveis, como uma punição de grid na Malásia e uma colisão com Oscar Piastri no México.
Desde seu retorno à Racing Bulls, Lawson também demonstrou maior regularidade nas classificações. Em um mês de competições, não foi superado em condições representativas e registrou uma vantagem média de 0,257 segundo. É um indicador importante porque mostra que o piloto conseguiu transformar sua recuperação em desempenho consistente, em vez de depender de resultados isolados.
Nikola Tsolov representa o futuro que a Red Bull precisa considerar
Apesar dos números favoráveis a Lawson, sua permanência não depende apenas do que acontece dentro da pista. A Red Bull construiu sua trajetória recente na Fórmula 1 apostando em jovens pilotos e utilizando a Racing Bulls como espaço de desenvolvimento. Nesse contexto, Nikola Tsolov aparece como um candidato natural a uma oportunidade na categoria principal.
O búlgaro de 19 anos vem disputando o título da Fórmula 2 e conquistou seis vitórias nas primeiras 14 corridas da temporada. Embora tenha enfrentado dificuldades nas classificações e não tenha voltado ao lugar mais alto do pódio nas últimas 11 provas, continua próximo da liderança do campeonato, a apenas sete pontos de Rafael Câmara.
A possibilidade de promover Tsolov tem uma lógica esportiva e estratégica. A Red Bull precisa avaliar o potencial de seus jovens talentos e oferecer oportunidades antes que eles percam espaço em outras categorias ou sejam atraídos por projetos concorrentes. A equipe já utilizou esse caminho anteriormente, inclusive com pilotos que passaram pela Super Fórmula antes de chegar à Fórmula 1, como Pierre Gasly e o próprio Lawson.
O problema é que promover um novato significa abrir mão de um piloto que já está entregando resultados. Tsolov pode ter um potencial elevado, mas ainda precisa demonstrar que consegue manter regularidade em classificações e corridas. As seis vitórias mostram sua capacidade de competir em alto nível, porém a sequência sem triunfos também indica que seu desempenho ainda está em desenvolvimento.
A Red Bull terá de escolher entre a segurança de um piloto que conhece a categoria e a possibilidade de apostar em um talento que pode oferecer um retorno maior no futuro. Não existe uma resposta simples, especialmente porque a decisão também depende dos planos para a equipe principal.
O futuro de Lawson depende de uma nova chance na Red Bull
O ponto central da situação é que a permanência de Lawson na Racing Bulls pode depender de uma avaliação sobre seu potencial para voltar à equipe principal. Se a Red Bull ainda acredita que o neozelandês pode se tornar uma opção competitiva ao lado de Verstappen ou de outro piloto que venha a ocupar a vaga, mantê-lo no time de Faenza pode fazer sentido. Nesse cenário, a equipe teria a oportunidade de acompanhar sua evolução sem submetê-lo imediatamente à pressão de uma estrutura que exige resultados de ponta.
Por outro lado, se a direção já concluiu que Lawson não tem condições de retornar a Milton Keynes, sua permanência na Racing Bulls perde parte do sentido estratégico. A equipe poderia preferir utilizar a vaga para desenvolver Tsolov, especialmente se entender que o búlgaro tem potencial para alcançar um nível superior nos próximos anos.
Essa lógica, entretanto, apresenta um risco. Lawson tem demonstrado que pode ser um piloto valioso para a estrutura da Red Bull, mesmo que não esteja pronto para ocupar uma vaga na equipe principal. Sua experiência, capacidade de pontuar e regularidade são características importantes para uma equipe do pelotão intermediário, que precisa aproveitar oportunidades e maximizar o desempenho do carro.
Além disso, a passagem pela Red Bull não deveria ser o único critério para avaliar seu futuro. Lawson recebeu uma oportunidade em um contexto particularmente difícil, ao substituir um piloto em uma equipe que enfrentava problemas de desempenho e exigia resultados imediatos. O fato de não ter conseguido corresponder naquele momento não significa necessariamente que seja incapaz de competir em uma estrutura de ponta no futuro.
O próprio piloto reconhece a dificuldade de lidar com a incerteza. Depois de conquistar mais um resultado importante no México, Lawson voltou a ser questionado sobre a possibilidade de perder sua vaga. Sua resposta demonstrou frustração, mas também deixou claro que sua prioridade continua sendo aproveitar cada oportunidade para provar seu valor.
A Red Bull, portanto, precisa tomar uma decisão que considere não apenas o potencial de Tsolov, mas também o desempenho que Lawson já apresenta. Apostar em jovens talentos faz parte da identidade da estrutura, mas isso não deveria significar ignorar resultados concretos quando eles aparecem.
Lawson ainda precisa provar que pode ser uma opção para a equipe principal, e sua temporada de 2026 não apaga automaticamente as dificuldades anteriores. No entanto, os números e a consistência recente mostram que ele merece ser avaliado por seu desempenho atual, não apenas pelo fracasso de uma passagem de três corridas pela Red Bull.
Se a equipe decidir dispensá-lo para abrir espaço a Tsolov, estará fazendo uma aposta no futuro em detrimento de uma solução que já demonstrou funcionar. A escolha pode ser justificável dentro da estratégia de desenvolvimento da Red Bull, mas também representaria um risco esportivo: perder um piloto que finalmente encontrou seu espaço na Fórmula 1 justamente quando começou a entregar resultados capazes de sustentar sua permanência.



