África República Democrática do Congo
Futebol Copa do Mundo

Após 52 anos, República Democrática do Congo tenta fazer história na Copa do Mundo; confira

Durante décadas, a história da República Democrática do Congo em Copas do Mundo foi lembrada por imagens que o país preferia esquecer.

Em 1974, ainda sob o nome de Zaire, a seleção entrou para a história como a primeira representante da África Subsaariana em um Mundial. O feito parecia marcar o início de uma nova era, mas acabou se transformando em uma campanha traumática que atravessou gerações.

Foram três jogos, três derrotas, nenhum gol marcado e 14 sofridos.

A eliminação ficou marcada especialmente pela derrota por 9 a 0 para a Iugoslávia e por uma cena que entrou para o folclore do futebol mundial.

Contra o Brasil, já perdendo por 2 a 0, o lateral Mwepu Ilunga saiu correndo da barreira antes da cobrança de uma falta e chutou a bola para longe. Durante anos, o lance virou motivo de piada e foi interpretado como desconhecimento das regras.

Décadas depois, o próprio jogador revelou que aquilo foi um protesto.

Segundo Ilunga, os atletas estavam revoltados com pagamentos que não chegaram aos jogadores e teriam sido desviados por dirigentes.

Entre a Copa frustrante e o maior espetáculo do esporte mundial

Curiosamente, poucos meses depois daquele Mundial, o país voltou aos holofotes do esporte por um motivo completamente diferente.

A capital Kinshasa recebeu uma das lutas mais famosas da história: Muhammad Ali contra George Foreman.

O evento ficou eternizado como “Rumble in the Jungle”.

Na época, o presidente Mobutu Sese Seko investiu valores enormes para levar o combate ao país e transformar Zaire em centro das atenções do mundo.

Ali chegou desacreditado diante de Foreman, mas surpreendeu utilizando a famosa estratégia do “rope-a-dope”, absorvendo golpes até desgastar o adversário.

No oitavo round, encerrou a luta e recuperou o cinturão mundial.

Para muitos congoleses, aquele momento representou orgulho nacional em um período de dificuldades econômicas e instabilidade política.

Mas o sentimento durou pouco.

Passado o espetáculo, os problemas internos voltaram a aparecer.

O preço de uma geração esquecida

A campanha de 1974 não terminou apenas com derrotas em campo.

Anos depois, muitos jogadores relataram abandono.

Integrantes daquela seleção afirmaram que retornaram para casa sem receber o que havia sido prometido. Alguns enfrentaram dificuldades financeiras severas.

Pierre Ndaye Mulamba, uma das estrelas daquele elenco, chegou a sofrer um ataque armado em casa anos depois e precisou deixar o país.

Enquanto isso, a República Democrática do Congo atravessava mudanças profundas.

Mobutu deixou o poder em 1997, o nome do país mudou oficialmente e guerras devastadoras marcaram os anos seguintes. Os conflitos entre 1996 e 2003 envolveram diferentes nações africanas e deixaram milhões de vítimas.

Também por isso o futebol ficou em segundo plano durante muito tempo.

Congo Wissa
Foto: Getty Images

52 anos depois, uma nova geração tenta construir outra história

Demorou mais de meio século para o país voltar à Copa do Mundo.

Mas quando retornou, a República Democrática do Congo chegou diferente.

A seleção atual apostou em um modelo já utilizado por outras equipes africanas: fortalecer o elenco com jogadores da diáspora espalhados pela Europa.

Hoje, apenas uma pequena parte do grupo nasceu e atua dentro do Congo.

Mesmo assim, o trabalho do técnico Sébastien Desabre conseguiu criar identidade.

Desde que assumiu em 2022, o treinador apostou em continuidade, estabilidade e fortalecimento coletivo.

Os resultados apareceram.

Congo marcou seu primeiro gol em Copas, conquistou seu primeiro ponto e depois venceu o Uzbequistão para alcançar o mata-mata pela primeira vez.

Congo
Créditos da foto: Getty Images Sport.

Mais do que futebol: uma seleção que carrega o peso de um país

A classificação tem um significado que ultrapassa o campo.

A República Democrática do Congo ainda convive com conflitos no leste do território e enfrentou dificuldades recentes que também impactaram a preparação para o torneio.

Por isso, dentro do elenco existe a percepção de que representar o país vai além do resultado esportivo.

O atacante Yoane Wissa resumiu esse sentimento ao destacar que cada vez que os jogadores entram em campo pensam nas pessoas que seguem enfrentando dificuldades longe dos estádios.

Essa conexão aparece também entre os torcedores, que enxergam na campanha um momento raro de visibilidade internacional para o país.

Agora, o próximo capítulo será diante da Inglaterra.

michel nkuka mboladinga rd congo
Foto: Foto: Siphiwe Sibeko/Reuters

O desafio parece enorme.

Mas para uma seleção que esperou 52 anos para voltar ao palco principal do futebol, já transformou uma página dolorosa da própria história em um novo começo.

E quem sabe, assim como aconteceu em Kinshasa em 1974, o mundo volte a olhar para o Congo — desta vez por um motivo completamente diferente.

Reprodução / Instagram (@fecofadrc)