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Roberto Mancini é o homem para reconstruir uma Itália que perdeu o caminho de volta ao topo?

Roberto Mancini está de volta à seleção italiana. Três anos depois de deixar o cargo que ocupava quando a Itália conquistou a Eurocopa de 2020, o treinador retorna a uma equipe que já não guarda muitas semelhanças com aquela que levantou o troféu em Wembley. O cenário agora é muito mais delicado: a Azzurra acaba de fracassar na tentativa de disputar sua terceira Copa do Mundo consecutiva e atravessa uma crise que deixou de ser apenas esportiva.

A eliminação na repescagem para a Copa de 2026 foi o ponto mais recente de uma trajetória descendente que começou justamente depois do último grande título italiano. A conquista da Eurocopa serviu, durante algum tempo, para esconder problemas que continuavam existindo. O futebol italiano ainda tinha capacidade para montar uma seleção competitiva, mas cada vez menos jogadores italianos apareciam em quantidade suficiente no mais alto nível europeu.

Agora, nem mesmo a ampliação da Copa do Mundo para 48 participantes foi suficiente para colocar a Itália no torneio.

A crise provocou a saída de Gennaro Gattuso, além das renúncias do presidente da Federação Italiana, Gabriele Gravina, e de Gianluigi Buffon, que ocupava o cargo de chefe da delegação. É nesse ambiente que Mancini reaparece. Seu retorno representa uma tentativa de recuperar uma identidade que ele mesmo ajudou a construir, mas também uma aposta em algo diferente daquela primeira passagem: uma renovação profunda do elenco.

O problema é que o técnico não está voltando para uma Itália que precisa apenas de ajustes.

Ele está voltando para uma Itália que precisa descobrir novamente como produzir jogadores, como desenvolver jovens e como competir em alto nível de maneira sustentável.

A Itália não perdeu apenas três Copas. Perdeu uma geração

Existe uma tentação natural de tratar a ausência italiana nas últimas três Copas do Mundo como uma sequência de acidentes. Afinal, a seleção conquistou a Eurocopa entre duas dessas eliminações e continua carregando uma das histórias mais vencedoras do futebol mundial.

Mas a sequência começa a fazer mais sentido quando observada em perspectiva. A Itália não disputa uma fase eliminatória de Copa do Mundo desde 2006, quando conquistou o título na Alemanha. Desde então, venceu apenas uma partida em Mundiais: o 2 a 1 sobre a Inglaterra em 2014. A geração campeã do mundo tinha jogadores como Fabio Cannavaro, Alessandro Nesta, Gennaro Gattuso e Alessandro Del Piero.

Mesmo em 2012, quando a Itália chegou à final da Eurocopa, ainda existia uma ponte com aquela geração através de Gianluigi Buffon, Andrea Pirlo e Daniele De Rossi.

Essa ponte desapareceu. As aposentadorias de Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci simbolizaram o encerramento definitivo de uma geração que durante anos sustentou a seleção. O problema é que a Itália não conseguiu produzir uma sucessão equivalente.

E isso não é apenas uma questão de percepção. Entre 2020 e 2025, o futebol italiano produziu 413 jogadores que atuaram como exportações internacionais, segundo dados do CIES Football Observatory. O número colocou a Itália apenas na 24ª posição mundial e muito atrás das outras grandes ligas europeias. O país também concedeu apenas 1,9% dos minutos da Serie A em 2025 a jogadores elegíveis com menos de 21 anos.

Ou seja: o problema começa muito antes de um jogador vestir a camisa azul.

Mancini precisa fazer uma revolução sem destruir a ponte com o passado

É justamente por isso que a primeira convocação de Mancini em seu retorno é tão significativa. O treinador chamou 34 jogadores para os primeiros compromissos da Nations League e incluiu nove atletas que ainda não haviam recebido uma convocação para a seleção principal. A lista também conta com uma presença importante de jogadores jovens, enquanto nomes mais experientes continuam formando a espinha dorsal da equipe.

Entre as novidades estão Michael Kayode, Honest Ahanor, Issa Doumbia, Alessandro Romano, Sebastiano Esposito, Antonio Vergara e Mohamed Alì Zoma. Samuele Inacio e Ahanor, que já haviam sido observados anteriormente, também permanecem no processo de renovação.

A escolha revela uma mudança de mentalidade. Mancini não está simplesmente tentando encontrar onze jogadores capazes de vencer os próximos adversários. Está tentando descobrir quais jogadores podem formar a Itália dos próximos anos.

Isso explica a presença de atletas como Francesco Pio Esposito, que já vinha ganhando espaço na seleção, e de Samuele Inacio, atacante de apenas 18 anos que atua no Borussia Dortmund.

O processo, entretanto, precisa ser conduzido com cuidado. Uma seleção em reconstrução não pode simplesmente abandonar os jogadores experientes e esperar que uma geração jovem resolva imediatamente seus problemas. Gianluigi Donnarumma, Alessandro Bastoni, Nicolò Barella, Sandro Tonali e outros jogadores já estabelecidos continuam sendo fundamentais para criar uma ponte entre os dois ciclos.

O próprio Donnarumma resumiu esse desafio ao falar sobre a necessidade de combinar jogadores experientes e jovens. A função dos mais velhos, nesse contexto, não é apenas jogar. É também criar as condições para que os novos integrantes consigam sobreviver à pressão de representar a Itália.

A reconstrução precisa, portanto, ser uma transição e não uma ruptura.

O futebol italiano também precisa mudar fora da seleção

Talvez essa seja a parte mais importante do problema. Mancini pode modificar o sistema, trocar jogadores e criar uma nova identidade para a seleção. Mas não pode, sozinho, resolver as dificuldades que levaram o futebol italiano até aqui.

Se os jovens continuam recebendo poucas oportunidades na Serie A, a seleção continuará dependendo de uma produção limitada.

Se os grandes clubes continuam recorrendo predominantemente a jogadores estrangeiros em determinadas posições, haverá menos italianos sendo preparados para o mais alto nível.

E se os mesmos treinadores e as mesmas ideias circulam constantemente pelos principais clubes, o futebol italiano corre o risco de reduzir sua capacidade de produzir novas soluções.

A temporada recente mostrou sinais desse problema. A presença de jogadores veteranos estrangeiros como Kevin De Bruyne, Luka Modric e Jamie Vardy em clubes italianos acrescentou experiência e qualidade à Serie A, mas também evidenciou como o campeonato continua recorrendo a nomes já consolidados para elevar seu nível competitivo.

Ao mesmo tempo, alguns projetos diferentes começaram a aparecer. O trabalho de Cesc Fàbregas no Como mostrou como novas ideias podem alterar rapidamente a estrutura de um clube. A chegada de Ruben Amorim ao Milan também representa uma tentativa de introduzir uma abordagem diferente em um cenário no qual os mesmos nomes e conceitos circularam durante anos entre os grandes clubes.

É nesse ambiente que a seleção precisa encontrar sua própria renovação. Mancini não pode fabricar uma geração. Pode, porém, criar um espaço para que ela apareça.

A Nations League virou o primeiro laboratório

A primeira oportunidade dessa nova Itália chega imediatamente. A Azzurra estreia na Nations League contra a Bélgica em 25 de setembro, enfrenta a Turquia três dias depois e, em seguida, encara a França. O calendário ainda reserva uma nova partida contra os turcos antes do reencontro com a França em novembro e da visita à Bélgica.

Não poderia haver laboratório muito mais exigente. A Itália terá pela frente seleções capazes de testar diferentes aspectos de sua reconstrução. A Bélgica oferece um desafio físico e técnico; a Turquia representa um adversário competitivo em uma sequência curta; e a França coloca a nova Azzurra diante de uma das maiores concentrações de talento do futebol mundial.

Mancini, portanto, não terá muito tempo para experimentar sem consequências. Mas talvez seja exatamente disso que a seleção precise.

Depois de anos em que a prioridade foi sobreviver a ciclos de classificação, a Itália precisa voltar a descobrir jogadores. Precisa testar combinações. Precisa permitir que atletas jovens tenham responsabilidades reais.

A Nations League pode funcionar como esse laboratório. O resultado imediato será importante, mas o indicador mais relevante estará em outro lugar: quais jogadores conseguirão transformar uma convocação em um lugar permanente na seleção?

O retorno de Mancini é uma aposta na memória, mas não pode ser uma volta ao passado

Mancini foi o treinador que devolveu à Itália a sensação de que o país ainda poderia competir com os gigantes europeus. Seu time de 2021 combinava jogadores experientes com uma geração que começava a ganhar protagonismo. A equipe tinha identidade, intensidade e confiança.

Mas tentar simplesmente reproduzir aquela Itália seria um erro. O futebol mudou. O elenco mudou. Os adversários mudaram. A seleção atual não tem um novo Chiellini esperando para aparecer, nem um novo Pirlo pronto para controlar o meio-campo. Tampouco pode depender da ideia de que uma grande competição, por si só, será suficiente para mascarar problemas estruturais.

Mancini precisa fazer algo mais difícil: usar a experiência daquela primeira passagem para construir uma equipe completamente diferente.

E existem sinais de que ele entende isso. “Estou aqui para vencer”, disse o treinador ao retornar a Coverciano, mas também destacou que convocou jovens justamente para conhecê-los e tentar construir, no futuro, uma equipe muito forte.

Essa combinação talvez seja a chave. A Itália não pode esperar uma nova geração de ouro aparecer espontaneamente. Precisa dar minutos a ela, testá-la e criar um ambiente em que jogadores jovens possam evoluir ao lado dos mais experientes.

O retorno de Mancini, nesse sentido, é menos uma tentativa de repetir 2021 do que uma tentativa de recuperar o processo que levou àquele título.

A diferença é que agora existe muito menos margem para esconder os problemas.

A Itália não está apenas tentando voltar a uma Copa do Mundo. Está tentando voltar a ser uma seleção que pertence naturalmente ao mais alto nível.

Para uma tetracampeã mundial, esse deveria ser o ponto de partida.

Mas, depois de três Mundiais consecutivos sem participação, já não basta confiar na história. A história explica o tamanho da camisa. A reconstrução precisa explicar como a Itália voltará a preenchê-la.