Em entrevista, Mirra Andreeva falou que as quadras de Roland Garros estão com “menos saibro”, o que nos diz claramente sobre a situação que o torneio vai estar. Em Paris, onde a identidade do torneio sempre esteve profundamente ligada à lentidão das quadras e à brutalidade física exigida pelo saibro francês, esse ano podemos ter a continuidade de uma tendência que vem acontecendo nos últimos anos.
A fala chama atenção justamente porque sugere uma possível transformação silenciosa no comportamento das quadras de Roland Garros. E, se essa percepção realmente se confirmar ao longo das próximas semanas, o torneio pode apresentar um perfil muito diferente daquele que tradicionalmente definiu o Grand Slam francês.
Menos saibro significa mais velocidade
Existe uma lógica simples por trás dessa análise. Quanto mais pesada e espessa é a camada de saibro, mais lenta tende a ser a quadra. A bola perde velocidade após o quique, sobe mais alta e oferece mais tempo para construção de pontos. Isso favorece trocas longas, defesa consistente e jogadores capazes de suportar desgaste físico extremo.
Quando a superfície aparenta ter “menos saibro”, como foi mencionado, o efeito costuma ser justamente o oposto. A bola atravessa a quadra com mais velocidade, o quique fica mais baixo e o saque ganha importância. O jogo deixa de ser puramente baseado em resistência e passa a exigir respostas mais agressivas, além de maior capacidade de atacar cedo nos pontos. Em outras palavras: o saibro continua existindo, mas começa a absorver características de superfícies mais rápidas. Isso altera completamente a dinâmica do torneio.
Além disso, Mirra Andreeva falou sobre a umidade, o que também é importante porque Roland Garros costuma mudar drasticamente durante a competição. Nas primeiras rodadas, especialmente em dias frios ou chuvosos, as quadras ficam mais pesadas, lentas e “grudadas”. A bola perde velocidade após o contato com o chão, favorecendo jogadores mais pacientes.
No entanto, Paris geralmente esquenta na segunda semana. E é exatamente aí que o torneio pode ganhar outra cara. Conforme o calor seca a umidade da quadra, o saibro fica mais solto e rápido. Historicamente, isso já acontecia. A diferença é que, se a superfície realmente estiver com menos material do que em anos anteriores, essa aceleração pode ser ainda mais perceptível em 2026.
Na prática, isso pode diminuir um pouco a vantagem clássica dos especialistas em saibro ultra defensivos e abrir espaço para tenistas mais agressivos dominarem os pontos mais rapidamente.
Roland Garros vem mudando há alguns anos
Essa possível transformação não surge do nada. Roland Garros já passa por mudanças graduais há algum tempo. A instalação do teto retrátil, as sessões noturnas e até as alterações no tipo de bola utilizado em determinados anos modificaram o comportamento das partidas.
O torneio continua sendo o Grand Slam mais físico do circuito, mas talvez não seja mais aquele saibro extremamente lento que existia nos anos 2000. Isso ajuda a explicar por que jogadores mais ofensivos passaram a ter resultados melhores em Paris recentemente. O tênis moderno também empurrou essa evolução. As raquetes geram mais potência, os atletas são mais explosivos e o esporte, de maneira geral, ficou mais acelerado. Roland Garros parece estar acompanhando essa tendência, mesmo que lentamente.
O aspecto mais interessante dessa discussão é quase cultural. Roland Garros sempre carregou uma aura própria dentro do circuito. Era o torneio da paciência, da resistência e da sobrevivência mental. O lugar onde pontos pareciam intermináveis e onde até grandes sacadores se sentiam desconfortáveis.
Se as quadras realmente estiverem mais rápidas, parte dessa identidade começa a mudar. Não significa necessariamente algo negativo. O torneio pode ganhar partidas mais agressivas, rallies menos previsíveis e maior variedade tática. Mas existe também um certo romantismo em torno do saibro parisiense clássico, aquele que parecia consumir lentamente os jogadores ao longo de cinco sets.
Talvez a maior mudança de Roland Garros não esteja acontecendo nas arquibancadas, nos tetos ou na programação noturna. Talvez ela esteja acontecendo no próprio chão vermelho de Paris. E, no tênis, às vezes alguns grãos de saibro fazem toda a diferença.
(Foto: Divulgação/Roland Garros)