Rony santos
Brasileirão

Santos continua apostando na fórmula do fracasso? Clube vende o futuro e busca soluções no passado

O Santos é um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro quando o assunto é revelar talentos. Ao longo de sua história, o clube produziu jogadores como Pelé, Neymar, Rodrygo, Gabigol e muitos outros atletas que geraram retorno esportivo e financeiro. Porém, nos últimos anos, uma discussão tem ganhado força entre torcedores e analistas: o clube estaria abrindo mão do futuro para investir em jogadores que já passaram pelo auge de suas carreiras?

A pergunta voltou ao debate após a venda de Souza para o Tottenham e a possível negociação de Bontempo com o Chelsea. Os dois jovens são vistos como alguns dos ativos mais promissores das categorias de base santistas e representam exatamente o tipo de jogador que o mercado europeu busca cada vez mais cedo.

Ao mesmo tempo, o Santos monitora ou demonstra interesse em atletas como Keylor Navas, Paul Pogba, Gustavo Scarpa, Gastón Lodico, Arboleda, Ayrton Lucas, Erick Pulgar, Luiz Araújo, Everton Cebolinha e Insaurralde. Embora muitos desses jogadores tenham qualidade comprovada, a maioria já ultrapassou a fase de maior valorização da carreira e dificilmente representaria uma futura venda milionária.

O contraste entre esses dois movimentos ajuda a explicar por que parte da torcida questiona demais a direção esportiva do clube.

A base continua sendo o principal patrimônio do Santos

Bontempo - Brasilelirão
Créditos da foto: Raul Baretta / Santos.

Historicamente, o maior diferencial do Santos nunca foi o poder financeiro. Enquanto outros clubes brasileiros se apoiavam em grandes investimentos, o Santos construiu sua identidade através da formação de jogadores.

Essa estratégia permitiu ao clube revelar gerações inteiras de talentos e equilibrar suas finanças através de vendas importantes.

Agora, a história parece se repetir com Souza e Bontempo.

Souza chamou atenção do Tottenham, um dos principais clubes da Premier League, enquanto Bontempo desperta interesse do Chelsea, conhecido por investir pesado em jovens promessas ao redor do mundo. O interesse de clubes desse porte não acontece por acaso. Ambos são vistos como atletas com potencial de desenvolvimento e valorização futura.

O problema para muitos torcedores é que essas saídas acontecem em um momento em que o Santos ainda busca reconstruir sua identidade esportiva. Quando os jovens deixam o clube cedo demais, o retorno financeiro pode até ajudar momentaneamente, mas a equipe perde a oportunidade de colher resultados técnicos dentro de campo.

Enquanto isso, o clube parece seguir um caminho oposto no mercado de contratações.

O Santos continua apostando em jogadores que já viveram seus melhores momentos

Zé Rafael Santos
Foto: Theo Daolio/Ekobanpress/Gazeta Press

O debate não existe porque o Santos contrata atletas experientes. Diversos clubes do mundo fazem isso com sucesso.

A questão está na frequência com que o clube recorre a esse perfil de jogador e nos resultados obtidos.

Luan Peres é um exemplo interessante. O defensor teve uma boa passagem anterior pelo Santos e retornou cercado de expectativa. Porém, não conseguiu repetir o mesmo nível de desempenho que apresentou em sua primeira experiência no clube.

Mayke chegou com um currículo extremamente vencedor construído no Palmeiras. Multicampeão e acostumado a decisões importantes, parecia uma contratação segura. Na prática, o rendimento ficou abaixo do esperado.

Zé Rafael vive situação parecida. Durante anos foi um dos principais meio-campistas do futebol brasileiro e peça fundamental em uma das fases mais vitoriosas da história do Palmeiras. No Santos, entretanto, os problemas físicos impediram uma sequência de jogos que justificasse toda a expectativa criada em sua contratação.

Rony talvez seja o caso que mais simboliza essa estratégia. O atacante foi decisivo em títulos importantes do Palmeiras, incluindo campanhas marcantes na Libertadores. No entanto, não conseguiu reproduzir o mesmo impacto ofensivo vestindo a camisa santista.

Esses exemplos reforçam a percepção de que trazer jogadores pelo que fizeram no passado nem sempre garante resultados positivos no presente.

Nem todas as apostas deram errado

Gabigol Brasileirão
Foto: Rafael Oliva/Itatiaia

Apesar das críticas, seria injusto afirmar que todas as contratações desse perfil fracassaram.

Gabigol é o principal contraexemplo.

O atacante chegou ao Santos cercado de dúvidas, mas respondeu dentro de campo. Em 27 partidas na temporada, soma 14 gols e 6 assistências, números que o colocam entre os principais jogadores da equipe.

Lucas Veríssimo também pode ser considerado um acerto. Embora a defesa santista continue recebendo críticas, o retorno do zagueiro elevou o nível do setor e trouxe mais estabilidade ao sistema defensivo.

William Arão é outro caso positivo. Mesmo convivendo com alguns problemas físicos, o volante se tornou uma das peças mais importantes do meio-campo e exerce papel fundamental na organização da equipe.

Esses exemplos mostram que jogadores experientes podem sim agregar qualidade. O problema é quando essa estratégia se transforma na principal política de mercado do clube.

A lembrança de Tiquinho Soares ajuda a ilustrar o risco envolvido nesse modelo. O atacante chegou com grande reputação após temporadas de destaque, mas acabou não se tornando uma solução duradoura para o projeto esportivo santista.

Por isso, o debate atual vai além de nomes específicos.

A questão central é entender qual direção o Santos deseja seguir nos próximos anos. De um lado estão jogadores como Souza e Bontempo, que representam potencial esportivo e financeiro para o futuro. Do outro, atletas experientes que podem entregar resultados imediatos, mas que dificilmente gerarão valorização ou retorno econômico a longo prazo.

Enquanto clubes ao redor do mundo investem cada vez mais em juventude, desenvolvimento e ativos com potencial de crescimento, o Santos parece continuar dividido entre construir o futuro ou tentar recuperar o passado.

E essa dúvida talvez seja o maior desafio do clube neste momento de reconstrução.

(Foto de capa: Divulgação/ Santos FC)

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Kaique