O Santos saiu de São Januário com muito mais do que uma vitória por 3 a 0 sobre o Vasco. Em um confronto direto contra o rebaixamento, o Peixe mostrou força, eficiência e, principalmente, uma versão mais funcional de seus principais jogadores. Gabigol foi decisivo com um gol, Neymar participou diretamente dos outros dois e o time conseguiu transformar uma atuação que começou complicada em uma goleada importante no Brasileirão.
O resultado colocou o Santos na 14ª posição, com 25 pontos, quatro acima do Vasco, que permaneceu na zona de rebaixamento. Mais importante do que a tabela, porém, foi a maneira como o time respondeu a um cenário que poderia ter sido bastante complicado. O Vasco dominou boa parte do primeiro tempo, finalizou mais e chegou a acertar a trave, mas o Santos soube sobreviver e foi extremamente eficiente depois do intervalo.
E aí apareceu um detalhe que merece atenção: Gabigol não foi apenas o atacante esperando a bola chegar.
Gabigol mostrou que também pode jogar pelo time
Quando se fala em Gabigol, normalmente a primeira imagem que aparece é a do centroavante comemorando gol. É natural. O camisa 9 construiu boa parte de sua carreira justamente em cima da capacidade de aparecer no lugar certo e decidir partidas.
Contra o Vasco, porém, houve algo além disso.
Gabigol se mostrou participativo sem a bola, ajudando o Santos a competir e oferecendo movimentação para abrir espaços. A primeira grande chance santista surgiu justamente quando Barreal encontrou o atacante nas costas da defesa. Gabigol ficou cara a cara com Léo Jardim, mas finalizou para fora. No segundo tempo, recebeu uma oportunidade praticamente semelhante e, desta vez, não perdoou.
É um aspecto importante para entender a evolução do Santos.
O atacante não precisa necessariamente tocar dezenas de vezes na bola para ser importante. Se consegue se movimentar, pressionar, atacar profundidade e incomodar a defesa adversária, sua presença passa a ter impacto mesmo quando não está finalizando.
E os números mostram que a fase de Gabigol está longe de ser desprezível. Segundo análise do ge, o jogador chegou a 17 gols em 34 partidas pelo Santos. Mesmo tendo desperdiçado uma chance clara em São Januário, continua sendo a principal referência ofensiva da equipe.
Isso pode ser decisivo na reta final.
Neymar também entendeu que não precisa fazer tudo sozinho
Se Gabigol chamou atenção pelo trabalho sem bola, Neymar foi importante por outro motivo: liderança.
O camisa 10 não teve uma grande atuação individual no primeiro tempo, quando o Vasco conseguiu controlar boa parte das ações. Ainda assim, permaneceu envolvido na partida e apareceu justamente quando o Santos precisava transformar a superioridade territorial em vantagem no placar.
As duas bolas paradas cobradas por Neymar foram fundamentais para a goleada.
Primeiro, uma falta levantada para a área acabou desviada em William Arão e morreu no próprio gol. Poucos minutos depois, Neymar cobrou novamente, dessa vez diretamente para o gol. Léo Jardim espalmou, mas Luan Peres aproveitou o rebote para marcar o terceiro.
Mais do que os lances técnicos, existe uma mudança comportamental importante.
O ge destacou a postura de Neymar nos últimos jogos, com o jogador assumindo um papel mais próximo de capitão, vibrando, participando e evitando entrar na provocação dos adversários. Contra o Vasco, isso ficou ainda mais evidente em um ambiente que recebeu o camisa 10 com muitas provocações antes da partida.
Neymar não precisa entrar em todas as discussões. Talvez seja justamente aí que esteja uma das melhores notícias para o Santos.
Santos começa a entender como potencializar as estrelas
Existe uma armadilha quando um time possui jogadores do tamanho de Neymar e Gabigol: esperar que eles resolvam absolutamente tudo.
O Santos parece estar começando a fazer o contrário.
A ideia é que Neymar e Gabigol sejam decisivos, mas que os outros jogadores assumam responsabilidades suficientes para compensar aquilo que os dois não conseguem entregar defensivamente durante todos os minutos. Afinal, não existe futebol moderno em que dois craques possam simplesmente ficar esperando a bola enquanto os outros nove correm por eles.
A vitória em São Januário mostrou exatamente isso.
O Santos precisou sofrer no primeiro tempo. Precisou defender. Precisou contar com Gabriel Brazão. Precisou aceitar que o Vasco teria momentos de superioridade. E, quando apareceu a oportunidade, foi cirúrgico. Esse equilíbrio pode ser a grande arma do time de Cuca.
Rollheiser mostra que existe uma carta importante no banco
Outro ponto positivo foi a entrada de Rollheiser.
O argentino entrou no segundo tempo e ajudou o Santos a ganhar mais volume pelo meio-campo. Sua participação é particularmente relevante porque mostra que Cuca não depende exclusivamente da dupla Neymar-Gabigol para mudar o comportamento ofensivo da equipe.
Isso parece óbvio, mas não é.
Em uma temporada com Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana, nenhum time consegue sobreviver utilizando sempre a mesma fórmula. O calendário vai exigir mudanças, jogadores diferentes e, principalmente, capacidade de competir mesmo quando uma das estrelas estiver fora.
E esse talvez seja o verdadeiro teste do Santos nas próximas semanas.
Elenco consegue sustentar esse estilo?
A resposta ainda é uma incógnita.
O Santos tem jogadores capazes de cumprir funções importantes, mas a dependência de Neymar e Gabigol continua sendo considerável. Os dois são responsáveis por boa parte do talento individual da equipe, e o time não pode simplesmente esperar que ambos estejam disponíveis e em alto nível em todas as partidas, sem contar que para defender, são nulos.
O calendário, aliás, não vai colaborar.
O Santos viaja ao Equador para enfrentar o Macará pela Copa Sul-Americana, enquanto Neymar deve permanecer em Santos e voltar a ficar à disposição para o duelo contra o Mirassol. Depois, vem um compromisso ainda maior: o confronto com o Palmeiras pelas quartas de final da Copa do Brasil, marcado para o dia 26.
Ou seja, Cuca terá de administrar elenco, viagens, desgaste e diferentes contextos de jogo.
E existe ainda a questão física. Neymar já não está em uma fase da carreira em que pode ser tratado como um jogador comum de calendário cheio. Se o Santos quiser extrair o melhor do camisa 10 nos momentos decisivos, provavelmente precisará escolher cuidadosamente quando utilizá-lo.
A ausência dele no Equador é justamente um exemplo disso. Sem contar que, o fato de estarem brigando para não cair, e ao mesmo tempo em três competições, é um ponto a se reparar. O Fortaleza foi rebaixado mais ou menos neste mesmo contexto, pensando em três vertentes, e caindo em todas.
Vitória contra o Vasco foi importante, mas não resolve tudo
O 3 a 0 teve peso enorme porque o Santos vinha pressionado no Brasileirão e enfrentava um adversário direto. A equipe entrou em campo empatada com o Vasco em 22 pontos e saiu quatro pontos à frente do rival, além de subir para a 14ª posição. Mas seria exagero transformar uma vitória em São Januário em prova definitiva de que todos os problemas desapareceram.
O Santos ainda precisa melhorar a consistência. Não pode depender de sobreviver a períodos de domínio adversário em todos os jogos e esperar que Gabigol e Neymar resolvam depois.
Contra adversários mais fortes, especialmente nas Copas, esse roteiro pode cobrar uma conta bem mais salgada.
Por outro lado, há motivos concretos para otimismo.
Gabigol está participativo, Neymar parece cada vez mais confortável exercendo liderança, Rollheiser oferece uma alternativa para aumentar o volume ofensivo e o restante do elenco está mostrando disposição para compensar o que as estrelas não conseguem entregar defensivamente.
É uma equação que pode funcionar.
Santos parece ter encontrado uma fórmula
O grande mérito da vitória sobre o Vasco foi mostrar que o Santos pode ser competitivo mesmo quando seus principais jogadores não dominam a partida durante os 90 minutos.
Gabigol perdeu uma chance, mas marcou na seguinte. Neymar não brilhou o tempo inteiro, mas decidiu em duas bolas paradas. Os demais jogadores fizeram o trabalho necessário para que os dois pudessem aparecer nos momentos importantes.
É exatamente esse tipo de funcionamento coletivo que o Santos vai precisar daqui para frente. O Brasileirão exige regularidade. A Copa do Brasil não perdoa erros. E a Sul-Americana colocará o time diante de viagens, altitude e partidas de mata-mata. Não basta ter Neymar e Gabigol. É preciso que o Santos saiba jogar com eles e também sem eles.
Se Cuca conseguir manter essa divisão de responsabilidades, o Peixe pode transformar uma temporada que começou cercada de preocupação em algo bem mais interessante. Porque, pelo menos em São Januário, ficou uma impressão bastante clara: quando Gabigol corre sem a bola, Neymar lidera sem entrar na pilha e o restante do elenco compra a ideia, o Santos fica bem mais difícil de derrubar.
Foto: André Durão



