O Santos conseguiu o mais importante: venceu o Macará por 2 a 1 e levará a vantagem do empate para o Equador. Só que, olhando para os 90 minutos disputados na Vila Belmiro, é difícil dizer que o resultado representa exatamente o que aconteceu em campo.
O Peixe saiu atrás logo aos quatro minutos, depois de uma desatenção defensiva que permitiu a Franco Posse abrir o placar. A equipe demorou para reagir e, mais uma vez, apresentou alguns dos problemas que já apareceram desde o retorno da Copa do Mundo.
A diferença é que, desta vez, havia Neymar. O camisa 10 participou diretamente dos dois gols santistas. Primeiro, encontrou Gabigol com um passe preciso para o empate. Depois, cobrou rapidamente o escanteio que terminou no gol de Willian Arão.
O Santos virou, teve outras oportunidades e até marcou mais duas vezes com Gabigol, mas os gols foram anulados por impedimento. No fim das contas, o resultado foi positivo. A atuação, nem tanto.
Santos começa mal, reage e termina no sufoco
O gol sofrido logo no começo é sintomático de um Santos que ainda demonstra dificuldade para entrar nas partidas com o nível de concentração necessário.
O Macará não precisou de muito para sair na frente. O cruzamento encontrou Posse, que desviou para vencer Gabriel Brazão. A equipe equatoriana, que disputou na Vila um dos jogos mais importantes de sua história, aproveitou a oportunidade e conseguiu controlar o ritmo durante parte da primeira etapa.
O Santos teve dificuldades para acelerar a circulação da bola e encontrar espaços diante de um adversário que, depois de marcar, passou a se defender mais baixo.
Neymar também não começou o jogo em seu melhor nível. O próprio relato da partida aponta alguns erros de passe e de tomada de decisão nos primeiros minutos. Aos poucos, porém, o camisa 10 foi encontrando espaços e assumindo o protagonismo que o Santos precisava.
Foi assim que surgiu o empate. Aos 43 minutos, Neymar recebeu próximo da área e encontrou Gabigol em ótima condição. O atacante bateu de primeira e marcou seu 100º gol com a camisa do Santos, transformando uma atuação que caminhava para ser bastante complicada em uma partida novamente aberta.
Depois do intervalo, o Peixe melhorou e a equipe passou a ocupar mais o campo de ataque. A pressão sobre o Macará criou oportunidades suficientes para virar. Gabigol chegou a balançar as redes outras duas vezes, mas ambos os gols foram anulados por impedimento. A pressão, porém, continuou até a virada com Arão.
O problema é que o Santos não matou o confronto. E isso pode fazer diferença.
Neymar foi decisivo, mas esse não pode ser o único plano
É impossível falar da vitória sem destacar Neymar. O camisa 10 terminou a partida com duas assistências e participou diretamente dos dois gols. Mais do que isso, voltou a mostrar uma característica que talvez seja ainda mais importante para o Santos atual: a capacidade de enxergar uma jogada que os demais jogadores não conseguem.
No primeiro gol, o passe para Gabigol desmontou a defesa equatoriana. No segundo, a cobrança rápida do escanteio encontrou Arão livre para completar a virada.
Sem dúvidas, Neymar foi o grande responsável pela vitória e destacou que o resultado veio muito na conta do camisa 10. A análise também apontou que Cuca apostou em Arão improvisado na zaga e acabou tendo problemas físicos com Gabriel Menino e Gabriel Bontempo.
É justamente aí que aparece o alerta: o Santos não pode depender de lampejos de Neymar para resolver todos os seus problemas.
Quando o camisa 10 encontrou espaço, o jogo mudou. Quando ele conseguiu acelerar as ações, o Santos ficou mais perigoso. Mas, durante boa parte da partida, a equipe novamente pareceu pouco criativa e dependente de uma solução individual.
E isso é especialmente perigoso em um confronto de mata-mata. O Macará mostrou que consegue dificultar a construção santista. Na volta, provavelmente terá ainda mais motivos para adotar uma postura reativa e explorar os espaços deixados pelo Peixe.
Cuca, inclusive, reconheceu que a equipe precisa ser responsável na viagem ao Equador e afirmou que poupar jogadores será praticamente obrigatório, diante do calendário e da necessidade de preservar o elenco.
Quão perigosa é essa vantagem?

A vantagem de 2 a 1 é boa, mas está longe de ser confortável. Mas, ao analisar friamente, podemos chegar a pergunta de milhões: os torcedores devem se preocupar?
A resposta é: bastante. Não porque o Santos esteja em desvantagem — pelo contrário. O Peixe joga pelo empate e pode até perder por um gol de diferença para levar a decisão aos pênaltis. Mas o contexto da partida de volta aumenta consideravelmente o risco.
O confronto será disputado no Estádio Bellavista, em Ambato, a cerca de 2.600 metros acima do nível do mar. É uma condição diferente daquela encontrada na Vila e que pode pesar principalmente para uma equipe que precisará suportar momentos de pressão.
Além disso, o Santos terá um desfalque confirmado: Escobar recebeu o terceiro cartão amarelo e não poderá atuar na partida de volta.
E há outro detalhe importante: o Macará não precisa fazer uma grande partida para mudar completamente o confronto. Um gol equatoriano deixa tudo igual no agregado. A partir daí, o Santos terá de reagir novamente, desta vez longe de casa e em condições ambientais diferentes.
Por isso, o 2 a 1 é um resultado que precisa ser valorizado, mas não tratado como uma classificação encaminhada. Tal conclusão pode salientada pelo fato de que Cuca deixou em aberto qual time iniciará o jogo da volta, dando a entender que há possibilidades dos reservas ganharem minutos.
“Praticamente obrigatório fazer isso, se não vai perder mais jogadores. Certamente vai acontecer isso, porque vão ter 72h para jogar, menos do que isso, para jogar com Vasco no domingo, um jogo muito importante, depois tem a viagem longa, e um jogo complicado.”
“Está dentro das competições, lado importante para nós todos. Se a gente consegue passar essa fase, vê mais próximo a final, que é o objetivo de todo grande clube. Não podemos abrir mão de qualquer competição, mas temos que ser responsáveis para não perder mais jogadores” – explicou
O Santos poderia ter construído uma vantagem maior na Vila. Teve oportunidades para isso e chegou a marcar mais duas vezes, mas não conseguiu transformar o domínio da segunda etapa em um placar mais confortável.
O Peixe precisa ser mais do que Neymar
A vitória trouxe uma notícia muito boa para Cuca: Neymar e Gabigol finalmente conseguiram produzir juntos.
Foi uma conexão importante. O camisa 10 foi responsável pela criação, enquanto Gabigol voltou a marcar e ainda incomodou bastante a defesa equatoriana.
É um caminho interessante para o Santos. Se Neymar encontrar Gabigol com frequência, o time ganha uma arma que pode fazer a diferença nos mata-matas. Mas a equipe precisa construir condições para que essa dupla não fique isolada do restante do time.
O problema do Santos continua sendo coletivo.
A defesa ainda oferece espaços desnecessários. O meio-campo tem dificuldades para controlar determinados momentos das partidas. E o ataque, apesar de ter produzido mais depois do intervalo, ainda depende demais da inspiração de seus principais jogadores.
A vantagem de 2 a 1, portanto, não é ruim. Longe disso. O Santos venceu, joga pelo empate e conseguiu sair de uma situação complicada depois de sofrer um gol no início. Porém, na medida em que podemos valorizar a vitória, também não podemos relegar essa análise a ingenuidade.
Como o jargão futebolístico prescreve: “o campo fala”. E os sinais apresentados podem desencadear um diagnóstico mais sério em um Santos enfermo desde o início da temporada.
Na Vila, Neymar apareceu para resolver. Na próxima quinta-feira, em Ambato, o Santos provavelmente precisará de mais do que alguns lampejos do camisa 10. Porque, se o Peixe repetir os primeiros 40 minutos da partida de ida, a vantagem de um gol pode desaparecer muito rapidamente. E aí Neymar talvez não consiga salvar a noite outra vez.
Créditos da foto de capa: Raul Baretta/ Santos FC.