O torcedor do São Paulo vive aquele clássico dilema do futebol brasileiro: o time até entrega resultado, mas não convence totalmente, não tem algo tão vistoso, tão atrativo assim. E, sob o comando de Roger Machado, essa sensação ficou ainda mais evidente neste início de temporada.
Sim, o Tricolor está lá em cima na tabela do Brasileirão. Sim, os números não são ruins. Mas também é verdade que o desempenho ainda não bate de frente com o que se espera de um time que quer levantar a taça em dezembro, ou que pelo menos pensa em performar entre os grandes destaques do continente.
E aí entra o detalhe mais interessante dessa história: se no Campeonato Brasileiro o São Paulo aparece distante de conquistar um título, ou pelo menos ser uma dor de cabeça na ponta da tabela, na Sul-Americana o papo é completamente diferente ali, o time tem cara (e cheiro) de favorito, e muito disso se diz pela vontade dos atletas, junto do nível dos seus adversários também…
Um começo sólido do São Paulo… mas que não empolga
Desde que assumiu o comando em março, Roger Machado rapidamente colocou o São Paulo nos trilhos, mesmo ele não estando tão distante deles com Hernán Crespo, mas deixou a parada mais sólida. Em poucos jogos, já são bons resultados e um aproveitamento que gira na casa dos 60%, números que, por si só, colocam qualquer técnico em uma zona confortável.
O time se encontra, inclusive, a brigar pelas primeiras posições do Brasileirão, com campanhas consistentes e vitórias importantes. Mas quem acompanha de perto sabe: tem algo faltando.
O próprio contexto entrega isso. Mesmo em jogos vencidos, o São Paulo muitas vezes apresenta um futebol pouco convincente. Aquele famoso “ganhou, mas não convenceu” virou quase rotina, e isso acaba vindo dos outros trabalhos de Roger Machado. Em algumas partidas, a equipe teve mais resultado do que desempenho, algo que o próprio ambiente interno já admite.
E isso pesa. Porque, no Brasileirão, não basta somar pontos. Para ser campeão, é preciso sustentar um nível alto por 38 rodadas e, hoje, o São Paulo ainda oscila demais para esse tipo de ambição.
Problemas que ainda travam o São Paulo
O São Paulo de Roger tem ideias claras: amplitude, jogadores de velocidade pelos lados e construção mais organizada. Em alguns momentos, isso funciona muito bem, como na vitória convincente sobre o Cruzeiro por 4 a 1.
Mas o problema é a constância. Em seguida, se deparou com uma forte derrota para o Vitória por 2 a 0, mas depois derrotou o Boston River fora de casa na Sul-Americana por 1 a 0, simplesmente uma montanha-russa de resultados e emoções. É necessário ressaltar que o São Paulo acaba sofrendo com:
dificuldade de transformar posse em chances claras;
exposição defensiva pelos lados;
pouca agressividade ofensiva em momentos decisivos;
Não é um time ruim, longe disso, foi capaz de se movimentar muito bem nesta última janela de transferências, com certeza com um dos melhores trabalhos de mercado do país. O elenco é competitivo, organizado e tem boas peças. Mas também não é, hoje, aquele time que entra em campo impondo medo em qualquer adversário do Brasileirão.
E, convenhamos, para disputar título com times mais encaixados, isso faz diferença.
Na Sul-Americana, o São Paulo muda completamente
Agora, troca o canal. Sai o Brasileirão, entra a Copa Sul-Americana. E aí o São Paulo vira outro personagem. Na competição continental, o time começou muito bem, com vitórias fora de casa e liderança de grupo. Mais do que isso: o nível dos adversários é claramente inferior ao que o clube enfrenta semana após semana no Brasileirão.
E isso faz toda a diferença.
Contra equipes como Boston River e O’Higgins, o São Paulo consegue controlar o jogo com mais tranquilidade, errar menos e potencializar suas qualidades, nesta última terça-feira (14), até chegou a passar por maus bocados, mas nada absurdo. Não precisa jogar no limite o tempo todo e isso ajuda muito um time que ainda está em construção. A equipe tricolor não passou por problemas no MorumBIS, sem contar que, o segundo gol foi uma completa pintura.
Então, talvez seja interessante e o clube paulista deve saber, que voltar suas atenções para Sul-Americana pode render um ponto final de qualidade, com espaço para sonhar com título.
Pressão existe no São Paulo, mas o ambiente ainda segura
Apesar das críticas ao desempenho, o ambiente interno ainda é positivo. Jogadores defendem o trabalho de Roger Machado e destacam evolução no dia a dia. Ou seja: não tem crise instaurada. Mas também não dá pra dizer que está tudo perfeito.
É aquele momento clássico de temporada:
o resultado segura a bronca e o desempenho acende o alerta.
O São Paulo de Roger Machado vive em duas dimensões diferentes em 2026. No Brasileirão, é um time competitivo, mas ainda distante do nível necessário para ser campeão. Falta consistência, sobra irregularidade.
Quando o assunto se tornar a Sul-Americana, o cenário muda completamente. O nível dos adversários, o encaixe do time e o contexto da competição colocam o Tricolor como um dos grandes favoritos ao título. E talvez essa seja a melhor definição possível agora:
O São Paulo ainda não é um time pronto para dominar o Brasil… mas pode muito bem ser suficiente para conquistar a América, pelo menos a “segunda prateleira” dela. E no futebol, às vezes, isso já é mais do que suficiente para transformar uma temporada em sucesso.
Foto: Gilson Lobo