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São Paulo sofre com escalação sem centroavante, mas reage após ajustes de Dorival para conquistar um ponto importante; confira as impressões do jogo

O São Paulo escapou de uma derrota que parecia se desenhar nos primeiros minutos, mas o empate por 1 a 1 contra o Mirassol, neste sábado (24), pela 32ª rodada do Brasileirão, deixou uma questão importante sobre as escolhas de Dorival Júnior. Sem Artur e Calleri, o treinador apostou em uma formação com três volantes, Lucas e Luciano no ataque e nenhum centroavante de origem.

A estratégia comprometeu a presença tricolor na área adversária, dificultou a construção ofensiva e deixou a equipe exposta diante de um Mirassol que encontrou espaços para ameaçar o gol de Rafael. O empate só ganhou forma quando o São Paulo passou a ocupar o campo de ataque com mais jogadores e corrigiu parte dos problemas apresentados no início.

O resultado tem dois lados. Por um lado, o Tricolor evitou uma derrota fora de casa e ampliou para três jogos sua sequência invicta, chegando aos 43 pontos e permanecendo na primeira metade da tabela. Por outro, o desempenho voltou a mostrar as limitações de uma equipe que, mesmo sem grandes objetivos a alcançar na reta final do campeonato, precisa encontrar soluções mais consistentes para competir. Em uma temporada na qual a regularidade tem sido um desafio, conquistar pontos mesmo sem jogar bem pode ser importante, mas não elimina a necessidade de avaliar os erros que quase custaram caro em Mirassol.

A ausência de um centroavante deixou o São Paulo sem referência ofensiva

A decisão de iniciar a partida sem um atacante de referência foi o principal ponto de discussão da atuação tricolor. Com Calleri fora por causa de dores no joelho esquerdo, Dorival Júnior escolheu Lucas e Luciano para formar a dupla ofensiva, concedendo liberdade de movimentação aos dois. A intenção poderia ser aproveitar a mobilidade, a capacidade de condução e a qualidade técnica dos jogadores para criar espaços na defesa adversária. O problema foi a ausência de alguém que ocupasse permanentemente a área e oferecesse uma referência para os companheiros.

Lucas e Luciano não desempenharam a função de centroavante, e suas movimentações deixaram os defensores do Mirassol relativamente confortáveis para acompanhar as jogadas. Quando os dois recuavam ou se deslocavam para os lados em busca da bola, faltava um jogador capaz de prender os zagueiros, atacar os cruzamentos e oferecer uma opção de passe próximo ao gol. O São Paulo conseguia circular a posse em alguns momentos, mas tinha dificuldade para transformar essa movimentação em perigo concreto.

A questão não era simplesmente a ausência de Calleri, um dos principais nomes do elenco para atuar como referência ofensiva. Ryan Francisco, André Silva e Gustavo Santana estavam no banco, mas Dorival optou por iniciar com uma estrutura que não contava com nenhum deles. A escolha exigia adaptações coletivas para compensar a falta de um centroavante, especialmente com a chegada de jogadores de outros setores à área. Como essas movimentações não aconteceram com a frequência necessária nos minutos iniciais, o time perdeu presença ofensiva e teve dificuldades para sustentar ataques.

O problema se agravou porque a equipe também apresentava falhas defensivas e dificuldades para controlar o meio-campo. A escalação com três volantes não garantiu a proteção esperada, enquanto a ausência de uma referência na frente dificultou a retenção da bola no campo adversário. Sem conseguir ameaçar o Mirassol com regularidade, o São Paulo permitiu que o adversário recuperasse a posse e voltasse a atacar, criando um cenário em que as fragilidades defensivas se tornavam ainda mais evidentes.

Uma formação sem centroavante pode funcionar quando existe movimentação coordenada entre os atacantes, aproximação dos meio-campistas e ocupação constante dos espaços próximos à área. Para isso, porém, é necessário que os jogadores compreendam quando devem recuar para participar da construção e quando precisam atacar a profundidade ou ocupar a zona de finalização. O São Paulo demorou a encontrar esse equilíbrio, e a liberdade concedida a Lucas e Luciano acabou reduzindo a presença do time na região em que as jogadas precisavam ser concluídas.

Rafael evitou que os erros custassem ainda mais caro

Se o São Paulo conseguiu chegar ao intervalo com o placar empatado, Rafael teve participação decisiva. O goleiro realizou intervenções importantes em uma etapa inicial na qual o Mirassol encontrou espaços para avançar e ameaçar a meta tricolor. A atuação do camisa 23 impediu que as dificuldades coletivas se transformassem em uma desvantagem maior antes que Dorival pudesse reorganizar a equipe.

Os problemas apareceram em diferentes setores. A marcação não conseguia controlar adequadamente os movimentos do adversário, o posicionamento defensivo deixava espaços e a equipe demonstrava pouca capacidade de reagir às jogadas do Mirassol. O gol de Neto Moura, em uma cobrança de escanteio, foi consequência de um cenário no qual o São Paulo já vinha sofrendo para conter o rival. Embora a bola parada tenha sido determinante para abrir o placar, o desempenho anterior mostrava que o perigo não se limitava a esse tipo de jogada.

Rafael, portanto, não foi apenas um destaque individual, mas a principal razão para que o Tricolor permanecesse vivo no confronto durante seus minutos mais complicados. Quando uma equipe começa mal e depende repetidamente do goleiro para evitar gols, isso normalmente indica que a proteção coletiva não está funcionando como deveria. O desempenho do arqueiro merece reconhecimento, mas também serve como alerta para Dorival, porque a repetição desse cenário aumenta o risco de que uma atuação defensiva insuficiente resulte em derrota.

O São Paulo precisava de uma resposta rápida, tanto para recuperar a confiança quanto para evitar que o Mirassol ampliasse a vantagem. Entretanto, a reação não poderia depender exclusivamente de Rafael. Era necessário corrigir a ocupação dos espaços, aumentar a participação dos jogadores ofensivos e fazer com que a equipe passasse a disputar a partida mais perto da área adversária.

Os ajustes de Dorival mudaram a presença ofensiva do Tricolor

A melhora começou quando o São Paulo passou a colocar mais jogadores perto da área do Mirassol. Durante uma parada técnica, Dorival Júnior reuniu os atletas à beira do campo e transmitiu orientações para corrigir os problemas observados. A partir daquele momento, a equipe encontrou uma maneira mais eficiente de atacar, deixando de depender apenas da movimentação de Lucas e Luciano e aumentando a participação de jogadores que vinham de posições mais recuadas.

O gol de empate ilustrou essa mudança. Lucas arrancou com a bola, avançou e cruzou para a área. Depois de insistir na jogada, a bola voltou a ficar à disposição do São Paulo, e Bobadilla participou da sequência que terminou com Pedro Lima marcando. A construção reuniu jogadores de setores diferentes perto do gol adversário, com um atacante, um volante e um lateral-direito envolvidos na ação ofensiva.

Esse detalhe é relevante porque mostra que a solução não surgiu simplesmente de uma jogada individual, mas de uma ocupação mais agressiva da área. O São Paulo passou a contar com mais alternativas para disputar a bola e aproveitar os espaços, aumentando a possibilidade de que uma segunda jogada terminasse em finalização. Quando não existe um centroavante de referência, a chegada de meio-campistas e laterais pode compensar parcialmente a ausência, desde que seja coordenada e acompanhada por movimentações que confundam a marcação.

O empate também demonstrou a importância de Dorival reconhecer e corrigir os problemas ainda durante a partida. A equipe não precisava necessariamente abandonar toda a ideia inicial, mas precisava ajustar a forma como os jogadores se distribuíam no campo ofensivo. A presença de Lucas e Luciano continuava oferecendo mobilidade, porém era necessário que outros atletas ocupassem os espaços deixados por eles e que o time não ficasse sem opções próximas ao gol.

A resposta veio a tempo de evitar que o São Paulo fosse para o intervalo em desvantagem. Ainda assim, a melhora não deve esconder a lentidão com que a equipe encontrou soluções. O problema estava presente desde os primeiros minutos, e a necessidade de uma intervenção durante a parada técnica mostra que a estratégia inicial não funcionou como planejado. Em jogos nos quais o adversário começa melhor, demorar para reconhecer as dificuldades pode significar perder o controle do resultado antes que haja tempo para reagir.

Um segundo tempo morno limita a reação e mantém o empate como saldo positivo

Depois de chegar ao intervalo com o placar igualado, o São Paulo não conseguiu transformar a reação em domínio na etapa final. O segundo tempo teve poucas situações de pressão mais intensa e não apresentou uma equipe disposta a assumir riscos constantes para buscar a vitória. O Mirassol também não conseguiu impor uma nova sequência de ataques capaz de alterar o resultado, e o confronto perdeu parte da intensidade que havia marcado os minutos iniciais.

Nesse contexto, o empate acabou refletindo uma partida de dois momentos distintos para o Tricolor. No início, o time esteve perto de sofrer um prejuízo maior e contou com Rafael para permanecer no jogo. Depois, corrigiu parte dos problemas, encontrou o gol e conseguiu evitar uma derrota fora de casa, mas não sustentou a evolução ofensiva a ponto de transformar a igualdade em vitória.

A postura da etapa final pode ser compreendida à luz da situação do São Paulo no campeonato. Com 43 pontos e ainda na primeira metade da tabela, a equipe conquistou um resultado que preserva sua posição e amplia a sequência invicta para três partidas. Depois da derrota para o Cruzeiro, no dia 7, o time venceu Vitória e Vasco e empatou com o Mirassol, uma série que oferece algum alívio em um momento no qual o desempenho não tem sido suficiente para entusiasmar a torcida.

Isso não significa que o empate precise ser tratado como uma atuação satisfatória. Há uma diferença entre reconhecer o valor de um ponto conquistado fora de casa e ignorar os problemas que quase impediram sua obtenção. O São Paulo mostrou capacidade de reação, mas também expôs dificuldades na marcação, na ocupação ofensiva e na escolha da formação inicial. Para Dorival, o desafio será evitar que a necessidade de corrigir o time durante os jogos se transforme em um padrão recorrente.

A sequência invicta tem valor porque ajuda a estabilizar os resultados, mas a evolução de uma equipe não pode ser medida apenas pela ausência de derrotas. É necessário observar se o time consegue controlar melhor os adversários, criar oportunidades com regularidade e reduzir a dependência de intervenções individuais. Em Mirassol, Rafael precisou trabalhar bastante para evitar que o resultado escapasse, enquanto o ataque demorou a encontrar a organização necessária para ameaçar a defesa rival.

O São Paulo precisa transformar os pontos conquistados em sinais de evolução

Na reta final do Campeonato Brasileiro, o São Paulo talvez não tenha muito espaço para oferecer grandes respostas ao torcedor, mas ainda precisa encontrar maneiras de encerrar a temporada com um desempenho mais consistente. O empate fora de casa contribui para manter a equipe na primeira metade da tabela e prolonga a série invicta, mas também deixa evidente que a estabilidade dos resultados não veio acompanhada de uma evolução uniforme dentro de campo.

A ausência de Calleri explica parte das dificuldades, porque o argentino oferece uma referência ofensiva que modifica a maneira como os adversários defendem e como os companheiros ocupam a área. Entretanto, a falta de um centroavante não pode ser a única explicação para o desempenho. Quando Dorival escolhe atuar sem um jogador dessa característica, a equipe precisa apresentar alternativas coletivas para compensar a ausência, com aproximação dos meio-campistas, movimentação coordenada e maior presença na zona de finalização.

O jogo mostrou que essas soluções estavam disponíveis, mas demoraram a aparecer. O empate veio justamente quando Lucas, Bobadilla e Pedro Lima participaram de uma sequência que levou mais jogadores para perto do gol. Essa movimentação deveria ter sido parte do plano desde o início, sobretudo porque a formação escolhida exigia que os atletas compensassem a ausência de uma referência fixa. A correção durante a parada técnica foi importante, mas também revelou que a preparação inicial não conseguiu antecipar adequadamente as dificuldades que o modelo apresentaria.

Defensivamente, o São Paulo também precisa reduzir os espaços concedidos e evitar que Rafael seja obrigado a compensar repetidamente os erros coletivos. O goleiro foi fundamental para preservar o resultado, mas depender de atuações individuais para sobreviver aos momentos de pressão não é uma solução sustentável. A equipe precisa proteger melhor a própria área, melhorar o posicionamento e impedir que o adversário encontre tantas oportunidades nos minutos iniciais.

O saldo final é ambíguo. O Tricolor saiu de Mirassol com um ponto, três partidas sem perder e a possibilidade de encerrar o campeonato em uma posição mais confortável do que a atuação poderia sugerir. Ao mesmo tempo, a partida reforçou a impressão de que o time ainda procura respostas para problemas que não se resolvem apenas com mudanças pontuais. A escolha por jogar sem centroavante falhou, a reação veio após ajustes e a etapa final não apresentou força suficiente para buscar a vitória.

Por isso, o empate pode ser valorizado sem que seus defeitos sejam ignorados. Na reta final da temporada, cada ponto tem importância, especialmente quando conquistado fora de casa em uma partida na qual a equipe esteve perto de perder o controle do placar. Mas, para que essa sequência invicta represente algo além de uma melhora momentânea nos resultados, Dorival Júnior precisará transformar os ajustes feitos durante o jogo em soluções que funcionem desde o apito inicial. O São Paulo escapou de uma derrota em Mirassol; o próximo passo é mostrar que consegue competir melhor sem depender tanto da reação.

(Foto: Rubens Chiri/São Paulo)