Saúl Ñíguez resolveu falar. Em entrevista sincera ao programa espanhol *El Partidazo de Cope*, o meio-campista espanhol abriu o coração e comentou diversos temas da sua carreira, desde a passagem turbulenta pelo Atlético de Madrid até os novos desafios no Flamengo, passando por sua relação com Simeone, críticas construtivas a João Félix e um olhar cuidadoso sobre Lamine Yamal, joia do Barcelona.
Diretamente do Rio de Janeiro, onde acaba de iniciar uma nova etapa no futebol brasileiro, Saúl mostrou maturidade, autocrítica e um discurso mais leve — mas ainda assim contundente. Ao lado de Filipe Luís no projeto rubro-negro, ele quer reencontrar o bom futebol e, quem sabe, sua melhor versão.
Escolha de Saul pelo Flamengo
Saúl poderia ter seguido outro caminho. Segundo ele, a proposta mais vantajosa financeiramente veio do Trabzonspor, da Turquia. Ainda assim, escolheu o Flamengo por questões pessoais — e pela confiança no projeto liderado por um velho conhecido.
“A oferta econômica do Trabzonspor era maior, mas vim ao Rio de Janeiro por motivos pessoais. A presença de Filipe Luís no banco foi um ponto a favor”, revelou.
O reencontro com o ex-companheiro dos tempos de Atlético pesou na decisão. Saúl vê no Flamengo não apenas um desafio esportivo, mas também uma oportunidade de reconstrução pessoal e profissional.
Passagem pelo Atlético: gratidão e frustrações
Ao falar sobre sua história com o Atlético de Madrid, o discurso de Saúl mistura orgulho, frustração e sinceridade. Ele reconhece que sua trajetória no clube foi, nas palavras dele, “estranha”, mas valoriza o que viveu ali.
“No fim das contas, minha história foi meio rara, mas realizei o sonho de jogar no Atleti. Por onde passei, deixei uma boa impressão — e é isso que levo comigo”.
Mas Saúl também não se exime de responsabilidade. Ele assume que muitos dos problemas pelos quais passou dentro de campo foram consequência de dificuldades internas que não soube lidar.
“Sempre digo que a culpa foi minha. Tem muitas situações que acabam com sua confiança… O jogador precisa saber administrar isso, e talvez eu não tenha conseguido”.
Simeone: relação direta, sem falsidades
Sobre Diego Simeone, técnico com quem conviveu por tantos anos, Saúl foi direto. Admitiu que houve altos e baixos, mas exaltou a sinceridade do treinador — especialmente em contraste com outras figuras do clube.
“Nossa relação teve momentos difíceis, mas sempre fomos diretos… e isso foi o que mais gostei. Valorizo o fato de ele nunca ter sido falso comigo, diferente de outras pessoas dentro do clube”.
Ele até chegou a pensar que o “Cholo” havia perdido o brilho em certo momento, mas voltou atrás:
“Teve um ano em que achei que ele tinha perdido a energia, mas Simeone vai ficar no Atlético até quando quiser. A mensagem dele ainda tem força. Ele tem gás para muito tempo”.
Atlético gastador: fim das desculpas
Com uma postura crítica, Saúl também comentou a política de investimentos do Atlético de Madrid nos últimos anos. Para ele, o discurso de que o clube não pode competir financeiramente com gigantes europeus não cola mais.
“Ano passado gastaram 200 milhões, esse ano estão indo pelo mesmo caminho. Já não dá pra dizer que ‘o Saúl ganha muito’, ou que outro ganha demais. A verdade é que o clube está gastando como os outros e precisa competir por tudo”.
João Félix: talento não basta
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando o meia falou sobre João Félix. A passagem frustrada do português pelo Atlético ainda repercute, e Saúl fez questão de deixar claro que talento, por si só, não resolve nada.
“Ele tem todas as qualidades para ser um jogador incrível, mas por melhor que você seja, se não trabalhar, não adianta”.
Saúl citou uma frase do técnico Paco Jémez para ilustrar sua visão:
“O talento sem trabalho não é nada. Muitos de nós tentamos ajudar o João, mas se a pessoa não quer…”.
A crítica não parece ser movida por rancor, mas sim por frustração de quem conviveu de perto com uma promessa que não se concretizou.
Yamal: calma com a nova joia
Por fim, Saúl também comentou sobre o fenômeno Lamine Yamal, de apenas 17 anos, tratado como o próximo grande craque da Espanha. Para o ex-atleticano, o garoto tem um talento especial — mas precisa ser protegido da pressão excessiva.
“Tem que deixá-lo jogar. Estão colocando muita pressão porque o nível dele é altíssimo. Mas não veremos outro Cristiano Ronaldo ou Messi. Aquilo foi único”.
Novo começo no Brasil
Aos 29 anos, Saúl Ñíguez embarca numa nova fase da carreira. Deixando para trás as pressões da Europa, ele tenta reencontrar a leveza no Brasil — e, quem sabe, resgatar a melhor versão de um jogador que já foi destaque em grandes momentos da história recente do Atlético de Madrid e da seleção espanhola.
A entrevista mostra um atleta que não foge das responsabilidades, fala com clareza, e está determinado a virar a página. O Flamengo, nesse cenário, pode ser o palco ideal para esse recomeço.